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A história do blues e as verdadeiras origens do estilo

Gênero tem suas raízes traçadas desde a África e se tornou uma das mais influentes forças da música popular ocidental durante o século 20

25 jun 2026 - 08h08
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Antes do rock'n'roll, havia o blues. O estilo musical desenvolvido por afro-americanos no sul dos Estados Unidos se tornou a pedra fundamental da música pop ocidental ao longo do século 20, tamanha sua influência em tudo que veio depois na cultura.

Pai do Chicago blues moderno, Muddy Waters se apresentando em 1976
Pai do Chicago blues moderno, Muddy Waters se apresentando em 1976
Foto: Nicolas Russell / Getty Images / Rolling Stone Brasil

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Até então, havia apenas a música folclórica de pessoas que, após séculos de escravidão, estavam finalmente livres numa terra cheia de opressão. As canções refletiam a condição humana de um jeito único, a ponto de ressoar com quase toda outra cultura.

Por isso, vale explorar de onde veio o blues, bem como algumas de suas curiosidades.

Principais estilos de blues

  • Delta Blues: A forma mais antiga do gênero, nascida no delta do Mississippi. Tocada muitas vezes só por uma pessoa com violão, banjo, gaita ou só na voz.
  • Urban Blues: Adaptação do estilo para um público maior, com elementos de outros gêneros populares como jazz e ragtime. Tocada por banda completa e tem ênfase em piano e metais.
  • Country Blues: Vertente do delta blues que combina elementos de country music. Focada em violão e slide.
  • Chicago Blues: Estilo desenvolvido no pós-guerra em que a linguagem crua do delta é aplicada a um contexto de banda. Guitarras altas se tornam o foco ao invés dos metais e piano.
  • Rhythm & Blues: Evolução do urban blues que larga o jazz e o ragtime para trás em prol de influência do gospel. Piano e guitarras são os elementos harmônicos principais dos arranjos.

O início da história do blues

Grande parte dos escravizados levados para os Estados Unidos eram da região Sahel da África, que faz a transição geográfica entre o deserto do Saara e as savanas. A característica comum dos povos desta parte do continente é uma música construída em cima de instrumentos de corda, enquanto outros povos têm um vocabulário mais percussivo.

Em entrevista de 1999 ao The Daily Telegraph (via Columbia Press), o artista malinês Ali Farka Touré relatou sua experiência ao ouvir blues pela primeira vez. Ele havia sido apresentado à obra de John Lee Hooker por um amigo e achou a música familiar:

"Achei que ele era malinês baseado no que escutei. Era 100% nossa música. As raízes estão na África. Há algo ali; o tronco da árvore, mas há muitos galhos e nos galhos tem as folhas, fritas e é disperso. Musicalmente, é africano, mas as palavras são americanas."

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O especialista em folclore Lamont Pearley Sr. afirmou, em artigo para a African American Intellectual History Society, que o blues como conhecemos nasceu na segunda metade da década de 1860, quando a Guerra Civil americana já havia terminado e os escravizados foram oficialmente libertados no Sul dos Estados Unidos. Entretanto, isso não significava "felizes para sempre".

Muitos ex-escravizados moravam em uma região conhecida como o delta do rio Mississippi, no noroeste do estado americano de mesmo nome. Violência de cunho racista era um problema sério, além da questão dos negros livres não terem dinheiro ou terra própria.

Em 1890, a assembleia legislativa do estado passou uma nova constituição efetivamente retirando os direitos civis da população afro-americana. O blues retratava esse cenário de luta constante contra a pobreza e o espectro da supremacia branca, assim como questões mais emocionais, a exemplo das desilusões amorosas e da solidão.

Infelizmente, esse período do blues é mal documentado porque não havia interesse local da população branca. A tradição permaneceu quase que estritamente oral, pois não havia gravações comerciais - o sociólogo Howard W. Odum registrou algumas músicas para fins de pesquisa acadêmica, mas essts foram perdidas - e rádios não permitiam artistas negros.

No período entre a nova constituição do Mississippi e 1920, a falta de crédito para fazendeiros negros e maior opressão política na forma das leis segregacionistas Jim Crow só tornaram o cenário pior. Isso deu início ao que nos Estados Unidos se referem como a Grande Migração, quando afro-americanos se mudaram em massa do sul para o norte. Com eles, foi o blues.

Do delta para o resto do país

Em 1902, a cantora Ma Rainey estava no estado americano de Missouri. Ela tinha 16 anos de idade e se apresentava em "minstrel shows", um espetáculo construído em cima de estereótipos negros para diversão de brancos. A artista relatou anos depois que, após uma performance, uma garota lhe ensinou uma música triste sobre um homem abandonando uma mulher.

A canção logo se tornou parte do seu repertório. Rainey viria a ser conhecida como a Mãe do Blues, chegando a alegar ter dado o nome do estilo. A vida da artista foi retratada no filme A Voz Suprema do Blues (2020), protagonizado por Viola Davis e disponível na Netflix.

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Segundo linguistas, o termo blues tem suas origens documentadas na Inglaterra. Era usado para ilustrar um estado de espírito melancólico e propenso a se entregar ao consumo exagerado de álcool. Entretanto, o primeiro músico a codificar o gênero em termos musicais foi W.C. Handy.

O compositor americano, que se apelidou de Pai do Blues, foi um dos primeiros músicos americanos a incorporar elementos do gênero desenvolvido no delta do Mississippi em canções populares na década de 1910. Quando os anos 1920 chegaram, o blues já era uma das formas mais importantes da música americana, graças ao trabalho de Handy e o sucesso de Ma Rainey e Mamie Smith.

https://www.youtube.com/watch?v=cSuTTSOctGw&list=RDcSuTTSOctGw&start_radio=1&pp=ygUKVy5DLiBIYW5keaAHAQ%3D%3D

Tal popularidade fez artistas antes confinados a bares à beira de estrada no delta a adquirir fama maior. Músicos de country blues como Jimmy Rodgers, Blind Lemon Jefferson e Bo Carter começaram a se apresentar em teatros para plateias negras em cidades como Memphis.

Porém, o estilo urbano de blues popularizado por Ma Rainey e Mamie Smith, que misturava elementos de jazz e ragtime, era a grande força dominante. Os músicos do delta logo ficariam relegados ao segundo escalão.

Enquanto isso, finalmente começou a acontecer uma documentação maior das tradições musicais do delta. O musicólogo John Lomax fez uma jornada através de prisões do Sul dos Estados Unidos. Por lá, homens negros eram desproporcionalmente encarcerados e usados pelas autoridades como mão de obra análoga à escravidão. e Durante essas viagens, encontrou Huddie Ledbetter, mais conhecido como Lead Belly, em 1933.

Foi através dele que vários clássicos do blues como "Midnight Special", "Boll Weevil", "Black Betty" e "Where Did You Sleep Last Night" ficaram conhecidos pelo grande público. Apesar disso, o músico não teve muito sucesso comercial em vida.

https://www.youtube.com/watch?v=PsfcUZBMSSg&list=RDPsfcUZBMSSg&start_radio=1&pp=ygUKTGVhZCBCZWxseaAHAQ%3D%3D

Quando o resto do mundo notou

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, surgiu entre Chicago e Memphis um novo estilo de blues criado por músicos nascidos no delta, mas que se mudaram para o norte durante a Grande Migração. Artistas como Muddy Waters, Howlin' Wolf, Sonny Boy Williamson, Willie Dixon e Jimmy Reed pegaram elementos do country blues e traduziram para o contexto urbano, com bandas completas ao invés de performances solo.

https://www.youtube.com/watch?v=HTDjD_UdJYs&list=RDHTDjD_UdJYs&start_radio=1&pp=ygULaG93bGluIHdvbGagBwE%3D

Além disso, os avanços na tecnologia de guitarras elétricas possibilitaram uma ênfase maior no instrumento em arranjos. Antes, predominavam metais ou piano. Agora, havia amplificadores e também distorção, que os músicos usavam como uma arma ao invés de algo indesejado.

Gravações lançadas por selos como Chess e Sun Records atravessaram o Atlântico, onde atingiram uma geração de crianças e adolescentes britânicos de classe baixa num país devastado pela guerra. Os contos de pobreza, desilusão e luta constante ecoaram junto a essa geração, que começou a dar reconhecimento aos músicos americanos.

Vários artistas de blues aposentados ou tidos como perdidos para o tempo foram redescobertos e endeusados. O principal deles? Robert Johnson, morto em 1938 aos 27 anos, mas cuja proeza no violão fez a Columbia Records relançar todas suas gravações de estúdio sob o título King of the Delta Blues Singers (1961).

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A esse ponto, a geração de jovens ingleses que cresceu sob influência dessa música já estava pronta para revolucionar a música popular. Bandas como Rolling Stones, Yardbirds, Cream e Led Zeppelin pegaram toda a história disponível do gênero e apresentaram sua própria versão.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a música urbana de Ma Rainey havia evoluído ao longo das décadas para o rhythm & blues, que se tornou o rock'n'roll com Chuck Berry nos anos 1950, o soul com a Motown nos anos 1960 e mais tarde o funk nos anos 1970.

Mesmo assim, em meio a todas essas mudanças, o blues continua vivo. Porque a luta é diária e constante. Todo mundo consegue compreender o espírito da música.

https://www.youtube.com/watch?v=gOpKI2caN4M

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