A história de quando Axl Rose virou vocalista do AC/DC
Cantor do Guns N' Roses e fã de carteirinha realizou 23 shows com a banda, em 2016, após afastamento de Brian Johnson devido a problemas auditivos
*Texto disponível na revista especial impressa Rolling Stone Brasil — AC/DC, à venda em LojaPerfil.com.br ||| Quando ainda era o adolescente William Bruce Bailey no Meio-Oeste americano, Axl Rose ouviu "Problem Child", do álbum Dirty Deeds Done Dirt Cheap (1976), e teve uma epifania. A música apresentava o AC/DC a um jovem que também se via como um "garoto-problema". Naquele instante, ele prometeu a si mesmo que, um dia, subiria ao palco com aquela banda. O destino levaria quatro décadas para, enfim, cumprir a profecia — e Rose ainda faria questão de devolver ao repertório do grupo a canção que o havia tornado fã.
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Em 2016, o AC/DC atravessava um de seus períodos mais turbulentos. Malcolm Young estava aposentado por problemas de saúde; o baterista Phil Rudd havia sido preso e, no meio da turnê de Rock or Bust (2014), outro golpe: faltando 23 shows para o fim do giro, Brian Johnson foi orientado por médicos a parar imediatamente, sob risco de perder a audição. Após mais de três décadas à frente da banda, sua saída foi abrupta e pouco cerimoniosa. Foi então que surgiu um herói improvável.
Quando soube da situação, Axl Rose se ofereceu para ajudar a banda a terminar as datas restantes. "Conheço os caras", justificou o cantor a um funcionário da produção do grupo, conforme relato de Angus Young à Rolling Stone. "Eles têm comprometimento. Querem fechar essa agenda." Não havia interesse financeiro nem oportunismo — apenas o desejo de ver o guitarrista e seus companheiros concluírem o trabalho.
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Angus convidou Axl para um ensaio em Atlanta, onde o grupo já havia testado outros cantores. Ali ficou claro que o vocalista do Guns N' Roses havia feito o dever de casa. "Quais músicas você quer passar?", perguntou Angus. Rose sugeriu "Touch Too Much", faixa de Highway to Hell (1979). A resposta surpreendeu: "Negativo… Nós nunca a tiramos". Para Angus, aquilo bastou como prova de que Rose conhecia o repertório a fundo. "Ele é rápido no gatilho", disse o guitarrista, também à Rolling Stone, acrescentando que o cantor lhe lembrava Bon Scott pelo humor e pelo espírito rock 'n' roll.
Havia, porém, um complicador. Rose acabara de reunir-se com Slash e Duff McKagan, da formação clássica do Guns N' Roses, para a gigantesca turnê Not in This Lifetime…, iniciada em abril de 2016. Ainda assim, insistiu que daria conta de ambos os compromissos. O plano quase descarrilou quando, no show de aquecimento do Guns no clube Troubadour, em Los Angeles, ele caiu e quebrou o pé. A solução veio de Dave Grohl, do Foo Fighters, que emprestou sua famosa "rock throne", uma cadeira de palco motorizada e ornamentada com guitarras que usou após sofrer lesão semelhante. "Agora eu entendo o que o Michael Jackson viu nisso aqui", brincou Rose ao falar com o NME sobre o anestésico propofol, que ajudava a lidar com a dor.
Antes mesmo de estrear com o AC/DC, Axl e Angus já haviam testado a parceria no Coachella, em abril. O guitarrista apareceu como convidado no show do Guns N' Roses. A reação do público indicou que a combinação improvável podia funcionar.
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O verdadeiro teste veio em 7 de maio de 2016, em Lisboa, quando Rose fez sua estreia oficial com o AC/DC — sentado no trono, tendo o alcance para os agudos e o faro para se dirigir ao público na hora certa. O setlist ganhou mudanças notórias: voltaram "Riff Raff", ausente desde 1979, e "Rock 'n' Roll Damnation", fora do repertório havia 13 anos. Clássicos dos anos 1970, como "Live Wire", "If You Want Blood (You've Got It)" e "Dog Eat Dog", também reapareceram. Simbolicamente, "Problem Child" voltou ao palco após 15 anos.
Nos bastidores, Rose, que logo não precisaria mais do trono, surpreendeu pela disciplina. Nada de atrasos monumentais; estudava vídeos antigos antes dos shows e trabalhava o repertório com Angus noite após noite. "Ele se prepara, está pronto para o que der e vier", observou o guitarrista à RS.
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Até o fim da turnê, as baixas continuariam. O baixista Cliff Williams anunciou aposentadoria. Ainda assim, o AC/DC sobreviveu. A turnê arrecadou cerca de US$ 221 milhões e Rock or Bust chegou ao primeiro lugar em 13 países. Ao apagar das luzes, contudo, Angus Young se tornaria o único remanescente do álbum Back in Black (1980) a seguir na formação — até a improvável reunião em Power Up (2020).
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