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Maior exposição de Miró no Brasil quer resgatar espírito de contestação do artista catalão

'Miró: Mestre das Formas', abre nesta sexta-feira, 7, no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB FAAP), com ampla seleção de seus trabalhos

10 ago 2026 - 14h27
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Joan era apenas um menino quando se deu conta do sumiço de um dos carrinhos de sua coleção. Perguntou então ao avô onde ele poderia estar, mas não teve resposta. O paradeiro foi descoberto 50 anos mais tarde: o brinquedo agora morava na Fundação Joan Miró, em Barcelona, integrado a uma das muitas esculturas de bronze produzidas pelo catalão ao longo de mais de cinco décadas de produção.

A liberdade do gesto criativo, capaz de transformar qualquer objeto em poesia visual, é uma das marcas mais celebradas do artista presentes em Miró: Mestre das Formas, que abre nesta sexta-feira, 7, no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB FAAP), em São Paulo. Trata-se da maior exposição individual do artista no País desde a que ocupou o Instituto Tomie Ohtake, em 2015.

Exposição 'Miró: Mestre das Formas' mergulha na carreira longeva do artista, acompanhando as diferentes fases de seu trabalho
Exposição 'Miró: Mestre das Formas' mergulha na carreira longeva do artista, acompanhando as diferentes fases de seu trabalho
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Para Marcos Moraes, diretor do museu, a amplitude da obra de Miró garante que cada núcleo da mostra revele algo inédito. "O universo do artista é tão vasto e provocador que todo e qualquer recorte sempre oferece novas e significativas possibilidades de olhares", afirma.

A seleção da vez chega quase 30% maior em relação à anterior, com a presença de 145 obras, entre gravuras, pinturas, esculturas, fotos e tapeçarias, além de 8 vídeos. A maior parte vem da Fundação Miró de Barcelona, mas também há peças da Fundação Miró Mallorca, do Museu de Arte Contemporânea de Mallorca e de coleções particulares.

De acordo com Roberto Souza Leão, CEO do Instituto Totex, responsável pela exposição no Brasil, não faria sentido repetir apenas o que já foi visto por aqui. Por isso, ele se valeu da amizade com Joan Punyet Miró, neto do artista e responsável pelo legado do avô, para reunir um grupo de obras representativo e menos conhecido das diversas fases do mestre, incluindo criações que nunca haviam deixado a Espanha e itens mantidos até então somente às vistas da família do artista.

"As pessoas estão acostumadas a ver o Miró em recortes mais específicos, como a explosão de cores primárias, suas formas e simbologias", afirma Leão. São figuras de pássaros e estrelas, do sol e da lua, que se repetem como partes de um mesmo vocabulário pessoal, depuradas desde os 15 anos, quando foi vendado por um professor e entendeu que, a partir dali, não pintaria mais com os olhos, mas com a mente. "Mesmo quando estava olhando para a realidade, ele estava sempre mergulhando no seu interior e materializando isso através dos sonhos", completa o executivo.

Exposição também contempla as esculturas produzidas pelo artista catalão
Exposição também contempla as esculturas produzidas pelo artista catalão
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

A curadoria do espanhol Jordi J. Clavero estabelece um percurso que começa em criações mais sóbrias, elaboradas sob influência da Guerra Civil Espanhola, na década de 1930, e avança na manipulação de cores e no desenvolvimento de símbolos — escolha que o fez ser enquadrado inicialmente como discípulo do surrealismo.

O espaço expositivo é entremeado por esculturas elaboradas a partir de técnicas de assemblage - nas mãos de Miró, uma vassoura, uma tampa de lata de tinta e uma peça usada para desossar frango se transformam em arte. Moraes destaca especialmente sua dimensão gráfica e experimental, com itens criados nos anos 1960 sob influência de nomes como Jackson Pollock (1912-1956) e Louise Nevelson (1899-1988). Há ainda um bloco inteiramente dedicado a uma série fotográfica realizada por Joaquin Gomez, retratando o artista em cenas íntimas e cheias de informalidade.

A aproximação de Miró (1893-1983) com a arte têxtil ganhou fôlego a partir de seu encontro com o tapeceiro Josep Royo, com quem passou a colaborar. Antes do término da parceria, os dois já haviam combinado a realização de oito tapeçarias em grande formato, que só tomaram forma anos mais tarde. Dessas, sete estão em exibição.

Tapeçarias são destaques entre os trabalhos de Miró que chegam agora ao Brasil, na maior exposição dedicada ao artista já vista no País
Tapeçarias são destaques entre os trabalhos de Miró que chegam agora ao Brasil, na maior exposição dedicada ao artista já vista no País
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Descrito por Leão como a "cereja do bolo", o conjunto é responsável por um dos maiores desafios logísticos da exposição, que vem sendo desenhada há quatro anos e foi viabilizada com recursos captadas via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Juntas, as tapeçarias pesam 10 toneladas. Esse, no entanto, não foi o único percalço encontrado. Por conta da classificação norte-americana de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas, determinada este ano, o seguro obrigatório realizado para empréstimo das obras foi duplicado.

A satisfação de ver todas as peças reunidas ao alcance do público brasileiro, por sua vez, transforma todo o esforço em recompensa. "Quanto mais você conhece a obra de um artista como esse, mais o admira", declara Leão. O sentimento é compartilhado com o neto, que se especializou em História da Arte e hoje está à frente da organização Successió Miró.

Joan Punyet Miró, neto do artista, veio ao Brasil para abertura de exposição no MAB-FAAP
Joan Punyet Miró, neto do artista, veio ao Brasil para abertura de exposição no MAB-FAAP
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

"O mais importante é divulgar a mensagem desse artista, que era um humanista. Alguém que queria a democracia, a liberdade de expressão e a solidariedade", afirma Joan Punyet Miró. Para ele, a principal característica da produção do avô é sua constante busca pelo elemento surpresa. "Em sua obra sempre havia o acidente e um espírito de contestação. Ele era um espírito revolucionário. Nos 1960, já era milionário e poderia ter deixado de trabalhar. Mas não. Ele seguiu até o último dia, sem parar de inventar formas e cores."

Em um mundo cada vez mais balizado pelo minimalismo e tons de cinza, o neto diz sentir falta desse mesmo ímpeto nas crianças de hoje. "Constatamos um distanciamento delas em relação ao mundo das artes. Falta-lhes a gestualidade e a liberdade de Miró."

É nessa busca irrefreável pela invenção que a exposição convida o público a mergulhar, redescobrindo, assim, o valor do imprevisto e da criação.

Para ficar de olho

Roberto Souza Leão, CEO do Instituto Totex, aponta destaques da exposição:

  • "Figuras e Pássaro": Miró deu à filha, María Dolores, uma obra de pequenas dimensões que, sob um fundo vermelho, retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola. A obra permaneceu guardada na casa da família e só recentemente tem sido apresentada para fazer reverberar a mensagem do artista, para que aquela situação não se repita jamais.
  • Série "Os Cachorros": Miró misturou pó de ferro com doce de leite e espalhou a mistura sobre algumas gravuras no chão do seu ateliê em Maiorca. Enquanto secava, seus dois dobermans, atraídos pelo cheiro, pisaram sobre as folhas, deixando marcas de patas. Em vez de descartar tudo, o artista as incorporou ao resultado.
  • A fase negra: Já na maturidade, Miró passou a usar o preto como fundo de tela, intensificando o impacto visual das cores primárias, que pareciam saltar da superfície escura. É nessa fase, nos anos 1970, que o artista alcança uma das expressões mais radicais de sua linguagem simbólica.

Três perguntas para Joan Punyet Miró

Quais características da obra de Miró explicam por que ela não pode ser associada a uma única escola ou movimento artístico?

Ele quis ser um artista livre, jamais associado a uma vanguarda ou a algum "ismo" criativo, como o cubismo, o fauvismo ou o dadaísmo. Embora tenha começado dentro do surrealismo, depois manteve distância dele para chegar a criar uma linguagem pictórica muito mais definida, muito mais "mironiana", com um alfabeto pessoal e uma linguagem universal.

A obra de Miró cativa desde o público especializado até quem a vê pela primeira vez. O que explica esse alcance tão amplo?

Miró é um pintor totalmente atemporal e claramente universal, que criou uma linguagem revolucionária em conexão com todos os "ismos" e todas as linguagens artísticas mundiais. A obra dele se destaca pela liberdade gestual e pelo compromisso com uma linguagem pessoal. Acho que reside aí sua força, capaz de se conectar com crianças, mulheres, homens, jovens e pessoas mais velhas.

Ele construiu um universo visual profundamente onírico, apesar de ter vivido de perto a Guerra Civil Espanhola e a ditadura franquista. O sonho e a poesia são respostas a esse contexto?

Ele sofreu influência da poesia simbolista francesa — Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé —, além dos poetas surrealistas, como Breton, Michel Leiris, Soupault e Prévert. Não se pode esquecer também que sofreu influência da música. Com isso, foi capaz de viajar para além do genocídio, da destruição, do holocausto e dos anos de guerra para encontrar refúgio na imaginação universal e criar um espaço onde pudesse reconfortar sua alma.

Serviço - Miró: Mestre das Formas

  • No MAB FAAP (r. Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo)
  • De ter. a dom., das 9h às 20h.
  • R$ 50 (inteira, de ter. a sex.) e R$ 60 (sáb., dom. e feriados). De 7 de agosto a 12 de outubro.
Estadão
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