Nívea Maria descarta parar de trabalhar e diz que novelas passaram por 'censura' recente: 'Isso é triste'
Atriz está atualmente em cartaz no teatro com a peça 'Querida Mamãe', ao lado de Regiane Alves
Nívea Maria terminou de gravar Êta Mundo Melhor!, da Globo, no começo deste ano e, logo em seguida, já estreou no teatro com a peça Querida Mamãe, com a qual segue em cartaz em São Paulo até outubro. Com 62 anos de carreira, a atriz descarta parar de trabalhar completamente. Ela já tem projetos para o futuro e conta que continua aceitando praticamente toda proposta que lhe fazem, pois acredita que sempre pode colaborar com um personagem para que ele cresça e tenha algo importante a dizer para o público.
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Esse é o caso de Querida Mamãe, peça escrita Maria Adelaide Amaral em 1990, mas que a artista considera ainda bastante atual. Na história, Nívea interpreta Ruth, a mãe conservadora de Helô (Regiane Alves), uma mulher que deseja viver com mais liberdade.
Mãe de três filhos, a atriz conta em entrevista ao Terra que não se identifica muito com Ruth, pois sempre foi uma mãe mais liberal e que procurou entender as novas gerações.
"É sempre necessário um diálogo para conhecer e entender o outro. A peça é de uma atualidade muito grande, por isso que está sendo tão bem aceita pelo público. Eles riem, como nós rimos em algumas cenas, se veem em algumas dúvidas de situações difíceis entre as duas e se emocionam muito, principalmente quando a minha personagem levanta a questão da finitude da vida e mostra que, às vezes, não vale perder tempo com muitas coisas porque a vida pode de repente acabar."
Nívea Maria participou da era de ouro da teledramaturgia brasileira, quando as novelas chegavam a toda a população e dominavam a atenção do público e conversas. Hoje, a atriz enxerga que as tramas não podem deixar de lado o sonho e a fantasia, ao mesmo tempo em que falam de temas atuais e relevantes, para não afastar ainda mais o telespectador que tem outras opções de diversão disponíveis.
"A vida está muito dura, a gente sabe disso, e a dramaturgia pode ajudar um pouco. Não pode perder a emoção, o romance, o humor, o mistério, trazer a realidade de uma forma menos dura ou até ajudar a apresentar soluções para alguns problemas", opina.
Nos últimos anos, as novelas no Brasil foram marcadas por notícias de casais gays que desapareciam de tramas com boas audiências e fazendo sucesso com o público, pela proibição de temas polêmicos, como relações incestuosas, e até pela ausência de histórias que recorrentemente estavam no ar, como as novelas espíritas. Questionada se enxerga que houve uma onda conservadora recente na TV, Nívea Maria opina que sim.
"Se você não informar sobre as mudanças na sociedade, as diferenças, o preconceito que existe, a parte negativa do ser humano, se não mostrar isso e ficar só na história do Joãozinho e da Maria, também não vai atrair o público. Tem que trazer a realidade, mas de uma forma que não ofenda o público. Que ele entenda e que o ajude com aquela história, com aquela informação da novela, a solucionar os seus problemas."
Com tantos personagens que maracaram a televisão brasileira no currículo, a artista conta que ainda hoje procura aceitar a maior parte das propostas que lhe fazem, ainda que o papel pareça pequeno. "Aceito tudo o que me oferecem. É isso que dá certo. Mesmo quando eles não apresentam muito brilho, muito conteúdo, paro para pensar e falo assim: 'Acho que a minha missão como atriz é exatamente dar vida a um personagem e fazer ele crescer, colaborar com o autor'. Nunca me preocupei. Cada ator é protagonista da sua história, do seu personagem, mesmo que não seja protagonista da novela. Sempre trabalhei assim e acho que deu certo até hoje."
Dessa forma, a atriz segue na ativa e não tem o desejo de abandonar os palcos ou os estúdios completamente. Ela quer apenas diminuir um pouco o ritmo para poder trabalhar com mais tranquilidade e se dedicar melhor a cada projeto. "Quando digo que vou me aposentar, é diminuir o ritmo de trabalho para poder oferecer um trabalho de qualidade. É muito cansativo viajar, estar em outros estados e tenho muita responsabilidade de apresentar sempre o melhor. Aposentada eu já sou. Dentro da minha faixa etária, sou uma pessoa que trabalha aposentada."
Da estreia na TV em 1964 aos trabalhos atuais, Nívea diz que sempre buscou interpretar personagens que abordassem temas relevantes para debater com o público e considera que teve sorte com muitos papéis na televisão, desde as heroínas de tramas das 18h, como em A Moreninha (1975) ou Maria, Maria (1978), papéis pelos quais é elogiada até hoje, até seu trabalho favorito na minissérie A Casa das Sete Mulheres (2003).
"Particularmente, gosto muito desse trabalho porque saía totalmente da linha de personagens que eu vinha fazendo. Eu fazia uma Maria que era uma mulher muito dura, muito amarga, muito ruim e muito má com os outros e com ela mesma. Foi um personagem muito rico para criar", recorda.

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