Autocrítica de Lima Duarte gera polêmica: 'Retrato de um tempo e forma de protesto'
Ator contou episódio da infância e foi criticado por outras artistas presentes em evento da APCA; em nota, Lima Duarte contextualiza comentário
Lima Duarte, de 96 anos, foi criticado após seu discurso de agradecimento no Prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte, na última segunda-feira, 4, no Teatro Sérgio Cardoso. O ator contava histórias de sua adolescência, antes do início de sua carreira artística, quando compartilhou um caso envolvendo sua chegada a São Paulo e a descoberta das casas de prostituição. Uma frase interpretada fora de contexto deu início à polêmica dentro e fora do evento.
Logo no início da premiação, Lima Duarte subiu ao palco para receber o Troféu Especial 75 Anos da TV Brasileira. O ator se estendeu longamente contando histórias que foram da chegada da TV ao Brasil por Assis Chateaubriand ao impacto da Segunda Guerra Mundial na circulação de notícias no País.
Lima Duarte, que nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, em 1930, também recordou sua infância, lendo notícias de jornal para o avô, e falou sobre quando chegou a São Paulo.
Duarte relatou ter chegado a São Paulo de carona em um caminhão que transportava mangas, e de ajudar no descarregamento no Mercadão.
Então, falou de quando um colega o convidou a ir a uma zona de prostituição. "Eu falei: 'O que é zona?' Ele falou: 'É mulher (...) Tem duas ruas em São Paulo, Aimorés e Itaboca'. Ele falou: 'Na Aimorés, a mulher é cinco mil-réis. Na Itaboca, é três'. Falei: 'Vamos na Itaboca'. Ele falou: 'Só tem preta'. Eu não fui. Moleque de rua, dormia embaixo do caminhão... não fui porque só tinha preta. Que vida, hein? Que coisas eu fui percebendo ao longo dessa vida."
A frase gerou incômodo e foi interpretada por algumas pessoas presentes como sendo de teor racista, e não um comentário de autocrítica, como ele demonstra na conclusão ao dizer que foi "percebendo" coisas ao longo de sua vida. Atrizes se manifestaram na cerimônia e o caso ganhou repercussão após a Folha de S. Paulo definir o que Lima Duarte disse como "uma frase racista".
Em nota, Lima Duarte disse, por meio de sua assessoria, que sua fala foi um retrato do tempo e uma forma de protesto.
"Eu contei uma memória da minha infância, de um Brasil muito duro, de um menino sem formação, vivendo na rua. Aquela fala nasceu como retrato de um tempo e também como forma de protesto, do olhar de quem respeita e entende uma luta que é de todos", afirma.
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