Festival de cinema brasileiro celebra força, pluralidade e memória afetiva em Paris
O cinema L'Arlequin, no bairro de Saint‑Germain‑des‑Prés, abre as portas para a 28ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que acontece de 7 a 14 de abril e exibe mais de 30 longas‑metragens, reafirmando seu papel como a maior vitrine do audiovisual brasileiro na Europa. Nos estúdios da RFI, a curadora Kátia Adler detalhou a programação que, entre outros momentos marcantes, traz homenagens a Lázaro Ramos, Taís Araújo e Paulo Gustavo.
A programação de 2026 conta com oito filmes em competição, um conjunto de documentários e os lançamentos mais recentes que delineiam o panorama da produção cinematográfica atual. Sobre essa base, entram as escolhas curatoriais que permitem a Kátia Adler estabelecer diálogos, destacar trajetórias e criar focos temáticos. Foi desse movimento que nasceu a homenagem central deste ano: o casal Lázaro Ramos e Taís Araújo.
"Veio uma luz muito boa", explica Kátia Adler. "É a primeira vez que homenageamos um casal. Para mim, eles são um exemplo de Brasil de ontem, hoje e de amanhã. São pessoas essenciais no audiovisual, na política, como exemplos para as novas gerações."
Essa homenagem reflete não apenas o talento artístico do casal de atores, mas também a força simbólica que ambos adquiriram na transformação da representação negra na mídia brasileira. Lázaro e Taís são reconhecidos há décadas como protagonistas de uma mudança estrutural que ampliou a presença, a voz e o imaginário de artistas negros no país, contribuindo de maneira decisiva para romper estereótipos e projetar um Brasil mais plural e inclusivo.
Abertura com "Da Lata - 30 Anos" e "Querido Mundo"
A abertura do festival reúne pulsação musical e sensibilidade narrativa. O documentário "Da Lata - 30 Anos", de Paulo Severo, será exibido com a presença da cantora Fernanda Abreu, enquanto o longa "Querido Mundo", de Miguel Falabella, premiado no Festival de Gramado, compõe a sessão dupla.
Kátia recorda sua primeira impressão ao ver o documentário sobre Fernanda: "O filme dela é excelente; ele conta um pouco a história da música dela e da música brasileira através dela própria. Tê-la aqui conosco é uma honra para nós."
Sobre a escolha de "Querido Mundo" para dividir a abertura, ela acrescenta: "É uma fábula e acho que as pessoas vão gostar muito, vão sair muito positivas da sala depois. É uma história de amor e, ao mesmo tempo, é um filme positivo."
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Música como eixo afetivo do festival
A música ganha espaço central na programação deste ano, com documentários dedicados a Rita Lee, Milton Nascimento, e a presença especial de Alaíde Costa, homenageada pelo longa de animação "A Noite de Alaíde", dirigido pela cineasta baiana Liliane Mutti. O filme celebra os 90 anos da cantora, destacada pelo festival com o a única voz feminina negra da Bossa Nova.
Radicada em Paris, Liliane Mutti dirigiu "Miúcha, the Voice of Bossa Nova", de 2022. Dois anos depois, a cineasta lançou "Madeleine à Paris", sobre o multiartista baiano Robertinho Chaves, figura central da Lavagem da Madeleine e ícone da noite parisiense. Atualmente, ela está finalizando um documentário sobre Angela Rô Rô.
O riso como resistência: tributo a Paulo Gustavo
Pela primeira vez, o festival dedica um bloco inteiro às comédias, em homenagem a Paulo Gustavo, cuja obra permanece entre as mais populares do cinema brasileiro. Kátia lembra o impacto do humorista: "O cinema é um retrato da sociedade e Paulo Gustavo representou muito para o cinema brasileiro. (…) A frase dele, que ele sempre colocou, era 'rir é um ato de resistência'."
Além das estreias e homenagens, a curadora incluiu na programação a "Sessão da Tarde", com os grandes sucessos de 2025, como "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, e "O Agente Secreto", destaque das bilheterias e indicado ao Oscar. Kátia avalia esse momento dizendo: "'Ainda Estou Aqui' com o Oscar foi muito importante. A gente está na cena internacional cada vez mais forte. 'O Agente Secreto' foi um sucesso absoluto."
A ascensão internacional recente do cinema brasileiro
Kátia lembra que os avanços recentes convivem com riscos permanentes e que a continuidade do cinema nacional depende diretamente das políticas públicas. Ela destaca que o Brasil vive um momento crucial, em que a vitalidade artística convive com a memória das fragilidades institucionais dos últimos anos. Recorda, com tristeza, que o governo Jair Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura e paralisou investimentos estratégicos no audiovisual. Essa medida afetou toda a cadeia produtiva e colocou em risco festivais no exterior, como este. Menciona ainda que a morte de Paulo Gustavo ocorreu em um contexto em que o Estado se recusou a comprar vacinas contra a Covid, e que isso marcou profundamente o país e o próprio festival, que este ano o homenageia.
Para Kátia Adler, a programação de 2026 também é uma resposta a esse passado recente. Ao apostar em música, humor, narrativas negras e filmes que dialogam com um Brasil plural, ela reforça sua defesa explícita da democracia e do investimento contínuo em cultura.
"O audiovisual dá um retorno muito importante para a população brasileira. (...) A gente tem que continuar lutando para cada vez mais termos filmes brasileiros fora do Brasil, representando o Brasil. Não importa se é um drama, se é uma comédia, o que for", conclui.