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'Yellow Cake' transforma sertão brasileiro em palco de uma ficção científica inventiva

Tiago Melo se apropria dos códigos do gênero para discutir exploração estrangeira, ciência e identidade nacional em um filme que impressiona pela criatividade

23 out 2026 - 10h08
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Resumo
Exibido na 50ª Mostra de SP, "Yellow Cake", de Tiago Melo, insere a ficção científica no sertão paraibano. A trama aborda um desastroso teste com urânio para combater a dengue e critica a exploração colonial estrangeira de minérios no país. Destacando-se pelo visual inventivo e pela identidade brasileira, a obra peca apenas por um desfecho narrativo um pouco errático, mas se consolida como um experimento cinematográfico instigante e ousado para além dos padrões de Hollywood.

Existe algo de inquietante no universo de Yellow Cake, novo longa-metragem de Tiago Melo (Azougue Nazaré) exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, que transforma o sertão nordestino em cenário de uma ficção científica tão absurda quanto próxima da nossa realidade. Há um estranhamento constante, como se estivéssemos diante de um Brasil situado em um futuro distópico. A atmosfera pode remeter a Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, mas Melo encontra caminhos próprios ao combinar experimentos científicos, interesses estrangeiros e as particularidades de uma região frequentemente deixada à margem das grandes narrativas do gênero.

'Yellow Cake' transforma sertão brasileiro em palco de uma ficção científica inventiva
'Yellow Cake' transforma sertão brasileiro em palco de uma ficção científica inventiva
Foto: Gilvan Barreto / Rolling Stone Brasil

Ambientado em Picuí, no sertão da Paraíba, o filme acompanha um experimento científico secreto que pretende erradicar o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, utilizando urânio extraído da região para esterilizar os insetos. Entre os envolvidos está a física nuclear Rúbia Ribeiro, interpretada por Rejane Faria (Vicentina Pede Desculpas).

Naturalmente, as coisas não acontecem conforme o planejado, e aquilo que deveria representar um avanço científico acaba desencadeando uma catástrofe. A premissa, por si só, já revela uma das principais virtudes de Melo: sua capacidade de encontrar no cotidiano brasileiro, em nossas paisagens, problemas e contradições, os ingredientes para uma ficção científica que não precisa reproduzir os modelos hollywoodianos para encontrar sua própria identidade.

É particularmente interessante como Yellow Cake incorpora a presença de estrangeiros interessados em explorar as riquezas minerais brasileiras, estabelecendo um diálogo com as discussões contemporâneas sobre a disputa internacional por recursos estratégicos, incluindo as terras raras. Embora o urânio utilizado na trama não pertença a essa categoria de minerais, a associação política é inevitável.

O filme encontra na cobiça por aquilo que existe debaixo do nosso solo uma maneira de discutir a permanência de uma lógica colonial, na qual o Brasil continua sendo enxergado por potências estrangeiras como um território a ser explorado. Sob a aparência de progresso científico, escondem-se interesses que pouco parecem preocupados com as consequências para a população local. É justamente nesse encontro entre a fantasia e a realidade política que a narrativa encontra algumas de suas ideias mais provocativas.

Mas o aspecto mais fascinante do trabalho de Tiago Melo está na maneira como ele se apropria da linguagem da ficção científica para torná-la genuinamente brasileira. Em vez de laboratórios futuristas instalados em metrópoles ou paisagens urbanas dominadas pela tecnologia, temos o sertão, seus trabalhadores, suas particularidades e seus conflitos.

O extraordinário surge em meio ao familiar, criando um contraste que não apenas alimenta o absurdo da narrativa, mas também amplia suas possibilidades de interpretação. Existe um prazer evidente em observar como o diretor brinca com as convenções do gênero, demonstrando que a ficção científica pode encontrar caminhos igualmente interessantes quando abandona os grandes centros e passa a olhar para realidades historicamente pouco contempladas por esse tipo de produção.

Essa inventividade também se manifesta na construção audiovisual. Yellow Cake apresenta um cuidado estético que ajuda a conferir materialidade ao seu universo insólito, especialmente por meio da caracterização dos personagens e dos efeitos de maquiagem, fundamentais para tornar palpáveis as consequências do experimento. O desenho de som, por sua vez, desempenha um papel decisivo na criação de uma atmosfera de ameaça, fazendo com que o desconforto ultrapasse aquilo que é mostrado em cena.

Há uma atenção especial às texturas, aos ruídos e à composição dos enquadramentos, como se Melo estivesse constantemente interessado em descobrir novas maneiras de transformar aquele ambiente em algo simultaneamente reconhecível e perturbador. O resultado é um filme cuja ambição visual frequentemente se mostra tão interessante quanto suas ideias.

O problema é que nem sempre essa profusão de possibilidades encontra uma direção narrativa igualmente segura. Especialmente em sua reta final, Yellow Cake parece perder de vista aquilo que vinha construindo, encaminhando-se para um desfecho que soa um tanto deslocado do restante da obra. É como se, depois de estabelecer um universo tão particular e levantar questões instigantes, o filme já não soubesse exatamente o que fazer com elas.

Sua trajetória passa a lembrar o voo errático de um mosquito, que muda de direção sem necessariamente encontrar um destino. Não se trata de exigir explicações para cada elemento de uma narrativa que encontra justamente no absurdo parte de sua força, mas de reconhecer que a liberdade criativa também precisa de alguma coesão para que suas ideias alcancem todo o potencial que carregam.

Ainda assim, seria injusto reduzir Yellow Cake às dificuldades de seu encerramento. Longe de ser decepcionante, o longa permanece como um exercício cinematográfico estimulante, sobretudo por aquilo que revela sobre a imaginação e a ousadia de seu realizador. Em uma cinematografia que ainda explora relativamente pouco as possibilidades da ficção científica, especialmente fora dos grandes padrões comerciais, Tiago Melo demonstra disposição para experimentar, correr riscos e pensar o Brasil a partir de outras linguagens. E, nesse sentido, Yellow Cake deixa a impressão de que a ficção científica é um gênero por onde o cinema brasileiro pode muito bem se arriscar.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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