Spike Lee defende 'Michael' após críticas sobre omissão de acusações de abuso sexual
Cineasta que trabalhou com o Rei do Pop defende cronologia da obra e classifica Jackson como uma 'pessoa maravilhosa'
A recém-lançada cinebiografia de Michael Jackson, Michael, recebeu críticas significativas da mídia internacional por omitir as alegações de abuso sexual infantil que o Rei do Pop enfrentou durante sua carreira.
O longa da Universal Pictures retrata a vida e carreira de Michael (Jafaar Jackson) desde sua infância na década de 60 — quando formou o Jackson 5 ao lado de seus quatro irmãos — passando pelo lançamento dos álbum que o levaram ao estrelato, Off The Wall (1979) e Thriller (1982), até sua turnê final com os Jacksons (Victory Tour) e o lançamento de Bad (1987).
A ideia inicial era que as acusações de abuso sexual infantil que o astro enfrentou a partir de 1993 fossem incorporadas à trama, mas, em decorrência de conflitos legais, o tema não pôde ser abordado. A tensão central da obra é o relacionamento de Michael com seu pai, Joe (Colman Domingo).
Em entrevista recente à CNN, o cineasta e roteirista Spike Lee (Faça a Coisa Certa) defendeu a cinebiografia. Lee foi responsável por dirigir o videoclipe da música "They Don't Care About Us", de Jackson, e outros dois documentários sobre a vida do cantor, Bad 25 (2012 ) e Michael Jackson's Journey From Motown to Off the Wall (2016).
"Em primeiro lugar, se você é um crítico de cinema e está reclamando de tudo - todas essas outras coisas -, o filme termina em 1988", disse (via NME). "As coisas de que você está falando, as acusações, acontecem [mais tarde]. Então você está criticando o filme por algo que você queria, mas que não funciona na cronologia do filme. Mas as pessoas compareceram. No mundo todo, as pessoas demonstraram seu carinho."
Ele continuou: "Sinto falta do Mike. Sinto falta do Prince. Quer dizer, eles são meus irmãos. Trabalhei com os dois. Ambos são pessoas maravilhosas".
Esta é apenas a primeira parte da cinebiografia. O segundo longa deve abordar o período de estrelato individual do cantor, após sua decisão de se afastar dos Jacksons, e entrar em mais detalhes sobre o declínio do astro nos anos subsequentes.
Entenda as alegações
As acusações contra Jackson remetem a 1993, quando o jovem de 13 anos Jordan Chandler o denunciou por abuso. O caso foi encerrado após um acordo civil de aproximadamente US$ 25 milhões, sem que houvesse condenação criminal. Em 2003, novas acusações levaram Jackson a julgamento, mas ele foi absolvido em 2005.
Após sua morte, em 2009, novas denúncias vieram à tona. Wade Robson e James Safechuck abriram processos contra o espólio de Jackson, acusando o cantor de tê-los abusado sexualmente por muitos anos durante a infância. Os processos acabaram sendo arquivados por questões técnicas, sem análise do mérito das acusações (via EW).
Essas denúncias se tornaram tema central do polêmico documentário Leaving Neverland, que inclui relatos explícitos e sensíveis dos acusadores do Rei do Pop. O diretor do longa, Dan Reed, foi um dos maiores críticos da nova cinebiografia. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, ele afirmou que muitas pessoas "simplesmente não se importam" com as denúncias. "Como contar uma história autêntica sobre Michael Jackson sem mencionar que ele foi seriamente acusado de abuso infantil?", questionou.
Problemas na produção
O produtor Graham King (Bohemian Rhapsody) anunciou sua intenção de levar a história de Jackson para as telonas em 2019. No início de 2025, entretanto, Michael enfrentou um obstáculo legal devido ao acordo firmado com Chandler, que continha uma cláusula estipulando que os Chandlers não deveriam ser mencionados em nenhum filme sobre Michael. Chandler era, segundo relatos, uma figura chave no roteiro de John Logan, e a mudança exigiu extensas reescritas e refilmagens.
O espólio de Michael investiu financeiramente no projeto, enquanto seu filho, Prince, atuou como produtor executivo. Segundo a Variety, os herdeiros de Jackson pagaram até 15 milhões de dólares pelas refilmagens.
O diretor Antoine Fuquachegou a questionar a integridade dos acusadores de Jackson, dizendo que, embora não saiba a verdade sobre o que aconteceu, "às vezes as pessoas fazem coisas horríveis por dinheiro".
Reed, de Leaving Neverland, por sua vez, rebateu o posicionamento de Fuqua: "É irônico acusar essas pessoas de interesse em dinheiro quando há tanta gente lucrando com esse filme". Segundo o documentarista, Robson e Safechuck nunca lucraram com as acusações, pois não houve vitória no tribunal.
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