Por que Supergirl mudou o final da HQ 'Mulher Do Amanhã'?
Em nossa entrevista com spoilers, o diretor Craig Gillespie e a roteirista Ana Nogueira explicam as escolhas por trás da mudança
Não tem como fugir do assunto: Supergirl "não correspondeu às nossas expectativas de bilheteria", como o copresidente da DC Studios, Peter Safran, disse ao The New York Times. Ainda assim, o filme gerou muito debate, e um dos momentos mais comentados — ao lado de uma escolha musical bastante surpreendente — foi justamente o final. As ações de Supergirl em relação ao vilão Krem no desfecho (o que, vale o aviso, será totalmente revelado na entrevista a seguir) representam uma mudança significativa em relação a Supergirl: Mulher Do Amanhã, a minissérie em quadrinhos que inspirou o longa. Três dias antes da estreia do filme, a Rolling Stone conversou com o diretor Craig Gillespie e a roteirista Ana Nogueira sobre essa decisão.
Craig, você comentou que sempre adorou o final do roteiro, em que Supergirl mata Krem.
Craig Gillespie: Achei que era algo incrivelmente satisfatório do ponto de vista emocional. Ela passa por essa jornada muito confusa de autodescoberta e de lidar com seus traumas, e aquilo simplesmente parecia honesto para a personagem. Acho que qualquer outra solução teria soado como uma traição à essência dela.
Nos quadrinhos, Krem é apenas enviado para a Zona Fantasma.
Ana Nogueira: Sim.
Craig Gillespie: Mas depois a Ruthye acaba matando ele, não é? É uma energia não tão diferente assim. (Tom King, autor de Mulher do Amanhã, esclareceu posteriormente que, embora uma Ruthye já idosa golpeie Krem com sua bengala quando ele deixa a Zona Fantasma, nem ele nem a artista Bilquis Evely pretendiam que os leitores entendessem que Krem morria.)
Então, Ana, essa mudança já estava no seu primeiro rascunho? Como isso surgiu?
Ana Nogueira: Não, isso já estava no meu pitch. Nunca mudou. Demorei um pouco para encontrar um caminho, porque sabia que não poderíamos simplesmente avançar tantos anos na história. E também sempre achei o final dos quadrinhos sombrio, mas de um jeito diferente. Primeiro porque Ruthye carrega aquilo por tantos anos, o que, para mim, já é uma tragédia. E também porque Krem demonstra arrependimento antes de ela matá-lo. É muito sombrio. Não que isso seja ruim, mas é um tipo diferente de escuridão. Então eu ficava pensando: "O que seria realmente satisfatório em relação a esse cara?". Como o Craig falou, não pareceria honesto que ele morresse por acidente. Eu simplesmente não sabia o que fazer.
Aí, como acontece na escrita, que é um grande mistério, você nunca sabe exatamente para onde a história vai. Você não consegue encontrar um caminho e, de repente, alguma coisa faz sentido. Lembro exatamente do momento em que pensei nas frases: "Isso é pelo meu cachorro, e isso é pelo que você fez com aquela garotinha". Na hora pensei: "Ah, já sei. Já sei o que acontece". Eu sabia o que ela faria e como faria.
Antes mesmo de apresentar o pitch, eu já sabia que James estava aberto à possibilidade dessa mudança. Então não foi como se eu estivesse dizendo: "Agora vou destruir todo esse universo com essa ideia". Mas, como Craig falou, parecia verdadeiro e satisfatório. Qualquer outra solução simplesmente não refletiria quem essa mulher realmente é.
Isso cria uma diferença clara entre ela e o Superman. Esse Superman jamais faria isso, mas essa Supergirl faria.
Craig Gillespie: É exatamente isso que eu adoro. Eles são praticamente opostos nessa forma de enxergar e lidar com o mundo. Acho que isso vai tornar muito interessante a forma como esses personagens seguirão em frente. Sinto que a jornada emocional dela está longe de terminar.
O que eu mais gostava naquele final é que ele sempre esteve presente. Claro que, quando começamos as filmagens, surgiram alguns comentários. Não do James [Gunn] nem do Peter, mas de outras pessoas perguntando: "Será que não deveríamos filmar uma versão alternativa?", caso numa sessão-teste o público reagisse com um "como assim?". James simplesmente respondeu: "Não".
Estávamos filmando essa cena na Islândia, e eu virei para o Peter e perguntei: "Vamos conversar sobre essa versão alternativa?". E ele respondeu: "Não". Disse apenas: "Está tudo certo". E eu pensei: "Ótimo". Também não ia insistir.
Ana Nogueira: Exatamente. Existia esse sentimento de: "Se é isso que vamos fazer, então vamos fazer de verdade". Claro que todo mundo tem opinião. Mas acho que, no geral, as pessoas ficam satisfeitas quando ela faz isso.
Craig Gillespie: É curioso porque é um momento muito complexo. Em determinado momento, Pete comentou: "Acho que as pessoas deveriam estar comemorando". Respondi: "Não sei como alguém poderia comemorar nessa hora". Ela perdeu uma parte de si mesma ali. Está assumindo um peso enorme. Não é algo tão simples assim.
Ana Nogueira: Concordo completamente. É exatamente isso.
Ela também está protegendo a inocência da Ruthye ao assumir essa responsabilidade.
Craig Gillespie: E carregando esse peso consigo. Então não é exatamente um momento para comemorar.
Ana Nogueira: Não. Você sabe que isso vai afetá-la. Mas ela está disposta a seguir em frente mesmo assim. Então não acho que seja um momento de celebração. Espero que seja surpreendente, satisfatório e também triste. Triste por ela, não por ele.
Outra observação cheia de spoilers: o mesmo veneno que Krem usa no Krypto também afeta a Supergirl. Qual é a lógica da história para explicar isso, já que ela tem seus poderes?
Ana Nogueira: Nós entendemos que ele a afeta até certo ponto. Isso também foi algo que o James comentou comigo logo no começo, sobre a forma como os poderes funcionariam. A ideia foi reduzir um pouco o nível deles. No início do filme do Superman, ele está sangrando. Acabou de levar uma surra. Normalmente você não vê isso acontecer, e ele precisa se recuperar ativamente. Então trabalhamos com essa ideia de que ela também pode ser afetada — de que certas coisas conseguem atingir a Supergirl.
Craig Gillespie: Ela pode ficar vulnerável.
Ana Nogueira: Exatamente. Ela pode ser comprometida. Não vai acontecer com ela exatamente o mesmo que acontece com o Krypto, mas também não estamos falando daquela versão desses personagens completamente invencíveis. Acho que isso também ajuda na construção da narrativa.
Craig Gillespie: Normalmente, esse veneno deixaria alguém totalmente incapacitado. Ela ainda consegue lutar, mas está debilitada, talvez com dificuldade para manter o equilíbrio, a visão, acaba voando pela janela, atravessando paredes, e a Ruthye até pergunta se ela está bêbada.
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