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'O Drama' guarda segredo que o torna um dos filmes mais desconfortáveis do ano

Longa, que ganha sessões antecipadas a partir desta quinta-feira (2), é estrelado por Zendaya (Rivais) e Robert Pattinson (Morra, Amor)

1 abr 2026 - 10h30
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O Drama, que ganha sessões antecipadas nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, dia 2 de abril, é daqueles filmes que funcionam melhor quanto menos se sabe sobre ele — e há um bom motivo para isso.

'O Drama' guarda segredo que o torna um dos filmes mais desconfortáveis do ano (Divulgação)
'O Drama' guarda segredo que o torna um dos filmes mais desconfortáveis do ano (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

O longa guarda, no centro de sua narrativa, um segredo que atua como motor de tudo o que está por vir: durante uma brincadeira entre amigos bêbados, cada um deve revelar a pior coisa que já fez na vida. Quando chega a vez de Emma, personagem de Zendaya (Rivais), o que parecia apenas um jogo despretensioso se transforma em ponto de ruptura.

A revelação altera completamente a dinâmica entre os presentes — seu noivo Charlie, vivido por Robert Pattinson (Morra, Amor), reage com desconfiança, seus amigos com incredulidade, e o ambiente se contamina por um desconforto quase palpável. É a partir daí que o filme do norueguês Kristoffer Borgli (O Homem dos Sonhos) lança sua pergunta central: até que ponto conhecemos, de fato, a pessoa que está ao nosso lado?

Antes de chegarmos a essa sequência, uma das mais desconfortáveis do longa — e, acredite, elas são muitas —, acompanhamos a construção da relação entre Emma e Charlie. Borgli apresenta o casal desde o momento do primeiro encontro, depois em sua intimidade, entre afeto, sexo e cumplicidade, enquanto tudo caminha para aquele que deveria ser o momento mais feliz de suas vidas até então: o casamento. Esse primeiro movimento é essencial para ancorar o espectador em uma sensação de estabilidade que será, pouco depois, brutalmente desestabilizada.

A partir da revelação de Emma, O Drama se transforma em uma espécie de comédia romântica às avessas. A narrativa passa a orbitar, em grande parte, a perspectiva de Charlie — nitidamente o mais afetado pelo que descobre sobre a parceira —, enquanto Borgli brinca com a percepção da realidade e com as fissuras da memória. O humor que emerge desse jogo está longe de ser leve: é incômodo, sombrio, ácido, frequentemente arrancando mais tensão do que riso — o famoso "rindo de nervoso".

Há algo de progressivamente caótico na forma como tudo escala, lembrando o segmento do casamento do argentino Relatos Selvagens (2014), em que uma celebração se transforma em um campo de batalha emocional e até física. Ao mesmo tempo, o constrangimento provocado pela exposição de um segredo íntimo em um ambiente festivo evoca Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg, especialmente na maneira como verdades inconvenientes desestabilizam estruturas familiares aparentemente sólidas.

A cada nova conversa, a cada tentativa de explicação, o filme se recusa a oferecer uma versão definitiva dos acontecimentos. Trata-se de uma revelação que remonta a anos atrás, a uma Emma que já não é exatamente a mesma — e, ainda assim, impossível de ser dissociada do presente. Tudo é filtrado por perspectivas, memórias e interesses, criando um jogo de versões que desloca o espectador para um lugar ativo, quase investigativo. Borgli não julga Emma, tampouco a absolve; ele constrói um espaço em que tanto os personagens quanto o público são convidados a decidir o que é, afinal, imperdoável.

Essa recusa em entregar respostas fáceis ao público é também o que torna o filme tão incômodo. Não espere uma história de amor reconfortante ou qualquer promessa de "felizes para sempre". O Drama está pronto para desmontar a fantasia do casamento como ápice da felicidade, colocando em xeque não só a ideia de parceria, mas também os limites da tolerância emocional. A perturbação de Charlie também passa a ser a nossa. Assim como a reação de Emma a todo o cancelamento que recebe também é passível de empatia de nossa parte.

No fim, Borgli está menos interessado em grandes diagnósticos sociais — ainda que o segredo em questão dialogue com aspectos sensíveis da sociedade norte-americana —, parecendo mais fascinado pelo colapso íntimo, pelo espetáculo quase cruel de ver um relacionamento implodir em câmera lenta. É um projeto consciente desse desconforto: pode não ser agradável, e certamente vai gerar debate, mas é justamente nessa ousadia que encontra sua força, consolidando-se como um dos filmes mais desconfortáveis do ano até aqui.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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