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Na 'Odisseia' de Christopher Nolan, a queda de Troia é um aviso para todos nós

O diretor tem uma mensagem clara sobre os custos da guerra e as buscas sanguinárias por poder

17 jul 2026 - 17h46
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A adaptação, no geral excelente, que Christopher Nolan faz de A Odisseia é muitas coisas — e, apesar dos rumores na internet em sentido contrário, certamente não é "progressista".

‘A Odisseia’, de Christopher Nolan, aposta alto — muito alto — para voltar para casa (Divulgação/Universal Pictures)
‘A Odisseia’, de Christopher Nolan, aposta alto — muito alto — para voltar para casa (Divulgação/Universal Pictures)
Foto: Rolling Stone Brasil

Qualquer pessoa que adapte um texto fundacional de toda a literatura ocidental corre o risco de repreensão; o poema épico de Homero é essencial demais, uma história perfeitamente lapidada ao longo de séculos numa tradição oral antes de ser registrada por escrito. Mas a reação doentia e reacionária da turba na internet a este filme — liderada pelo homem mais rico do mundo — antes mesmo do lançamento é absurda. Sim, o diretor certamente sabia que enfrentaria críticas por escalar Lupita Nyong'o como Helena de Troia e o ator trans Elliot Page como um dos soldados fiéis de Odisseu. Vamos deixar de lado as guerras culturais idiotas sobre figuras mitológicas — afinal, onde estava o clamor contra o típico astro americano Matt Damon como o astuto marinheiro grego? Em vez disso, vamos falar do fato de que Nolan construiu um épico anti-guerra e um poderoso alerta sobre os perigos de um colapso civilizacional no nosso tempo. Somado a Oppenheimer (2023), fica claro que Nolan está com o Armagedom na cabeça.

A história deveria ser conhecida por todos: Odisseu, depois de 10 anos lutando em Troia, precisa voltar para sua esposa e seu filho, cercados na própria casa por convidados predatórios. Infelizmente para Odisseu e seus homens, no caminho ele fura o olho do Ciclope, o filho monstruoso de Poseidon, deus do mar, e ganha a ira dos deuses. Por mais 10 longos anos ele navega de volta para casa, enfrentando monstros, bruxas e semideuses, desesperadamente perdido no mar cor de vinho.

Nolan conta essa primeira história de aventura com vividez, como o grande diretor de ação que sempre foi. Mas é o retorno arrepiante à queda de Troia, que surge perto do fim do filme, que faz o verdadeiro tema de Nolan aparecer com clareza brutal: o custo horrível da violência, tanto pessoal quanto social. Como o Odisseu de Damon alerta após a queda de Troia, a "Idade do Bronze" em que todos vivem está chegando ao fim — um fim de civilização como aquelas pessoas a conhecem.

Apesar do caráter mitológico de A Odisseia, esse aspecto da história parece, sim, se apoiar em fatos. Após a queda da Troia histórica por volta de 1200 a.C., todas as civilizações do Mediterrâneo oriental colapsaram. Os misteriosos Povos do Mar começaram a atacar, e a destruição em massa veio em seguida: um arco de fogo e sangue varrendo Grécia, Turquia e Síria, chegando até o Egito. No rastro dessa carnificina, instalou-se uma idade das trevas que durou centenas de anos. O brilhante livro do autor Eric H. Cline, 1177 a.C.: O Ano em que a Civilização Colapsou, percorre as várias teorias sobre por que essa catástrofe aconteceu. Cline mergulha nas guerras dos Povos do Mar, nos efeitos das mudanças climáticas, em guerras comerciais desastrosas, no influxo de novos povos e em revoltas internas — tudo isso desestabilizando a região inteira.

Todos esses fatores são, tristemente, relevantes demais hoje. Eu apostaria dinheiro que Nolan leu o livro de Cline; ele certamente estava familiarizado com o choque de forças que levou a Idade do Bronze a uma queda vertiginosa.

As cenas de devastação violenta e massacre durante o saque da cidade estão entre as mais aterradoras representações de sede coletiva de sangue e conflagração já filmadas. Não porque sejam particularmente gráficas, mas porque o horror nos olhos de Damon deixa o espectador sem dúvida quanto ao preço terrível. Odisseu sabe que o que os gregos fizeram não pode ser desfeito. E, no devido tempo, descobrimos que o que ele viu e fez no incêndio da cidade o assombra. Afinal, foi Odisseu quem concebeu e construiu o cavalo — a traição definitiva, um presente enviado para destruir. A culpa e o horror de Odisseu atravessam o filme e o assombram fisicamente durante a longa viagem de volta. Visões divinas dos mortos seguindo os vivos pelo mundo.

As duas grandes epopeias de Homero, A Odisseia e A Ilíada, nos inspiram há mais de dois milênios. Foram interpretadas, traduzidas e recriadas repetidas vezes — e sempre serão. A versão de Nolan é a que precisamos agora. É um lembrete implacável das consequências das nossas escolhas e de onde, no fim das contas, reside o dever. Se isso não é conservadorismo com "c" minúsculo — e o oposto da política identitária frouxa — eu não sei o que é.

O final inesperado de Nolan para o filme me lembrou outra grande obra que nasceu das raízes profundas de Homero: o clássico The Cure at Troy, do poeta irlandês Seamus Heaney. Os trechos abaixo, em particular, transmitem uma mensagem crucial neste momento de turbulência dentro e fora de casa:

(Em tradução livre)

Os seres humanos sofrem,

Torturam uns aos outros,

Se ferem e endurecem.

Nenhum poema, peça ou canção

Consegue consertar por completo um erro

Infligido e suportado.

A história diz: não espere

Deste lado da sepultura.

Mas então, uma vez na vida,

A tão desejada onda de maré

Da justiça pode se erguer,

E esperança e história rimarem.

Então espere por uma grande mudança,

Do outro lado da vingança.

Acredite que aquela outra margem

É alcançável daqui.

Acredite em milagre

E em curas e poços de cura.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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