Martin Scorsese e a IA: uma contradição que não devemos ignorar
Cineasta que comparou a Marvel a parques de diversão agora abraça uma ferramenta cujo principal apelo não é artístico, mas econômico
Quando Martin Scorsese declarou, em 2019, que os filmes da Marvel se pareciam mais com parques de diversão do que com cinema, o diretor causou polêmica na indústria. Sua crítica não era direcionada aos efeitos especiais ou ao tamanho das produções, mas à transformação da arte em produto. Para ele, cinema era sobre risco, experiência humana, emoção e visão autoral. Era algo que não poderia ser reduzido a fórmulas industriais cuidadosamente calculadas para maximizar resultados.
Por isso, é bastante contraditório, ou no mínimo questionável, vê-lo agora defendendo o uso de inteligência artificial generativa em seu processo criativo. Claro, Scorsese não está falando em criar atores digitais, substituir roteiristas ou produzir filmes inteiros por algoritmos. Seu discurso é mais moderado. Segundo ele, a IA pode ajudar na criação de storyboards e na comunicação de ideias com sua equipe durante a pré-produção. Parece inofensivo. Parece apenas uma evolução tecnológica. Mas é justamente aí que mora o problema. Toda normalização começa pequena.
Hoje, a justificativa é acelerar a criação de storyboards. Amanhã, será gerar conceitos visuais completos. Depois, versões preliminares de roteiros. Em seguida, diálogos alternativos. A lógica da IA generativa nunca foi a de permanecer em um espaço limitado; sua própria existência é baseada na expansão constante de suas capacidades. A pergunta não é se ela ficará apenas nos storyboards. A pergunta é por quanto tempo ficará.
É curioso que justamente Scorsese, um dos maiores defensores da autoria cinematográfica, esteja ajudando a legitimar uma tecnologia cujo principal apelo para investidores e estúdios não é artístico, mas econômico. Afinal, a IA generativa não nasceu para tornar filmes melhores. Ela nasceu para tornar processos mais rápidos e mais baratos. Essa distinção é fundamental.
O argumento usado pelo diretor é que a ferramenta permite compartilhar visualmente suas ideias de maneira mais eficiente. Mas eficiência nunca foi um valor artístico. Nenhuma obra-prima da história do cinema foi celebrada por ter sido produzida da maneira mais rápida possível. A arte frequentemente nasce do tempo, da tentativa, do erro, da colaboração humana e até da dificuldade. Quando a principal vantagem apresentada é economizar horas de trabalho e acelerar etapas da produção, estamos falando de produtividade, não de criatividade. E isso torna a situação ainda mais preocupante quando observamos o contexto atual da indústria.
Nos últimos anos, atores, roteiristas e artistas visuais entraram em conflito com empresas que enxergam na IA uma oportunidade para reduzir custos. A recente controvérsia envolvendo a recriação digital de Val Kilmer em um novo filme reacendeu o debate sobre os limites éticos dessa tecnologia. Diversas premiações e entidades da indústria, como o Oscar, já começaram a estabelecer regras para restringir ou monitorar o uso de inteligência artificial em categorias artísticas, especialmente atuação, justamente porque existe o temor de que a autoria humana se torne cada vez mais nebulosa.
Scorsese não está recriando atores mortos. Não está substituindo equipes inteiras. Mas também seria ingênuo fingir que seu apoio não possui peso simbólico. Quando um dos cineastas mais respeitados da história afirma que devemos estar abertos a essa evolução, ele ajuda a normalizar uma tecnologia que os grandes conglomerados de mídia adorariam incorporar em larga escala. Talvez a maior ironia esteja justamente aí.
Durante anos, Scorsese criticou uma Hollywood cada vez mais dominada por interesses corporativos, franquias padronizadas e decisões orientadas por mercado. A IA generativa representa exatamente a continuação dessa lógica. Não é uma ferramenta criada por artistas para artistas. É uma ferramenta desenvolvida e financiada por empresas que enxergam na automação uma oportunidade de reduzir custos, aumentar produtividade e diminuir dependência de mão de obra criativa.
Chamá-la de ferramenta criativa é aceitar a narrativa vendida pelas próprias companhias de tecnologia. Na prática, a IA generativa é uma ferramenta financeira. Seu maior benefício não é criar imagens mais bonitas, roteiros mais profundos ou personagens mais complexos. Seu maior benefício é fazer mais em menos tempo e com menos pessoas. Isso pode ser excelente para investidores. Pode ser ótimo para executivos preocupados com planilhas. Mas é difícil enxergar nisso uma evolução artística.
O cinema sobreviveu ao som, à cor, aos efeitos digitais e ao streaming porque todas essas transformações expandiam as possibilidades de expressão humana. A inteligência artificial generativa segue uma lógica diferente. Ela busca substituir parte desse processo criativo por cálculos estatísticos baseados em trabalhos produzidos por outros seres humanos.
Por enquanto, Scorsese fala apenas de storyboards. Mas a história recente da tecnologia mostra que o "apenas" costuma ser a palavra mais perigosa dessas discussões. Afinal, toda revolução industrial começa com uma promessa de ajuda. Só depois descobrimos o que realmente estava sendo substituído.
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