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'Indiana Jones': Os 40 anos da construção de um clássico

'Os Caçadores da Arca Perdida' coroou estatuto de Steven Spielberg como 'Midas de Hollywood'

11 jun 2021 - 15h10
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O ano de 1977 foi glorioso para os amigos George Lucas e Steven Spielberg. Lucas lançou o primeiro Star Wars, que virou depois o quarto episódio da saga intergaláctica. O êxito foi retumbante. Spielberg faturara alto com Tubarão, em 1975, e faturou ainda mais com Contatos Imediatos do Terceiro Grau naquele ano. Viraram os Midas de Hollywood. Parecia impossível que a indústria pudesse negar o que quer que fosse para os seus golden boys. Pois negou.

Interrogado sobre o filme que gostaria de fazer, Spielberg respondeu: "Um James Bond". A United Artists, que detinha os direitos do personagem, imediatamente fez saber que estava fora de cogitação. Lucas acenou então com outra possibilidade, uma sinopse que havia escrito com o futuro diretor Philip Kaufman, em homenagem às matinês de antigamente.

Spielberg embarcou, mas se passaram quatro anos até que o primeiro Indiana Jones - Caçadores da Arca Perdida - chegasse às telas de todo o mundo. O filme estreou nos EUA em 12 de junho de 1981 - há 40 anos. No Brasil, estreou no Natal, 25 de dezembro.

O sucesso foi instantâneo, e tão grande, que deu origem a uma série. Surgiram Indiana Jones e o Templo da Perdição, em 1985; Indiana Jones e A Última Cruzada, em 1989; e, depois de quase 20 anos, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, em 2008. Embora lançado com gala no Festival de Cannes, o último foi considerado decepcionante. A promessa de um quinto Indiana Jones parecia descartada, mas justamente nesta semana começou a rodagem, com James Mangold substituindo Spielberg na direção.

Vale lembrar, nesse momento de comemoração, como o personagem foi gestado. Para desenvolver a sinopse de Philip Kaufman, foi chamado Lawrence Kasdan, outro futuro diretor, de Corpos Ardentes e Silverado. Na volumosa biografia de Spielberg, por Joseph McBride - com mais de 600 páginas, edição da University of Mississippi Press -, Kasdan conta: "Num dia, era redator de publicidade, no outro estava sendo chamado para escrever a milionária produção dos dois diretores mais bem sucedidos da época". Parece uma coisa de sonho, mas houve momentos de pesadelo.

Já havia um ator escolhido - Tom Selleck -, mas ele desistiu para fazer a série de TV, Magnum. Lucas então propôs o Han Solo de Guerra nas Estrelas, Harrison Ford. Spielberg topou. Em agosto de 1978, Kasdan entregou o roteiro, mas, antes mesmo de ler, Lucas encomendou-lhe a revisão do roteiro de O Império Contra-Ataca, que não lhe parecia satisfatório. Quando Kasdan voltou ao Indiana Jones, começaram os problemas. "Havia feito o que me pediram, um filme no estilo dos de Howard Hawks nos anos 1930 e 40, como se tivesse sido escrito por ele mesmo. Uma personagem feminina forte, um herói meio a contragosto."

Lucas não gostou. Queria que o personagem tivesse um lado James Bond. Kasdan, Spielberg e Harrison Ford uniram-se contra. Achavam que Indiana já era complicado o suficiente, como dublê de professor e aventureiro. Mas Lucas insistiu e Kasdan escreveu uma cena de sedução - Indy de black-tie com uma loira sexy. Spielberg recusou-se a filmar. O próprio diretor tinha ideias que o roteirista considerava equivocadas. Spielberg queria que ele fosse meio Dobbs, o personagem de Humphrey Bogart em um de seus filmes favoritos - O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston. Em bom português, queria um Indiana alcoólatra. Dessa vez foi a vez de Lucas vetar, apoiado pelo roteirista e pelo ator.

Mais difícil é definir quem teve a ideia do chapéu e do chicote. McBride sustenta que ela surgiu num brainstorm. Por se tratar de um herói dos anos 1930 e 40, os vilões nazistas foram quase a consequência natural. Orgulhoso de sua origem judaica, Spielberg adorou quando a Arca da Aliança do povo hebreu com Deus, após a fuga do Egito, foi parar no centro da trama. Na ficção de Caçadores, Adolf Hitler coloca seus espiões em busca da trilha da Arca, convencido de que ela tornará seu Exército invencível. O final não poderia ser mais spielbergiano. Depois de tanto esforço para localizar e se apropriar da Arca, ela termina confiscada pela burocracia do governo e abandonada num hangar. Se os militares de E.T. tivessem conseguido dissecar o alienígena no filme seguinte, como planejavam, seus despojos talvez fossem armazenados no mesmo hangar.

Indiana virou um ícone da cultura pop. Spielberg desenvolveu depois uma série de TV sobre a juventude do seu herói. Agregou o pai de Indy, e realizou o desejo de dirigir o ex-007 Sean Connery em A Última Cruzada. Incorporou o filho, e Shia Labeouf foi quem fez o papel em O Reino da Caveira de Cristal. Juntos, os quatro filmes renderam quase US$ 2 bilhões. Justamente o quarto, apesar das críticas, foi o que mais faturou - mais de US$ 790 milhões. São números alcançados nos cinemas, mas há também a televisão, os games e os brinquedos associados ao personagem. Uma curiosidade que ninguém até hoje explorou.

Todo mundo sabe da paixão de Spielberg por John Ford - ele já citou Rastros de Ódio e Depois do Vendaval em seus filmes - e também por John Huston. Mas e Byron Haskin? Esse é daqueles diretores considerados menores. Antigo iluminador, estreou tardiamente na direção. Embora irregular, sua carreira tem clássicos das tendências noir e fantástica. Em A Selva Nua, de 1954, Charlton Heston e Eleanor Parker enfrentam uma praga de formigas que destroem tudo à sua passagem. A chamada marabunta rendeu um dos episódios mais divertidos de O Reino da Caveira de Cristal. Um ano antes, Haskin adaptou Guerra dos Mundos e o original de H.G. Wells virou o episódio intermediário da trilogia informal de Spielberg sobre o 11 de Setembro, que inclui O Terminal e Munique.

Considerando-se o fenômeno planetário que viraram os filmes da série com Indiana Jones, talvez cause espanto a reação do próprio Spielberg, lá atrás, em 1981. Instado por seu biógrafo McBride, ele admitiu que fez Caçadores para exorcizar o fracasso de 1941, mas o supersucesso criou-lhe um problema. "A ação é maravilhosa, nossos sentidos gratificam-se com ela, mas, enquanto fazia Caçadores, eu sentia que estava me afastando do motivo que me fez querer ser diretor. Foi para contar histórias de pessoas e seus relacionamentos." Cada um dos filmes seguintes da série envolveu negociação, e convencimento, para que ele aceitasse. No quinto, Spielberg não se deixou convencer.

Estadão
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