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'Honestino' retrata história de líder estudantil morto pela ditadura: 'Todo mundo tem um pouco dele'

Híbrido de documentário e ficção conta a história de Honestino Guimarães, figura importante do movimento estudantil; ele desapareceu em 1973, e sua morte foi reconhecida pelo Estado décadas depois

15 ago 2026 - 09h07
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Foi após ver Bruno Gagliasso no papel de um agente da repressão em Marighella, de Wagner Moura, que o diretor Aurélio Michiles teve a ideia de escalá-lo para viver Honestino Guimarães, líder estudantil que foi sequestrado pelo regime militar e desapareceu em 1973, aos 26 anos.

"Ele sabia das causas que eu defendo, pelo que eu luto e pensou: 'se ele fez aquilo, eu quero muito vê-lo como Honestino'", recorda o ator, em conversa com o Estadão. Um amigo em comum — o cineasta Sérgio Machado, de Cidade Baixa — fez a ponte, e o resultado chega aos cinemas nesta quinta-feira, 13, por meio de Honestino, documentário com sequências que dramatizam a vida de seu retratado.

A história é pessoal para Michiles: tal qual Honestino, ele foi aluno da Universidade de Brasília, e foi nesse contexto que o conheceu. "Por ele ter tido uma trajetória tão exitosa como líder e um final trágico, essa história sempre esteve dentro de mim de uma forma sufocante; sempre tive medo de mexer nela", diz o diretor. Isso começou a mudar, no entanto, em anos recentes: "Com a situação do mundo e do Brasil, onde nós vivemos uma avalanche que culminou em quatro anos de um governo que elogiava a ditadura e os torturadores, comecei a me questionar".

Bruno Gagliasso como Honestino Guimarães em cena do filme 'Honestino'
Bruno Gagliasso como Honestino Guimarães em cena do filme 'Honestino'
Foto: Luciana Melo/Pandora Filmes/Divulgação / Estadão

Coincidentemente, por volta da mesma época, Michiles recebeu uma mensagem de Isaura, primeira esposa de Honestino e mãe de sua filha, Juliana. Isaura lhe enviou um vídeo do neto, Lucas, que discursava por ocasião da reinauguração de uma ponte em Brasília, rebatizada com o nome do avô. Lucas mencionou como gostaria de ter ouvido do próprio avô suas histórias, o que comoveu o diretor. Ele decidiu, então, contar a história de Honestino em filme e recebeu o apoio de Isaura, que lhe entregou ainda uma caixa de pertences. "Eram cartas, poemas, alguns manifestos, comentários políticos, enfim. Toda a vida dele, de 26 anos de idade, estava ali naquela caixa", lembra.

Esses materiais tornaram-se parte importante do filme. Trechos de cartas e outros escritos dão dimensão emocional à figura de Honestino, em uma montagem sensível que costura imagens de arquivo, as cenas ficcionalizadas com Gagliasso e depoimentos de amigos e colegas ligados ao movimento estudantil da época, como o cineasta Jorge Bodanzky. O formato, quase um híbrido, foi uma solução para evitar o que Michiles chama de "um ambiente arqueológico".

Segundo Gagliasso, o encontro de sua versão de Honestino se deu por meio de ideais em comum. "Eu tenho o Honestino em mim; eu luto por democracia, luto por liberdade, luto por tudo aquilo que ele lutou. Eu não tinha registros dele em movimento, mas tinha o principal, que era acreditar no que ele acreditava", diz, acrescentando que isso se estende também ao público: "Acho que todo mundo tem um pouco de Honestino em si. Se você acredita em liberdade, em educação, em democracia, você é um pouco Honestino."

Honestino Guimarães em foto de arquivo usada pelo documentário que leva seu nome
Honestino Guimarães em foto de arquivo usada pelo documentário que leva seu nome
Foto: Pandora Filmes/Divulgação / Estadão

O ator buscou, sobretudo, transmitir a humanidade do retratado. "A gente quer ver não o herói que morreu na ditadura, mas um cara humano; um cara que realmente lutou por tudo isso, mas que era pai, filho, amigo", conta. Questionado sobre a experiência de ter dado vida a Honestino após ter vivido um torturador, ele é direto: "Posso dizer que foi um prazer inenarrável estar do lado certo da História."

'Falar sobre Honestino é falar sobre nossa história'

A história de Honestino Guimarães é uma história, também, da barbárie do regime militar. Militante pela Ação Popular, de bases católicas, foi preso e torturado mais de uma vez, acabou desligado da UnB e teve de viver na clandestinidade a partir de 1968. Três anos mais tarde, foi eleito presidente da UNE, a União Nacional dos Estudantes. Em 10 de outubro de 1973, no Rio de Janeiro, foi preso pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), e nunca mais visto.

Só em 1996 sua família recebeu o primeiro atestado de óbito, que não detalhava a causa da morte. Foram necessários mais 18 anos para que o Ministério da Justiça determinasse a retificação do documento para que constasse como causa da morte "atos de violência praticados pelo Estado".

O caso de Honestino guarda semelhanças com o do deputado Rubens Paiva, cuja história foi o mote de Ainda Estou Aqui, filme brasileiro vencedor do Oscar que provocou uma leva de novas discussões sobre a ditadura. Para o diretor Aurélio Michiles, é necessário que a arte continue a retratar o que aconteceu durante a repressão. "O período dos 21 anos de ditadura é um trauma na vida nacional até hoje. Muitas histórias ficaram para trás, criou-se toda uma narrativa de mentiras, invencionices; é como se você tivesse camadas de lodo que precisa tirar para encontrar água limpa", diz ele, que levou o longa ao Festival do Rio, à Mostra de são Paulo e, mais recentemente, ao Festival Bonito Cinesur.

"Falar sobre Honestino é falar sobre a nossa própria história", concorda Gagliasso. "É não deixá-la ser apagada. É não deixá-la ser inventada por outras pessoas. É simples assim. Há muitos outros filmes sobre a ditadura e vai continuar havendo; por quê? Porque é preciso que haja. Porque é assim também que a gente combate essas pessoas, esses regimes autoritários."

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Estadão
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