'Capitão América' diverte com o homem-fetiche de Chris Evans
- Carol Almeida
Em determinado momento do filme, o grande vilão da história diz, com pinta de profeta, que o mundo do futuro não terá mais bandeiras, que adianta então defendê-las? No que o Capitão América prontamente responde: "Não o meu mundo." É preciso ressaltar que, neste caso, a palavra bandeira não é exatamente uma figura de linguagem para ideologias que transcendem o conceito de estado soberano. A bandeira a que o Caveira Vermelha se refere é especificamente aquela dos países dentro de suas fronteiras. E o super-herói do filme, vestindo as estrelas e faixas da "Velha Glória", está ali para sustentar que é preciso defender a pátria e, mais importante, o patriotismo. Sim, estamos diante de um filme cheio dos clichês do velho orgulho americano, e talvez por não se preocupar tanto em disfarçar isso, trata-se de um título divertidíssimo dentro dessa estética ufanista.
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O primeiro dos Vingadores, aquele conjunto de super-heróis da Marvel que vai tomar os cinemas em 2012 com estrelas pop do porte de Hulk, Homem de Ferro e Thor, Capitão América é mais um filho da Segunda Guerra Mundial, momento em que a América encarou, com armas e shows, sua primeira grande batalha d'além mar. Nesse contexto, o filme brinca com o espírito James Cagney naquele clássico papel de George M. Cohan em A Canção da Vitória (1942): a guerra, os embates e a ideia de vitória fazem parte do showbiz, do entretenimento branco, azul e vermelho da América.
Joe Johnston, diretor de filmes dos quais dificilmente se pode ter orgulho - Jumanji, Jurassic Park 3 e O Lobisomem - comanda esta trama no piloto automático da Marvel e termina não prejudicando a matemática de juntar explicações meio bobas sobre a origem e motivações do super-herói com as necessárias cenas de ação e romance, sendo estas últimas bem conduzidas pela lascívia polidamente londrina da atriz Hayley Atwell no papel da mocinha.
Steve Rogers surge em cena como esse raquítico e lânguido rapaz, numa imagem esquisita de Chris Evans pesando menos que aquela sua última mochila de viagem, em efeitos de computação ora convincentes, ora bizarros o suficiente para a gente achar que o rosto de Evans vai a qualquer momento despencar daquele corpo que não o pertence.
O sonho de Rogers é servir à pátria e embarcar para qualquer embate físico em nome de sua nação. Naturalmente, com sua estatura, isso só será possível no mundo paralelo onde ele entra em linha de combate com soldadinhos de chumbo. Até que, ao observar essa índole patriótica do rapaz, o cientista de sotaque engraçado surge para dar uma luz de esperança ao desmilinguido sobrinho do Tio Sam. Stanley Tucci faz o papel do cientista alemão, contraponto politicamente correto para o filme não entrar nas turvas águas do ódio a nacionalidades. "Se esquecem de que a Alemanha foi o primeiro país a ser invadido por Hitler", ameniza o cientista de Tucci.
Para encurtar a história, Rogers vira então cobaia do cientista maluco e, após algumas injeções na veia, eis que ele quebra todo o paradigma daqueles infomerciais de "ganhe barriga tanquinho em 30 dias". Porque, em questão de segundos, Evans aparece com um tórax que só falta explodir de tão pronunciado. Abram alas então para o homem-fetiche, aquele que, convenhamos, não se preocupa tanto assim em ser só um corpinho. E, para mérito do filme, é Rogers o único personagem em cena que aparece ora seminu, ora vestido com roupas justíssimas. As mulheres da trama vestem comportadas saias abaixo do joelho e camisas bem abotoadas. Salvo, claro, à exceção das dançarinas que entretém jovens soldados. Ainda assim, comparadas ao Capitão América, elas são freiras na indumentária.
Musculoso, alto, loiro de olhos azuis, Rogers dá sequência então ao seu desfile de virilidade e, na primeira cena de ação, sai correndo pela Nova York dos anos 1940 em uma bem montada perseguição em que o herói dispensa carros. Afinal de contas, ele acaba de descobrir que seu corpo é sua melhor máquina. Do outro lado, o inimigo é um espião que trabalha para o grande inimigo do exército americano. Pensou nazistas, pensou errado. Na mitologia do Capitão América da Marvel Comics, o alvo de guerra responde pelo nome de Hidra, divisão ainda mais radical do Nazismo, e seu führer atende pela graça de Johann Schmidt ou, para os íntimos, o Caveira Vermelha, vivido por Hugo Weaving, sempre convincente em papéis que exijam carência de valores morais.
Nosso herói americano parte então numa pequena odisseia para defender os grandes amores de sua vida: a América, a militar britânica Peggy Carter e seu melhor amigo Bucky. Não necessariamente nessa ordem. Nesse processo, protagoniza algumas cenas de ação explosivas com a ajuda daquela coreografia 300 de câmeras lentas que surgem logo antes do golpe fatal. Para tanto, conta com ajuda do veterano coronel Chester Phillips, interpretado sem grandes esforços por Tommy Lee Jones, e do jovem milionário engenheiro Howard Stark, sim, o papai de Tony Stark/Homem de Ferro. A pontuar que Dominic Cooper tenta criar uma versão de seu personagem claramente moldada à Robert Downey Jr., intérprete de Tony Stark no cinema. O resultado poderia ser melhor, fosse ele Downey Jr..
Não é preciso dizer que o filme se encerra com a viagem de tempo que irá introduzir o Capitão América à esperada franquia dos Vingadores. Na pior das possibilidades, será interessante ver o embate de pavão entre os tórax de Evans e o de Chris Hemsworth, o Thor igualmente marombado dos cinemas.
Em qualquer caso, para uma nação que está, palavras de seu presidente, à beira da bancarrota, deve ser acalentador ver e rever super-heróis ainda dispostos a vestir a bandeira americana. Se falta pão, dificilmente faltará circo.