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'A Divisão' revê sequestros no Rio dos anos 1990

Policiais que combatem esses crimes estão no centro da trama do filme que fala de corrupção e violência e já está em cartaz

26 jan 2020 - 06h11
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Vicente Amorim está feliz da vida. Além de A Divisão, a série, ter a melhor audiência do Multishow no segmento, o filme, que foi a origem de tudo, lançado na quinta-feira, 23, teve ótima aceitação da crítica. Bem diferente de Irmã Dulce, que a produção acreditava que teria a mesma aceitação dos filmes espíritas e/ou evangélicos, mas ficou muito abaixo da expectativa. "O público católico é mainstream, não tem a mesma militância", avalia o diretor. "Mesmo assim, o filme fez 400 ou 500 mil espectadores, o que é um número muito bom. É um filme do qual me orgulho. As atrizes que se revezam no papel de Irmã Dulce, Bianca Comparato e Regina Braga, não poderiam ser melhores", afirma.

A Divisão nasceu como longa, que alavancou a série. Foi filmado no fim de 2017, a série foi feita simultaneamente. A primeira temporada estreou no ano passado, a segunda vai ao ar no segundo semestre de 2020. Entre as duas, o filme, que flagra a corrupção e a violência no Rio de forma intensa e visceral e mostra a população amedrontada, vivendo em alerta total.

"A Divisão reconstitui a onda de sequestros que houve no Rio, nos anos 1990, e principalmente em 1997. O roteirista José Luiz Magalhães viveu intensamente aquele período e inspirou o personagem de Juliano Santiago, interpretado por Erom Cordeiro. O filme não seria tão verdadeiro sem o comprometimento dele", afirma Amorim.

Ele também não poupa elogios a Silvio Guindane, que faz o violento delegado Mendonça. "Silvio faz o macho alfa dessa história. Conheci-o garoto, porque fui assistente de Murilo Salles em Como Nascem os Anjos. Silvio tinha o quê? Doze anos. Durante o processo de A Divisão ele foi pai, e tenho impressão que isso contribuiu muito para seu amadurecimento como ator, na construção de um personagem viril."

Na trama de A Divisão, o Rio vive uma onda sem precedentes de sequestros de pessoas ricas. No centro da narrativa, está o sequestro da filha de um candidato a governador vivido pelo ator Dalton Vigh. A assessora explora o caso para dar impulso à candidatura - o público adora uma tragédia.

Guindane faz o delegado encarregado do caso. É forçado a trabalhar com Santiago. É um policial corrupto, mas que revela honra e dignidade insuspeitadas. Parceiros ou antagonistas? Guindane e Cordeiro trombam. "Você está achando que é melhor do que eu?", pergunta o delegado, face a face com o subalterno. Dois homens que pisam/pisaram na bola. Abuso de poder, corrupção. Heróis ou anti-heróis? Ninguém é perfeito, mas a união entre ambos produz uma força de resistência.

Amorim possui o que se chama de "domínio técnico". Preocupa-se, até exageradamente, com a beleza visual. Ângulos, textura da imagem, tudo é muito elaborado e, a princípio, meio que atravanca a ação. Mas a história é muito boa e o filme deslancha. "Nunca pensei nesse filme como um exercício de estilo, mas como um estudo de personagens", define o diretor.

O repórter levanta uma questão. Nos Estados Unidos, o novo filme de Clint Eastwood, O Caso Richard Jewell, teve reações negativas da imprensa por causa da repórter que dorme com a fonte, o agente do FBI, em troca de informações. As mulheres, a delegada, a assessora, a advogada, não valem nada em A Divisão, só a médica e a mãe da garota sequestrada têm humanidade.

O cineasta defende-se: "Não creio que o filme seja misógino. A delegada da história poderia ser homem. Age para se impor, ou manter, no universo masculino. Mostrei o filme a delegadas e nenhuma reclamou do desenho".

Com uma precisa reconstituição de época, A Divisão aborda temas polêmicos, como caixa dois, e propõe uma reflexão sobre a complexa realidade nacional dos anos 1990 e de hoje. "A história é real e não inventamos nada. O problema é que a corrupção continua fazendo parte da vida brasileira", diz Amorim.

Os sequestros acabaram. "É que só atingiam a elite, foi o que motivou a reação e a necessidade de resolver, radicalmente, o problema. Todos os demais indicadores de violência aumentaram no Brasil, desde então, principalmente contra jovens negros e pobres da periferia, mas com eles a elite não está preocupada", acrescenta Vicente Amorim.

Estadão
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