Em 'Lá é o Tempo', Maria Fernanda Maglio abraça a sensação de irrealidade sugerida desde o início
Escritora e defensora pública foge, em seu novo romance, de resoluções fáceis ao lidar com amizade, violência e memória e reafirma que importam a viagem e a busca — matérias que constituem a boa literatura
Uma forma de apresentar Lá é o Tempo (Todavia), segundo romance da paulista Maria Fernanda Maglio, autora também de Quem Tá Vivo Levanta a Mão (Patuá), entre outras obras, e defensora pública, é dizer que ele gira em torno de dois assassinatos e um suicídio e da possível reconstrução narrativa que, no interior do livro, um escritor cheirador (ou cheirador escritor, é difícil estabelecer o que vem primeiro) tenta perpetrar a partir de uma investigação in loco. Outra forma é sublinhar um tanto sombriamente a bela amizade entre dois personagens e o modo como a violência primeiro os separa e depois, ironicamente, trata de uni-los.
Não há, obviamente, nenhum elogio da violência aqui, e o livro não se esgota nessas apresentações tão ligeiras quanto precárias. Mas, por outro lado, é importante assinalar que há nele "um presságio de desgraça misturado com uma euforia impaciente, uma sensação que é o contrário de sentir paz, exatamente o contrário de sentir paz", de tal forma que o "mistério" não é destrinchado, mas alimentado do princípio ao fim.
Há duas dimensões narrativas principais ou, melhor dizendo, diretamente apreensíveis pelo leitor, aqui expostas conforme introduzidas no romance: em um primeiro plano, década de 1990, temos uma cidade interiorana e, nela, um garoto de treze anos chamado André, criado pela avó e pela mãe (desconhece o pai), impactado com a notícia do assassinato de um mecânico chamado Salu, de quem se sentia muito próximo.
Em um segundo plano, temos o "escritor" que, vivendo em São Paulo e trabalhando como professor, casado com uma mulher cujo interesse principal é engravidar ("Você nem sabe se quer ter filho."), bebendo café com pouco açúcar e fazendo pilates (e aqui o leitor talvez pense: você perdeu feio, querido), enfim, esse sujeito ouve confusamente a história de André, Salu e cia. da boca de uma pedinte que parece saída de Twin Peaks e, sentindo que ali está a oportunidade incontornável de retomar seu projeto de escritor (cheirador), abandona a esposa, embarca para a tal cidadezinha e começa a investigar o(s) crime(s).
Esses dois momentos narrativos, por assim dizer, são intercalados com os poucos "depoimentos" que o escritor angaria em sua pesquisa, incluindo do advogado que defendera André (algo que não é spoiler, pois exposto logo no começo: André teria matado o suposto assassino de Salu) e de um dos amigos do garoto.
Ele também se envolve com a filha do policial que lidara com os casos, homem agora senil e vivendo em uma casa de repouso, incapaz de falar — exceto por uma palavra dita perto do fim e que, também ironicamente, alimenta uma espécie de círculo quando, frustrado, o escritor busca uma linha narrativa ou uma corda para se salvar.
Maglio alterna técnicas distintas em momentos distintos. Há uma terceira pessoa limitada quando acompanhamos André em seu luto (a "sessão espírita", a visita ao cemitério), na convivência com Salu (a oficina e os carros, a ida ao circo e o globo da morte, os pastéis etc.) e no desenrolar das violências (o mergulho na mata, a viagem com os policiais, a Febem etc.).
A parte do escritor é narrada em segunda pessoa, o que provoca um curioso efeito simultâneo de aproximação e distanciamento, pois não temos um "eu" ou um "ele", mas um "você", e um "você" cada vez mais perdido e encalacrado na própria armadilha compulsiva que, pela sua própria natureza, jamais será saciada: "Você não está em uma encruzilhada, você estaria em uma encruzilhada se existissem várias possibilidades de caminhos", mas "não há caminho nenhum, só um muro".
Por fim, quando dos "depoimentos" (e também em certas interações com a filha do policial), a voz do escritor desaparece e temos apenas as vozes dos interlocutores, como se eles dialogassem com um fantasma.
O título do romance nasce da justaposição de dois fragmentos. Temos uma palavra escrita no teto da oficina de Salu, "lá", e uma frase curta, "é o tempo", que André encontra em um pedaço de papel preso "à cordinha de descarga com um fiapo", em um banheiro de posto de gasolina, quando está sendo levado por dois policiais para a Febem. Tanto o "lá" quanto o "tempo" são teimosamente elusivos no romance, deslocando-se e escapando a cada aproximação.
De modo inteligente, Maglio evita quaisquer resoluções fáceis e parece abraçar a sensação de irrealidade sugerida desde o início, quando a pedinte apresenta ao escritor aquilo que o obcecará. Diante do mistério inalcançável, percebemos que importam a viagem e a busca — matérias que constituem a boa literatura.
Lá é o Tempo
- Autora: Maria Fernanda Maglio
- Editora: Todavia (160 págs.; R$ 72,90 | E-book: R$ 49,90)
Leia um trecho de 'Lá é o Tempo'
"Mataram o borracheiro Salu. Quem diz é o Tião e na voz não tem espanto nem pesar, só a euforia de ser o portador da má notícia. O sinal ainda não tocou, todos no pátio, uniforme verde-claro, tênis velho, tênis novo, sandália, chinelo, suor às dez para as sete da manhã. André lá, no meio dos que ouviram: mataram o borracheiro Salu.
E para todos os outros que escutaram o anúncio, o Denis e o Valtinho, o borracheiro Salu morto significa: quem é que matou?, foi de tiro ou de faca?, quem achou o corpo?, morreu na hora ou no hospital? Para André, o borracheiro Salu morto é uma pelota engordando rápido no estômago, que nem o mofo da parede do banheiro ou uma massa de bolo com um pote inteiro de fermento. O borracheiro Salu morto. Morto.
Foi tiro. Dois. Um no peito, não no coração, bem no meio, no lugar onde fica pulmão e não sei mais o quê, o outro na cabeça, aí babau, tiro na cabeça é morte certa, meu pai falou. E o pai do Tião (que continua eufórico, sem espanto nem pesar) é alguma coisa entre segurança e bandido, dizem que tem até desmanche.
Quem é que matou ele? E o Tião não responde de pronto à pergunta do Valtinho, faz suspense, porque estão todos em volta, e se o sinal tocar agora, vai dizer: continua depois dos comerciais, já pensou na piada e tudo. Mas o sinal não toca e, fala logo quem matou, cara chato. Tão dizendo que o Tonho Lino. Vixe, esse é bandido. É, bandidão mesmo. O borracheiro devia tá metido com coisa grossa. Nada, certeza que é mulher, vai ver ele pegou a mulher do Tonho Lino.
A pelota no estômago do André estufando que nem bexiga, uma vontade de vomitar e de cuspir, uma dor, mas uma dor.
O sinal toca e eles fazem a fila, a mão no peito, o hino, e a diretora diz uma coisa que André não escuta, uma rifa, a bola de dor tomando os ouvidos, os dentes, o Salu morto, o Salu.
A última vez foi ontem, não, não, ontem André passou na oficina e tinha uma folha de caderno na porta: volto logo. Anteontem Salu contou a história da cobra, de quando morou em outro país, e foi a primeira vez que falou que tinha morado em outro país, como era mesmo o nome, Uruguai, não, não, era Paraguai, isso, Paraguai, estava num rio, represa, uma coisa assim de água e ela veio, a cobra, jaguaçu, jaracuçu, e tinha três olhos e abria a boca para mostrar a língua de três pontas e ele jurou por deus que era verdade e André não queria ter rido, mas riu, não porque achou que a história fosse mentira, levou um susto, uma cobra assim de três olhos e três línguas, não, não, língua de três pontas.
A professora de matemática explica sobre os múltiplos e André é filho único, só a mãe, a avó, e mataram o borracheiro Salu. Ele queria que Salu fosse o pai, mas a mãe falou que André é desses assim sem pai, a barriga engravidando sozinha, que nem a bola do estômago. E se Salu fosse o pai, agora ele seria bem órfão. Mas como é que se chama quem perde assim, uma coisa que não é pai nem tio nem parente de sangue, uma coisa que é assim um amigo, alguém que conta história de cobra de três olhos e briga de faca e uma moça que deu à luz uma onça albina. Começou faz tempo, desde quando a borracharia abriu na esquina da casa do André e ele devia ter seis, cinco anos. A mãe não deixava brincar na rua, filho meu não fica largado por aí, mas na oficina deixava. Ela gostava do Salu, de um jeito que qualquer mulher parecia gostar: uma maneira de falar baixo e de dizer coisas que ninguém diz, conhecer cada barulho do carro, que nem se o carro fosse um bicho, uma gente, que nem se ele fosse um doutor, um médico. E Salu era mecânico, mas o povo chamava de borracheiro, porque no começo era só borracheiro, depois borracheiro-mecânico, agora morto.
A professora ensina a reconhecer os números divisíveis por três, mas isso André não escuta, porque tenta pensar no Salu vivo e onde será que tá o corpo, será que vai ter velório, enterro?, a família dele não é daqui e André nem sabe se tinha família direito, ele só falava da mãe, que morreu faz tempo, tem uma irmã que mora no Mato Grosso. O borracheiro Salu falou que se tivesse um sobrinho, queria que fosse assim que nem André e ensinava os barulhos do motor, os bons e os ruins, o pistão, o cabeçote, a vela de ignição e uma vez tinha um escort (branco, novinho), Salu bateu o olho e falou: é a borboleta, e deixou André fazer tudo, separar o tubo de ar, desmontar, passar o produto.
O velório vai ser três da tarde lá no ginásio, o Tião conta enquanto desembrulha um lanche de presunto. Como é que cê tá sabendo, se tava aqui na escola? E o Tião responde para o Denis que já sabia antes, que o pai falou, só tinha esquecido de contar, que vai ter velório e tudo e nem sabe se vai ser caixão aberto, porque tiro na cabeça ó, se for bala dum dum então, meu pai falou que se for dum dum o buraco é grande.
E o buraco agora é no estômago do André (mesmo tendo comido o sanduíche de ovo mexido que a avó fez para o lanche). Salu morto de buraco na cabeça e caixão fechado. E se o caixão estiver aberto e se ele olhar o borracheiro Salu assim morto, com a cara igual de vivo, e daí perceber que está morto de verdade e começar a chorar que nem se fosse assim um filho, um sobrinho, um parente de sangue, todo mundo da cidade vai rir e os amigos da escola. Porque ninguém ali sabe que Salu morto é um buraco, uma bola.
Na hora da saída, o Tião sugere de se encontrarem na porta do ginásio às dez para as três em ponto, porque depois vai ficar ó, lotado. O Valtinho concorda, o Denis não, porque tem dentista.
E você, André, vai perder?, depois todo mundo vai falar disso e cê fica por fora. André, André, tá ouvindo a gente? Ã? O velório, a gente tá combinando de ir no velório, cê não vai? E André faz que sim com a cabeça, em seguida faz não e fala: vou ver se minha mãe vai. O Denis ri, será que sua mãe era dessas que tinha caso com o borracheiro?, vai vendo, todo mundo que chorar no velório é viúva do borracheiro. Os amigos riem e André ri também, a bola nunca esteve tão grande."
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