De fenômeno das tardes ao ostracismo: o que mudou no "Mulheres" para afastar o público da TV Gazeta?
Há 45 anos no ar, o programa que moldou o cenário das notícias de celebridades, hoje um dos gêneros de maior sucesso na TV brasileira, enfrenta o esquecimento do público.
Há programas que não pertencem apenas à grade de uma emissora, pertencem à memória afetiva do público. O 'Mulheres', da TV Gazeta, é um desses raros casos. Com mais de quatro décadas no ar, a atração construiu uma identidade sólida ao equilibrar prestação de serviço, entretenimento e, sobretudo, conexão direta com quem está do outro lado da tela.
Ao longo de sua trajetória, nomes como Cátia Fonseca, Claudete Troiano, Regina Volpato e Ione Borges ajudaram a consolidar um formato que não apenas se tornaria referência, mas que também influenciaria diretamente a estrutura de diversos programas vespertinos que vieram depois, especialmente aqueles que combinam variedades, opinião e cobertura do universo dos famosos.
Mais do que apresentar, essas figuras imprimiram personalidade, um elemento essencial para transformar informação em companhia diária.
Dentro dessa construção, a chamada "Hora da fofoca" nunca foi apenas um quadro, era, na prática, um dos motores de engajamento da atração. Foi ali que profissionais que hoje já não fazem mais parte do programa, como Mamma Bruschetta, Cíntia Lima, Thiago Rocha, Fefito e Arthur Pires, o Tutu, trouxeram ritmo, opinião e repertório.
Mamma, em especial, permaneceu por cerca de 15 anos exercendo esse papel com autenticidade, consolidando-se nacionalmente ao transformar comentários sobre o universo dos famosos em um diálogo direto com o público.
Cíntia Lima, por sua vez, com mais de 25 anos de carreira e passagens ao lado de nomes como Ronnie Von, Cátia Fonseca e Sonia Abrão, também ajudou a sustentar essa engrenagem. Sua presença representava um ponto de vista ativo, algo fundamental em formatos que dependem de troca e contraponto. Durante a fase mais recente, já sob o comando da ex-Globo, Glória Vanique, o que se via, na percepção de quem assistia, era uma dinâmica diferente, muitas vezes, Cíntia acabava conduzindo sozinha os comentários sobre celebridades.
Em alguns momentos, ficava a impressão de uma certa cautela por parte de Glória ao opinar sobre essas pautas, algo que, em formatos que dependem de troca e contraponto, acabava enfraquecendo o debate e dando a sensação de um diálogo mais limitado.
Com a saída de Cíntia, atualmente, a atração segue sob o comando solo de Vanique, o que reforça, na percepção de parte do público, uma dinâmica menos plural do que em fases anteriores, que sempre foram marcadas pela troca entre diferentes vozes.
Naturalmente, toda leitura externa deve ser feita com cautela. Em televisão, escolhas editoriais envolvem múltiplas camadas e decisões estratégicas que nem sempre são visíveis. Ainda assim, o que se percebe é uma mudança de eixo, de um programa que historicamente se apoiava na pluralidade de opiniões para um formato mais contido, por vezes mais neutro.
Mudanças são legítimas, e, em muitos casos, necessárias. A televisão aberta enfrenta o desafio constante de se reinventar diante das novas dinâmicas digitais. No entanto, toda reformulação carrega um risco silencioso, o de se afastar daquilo que construiu a identificação com o público.
Hoje, a sensação que emerge em parte da audiência é a de um distanciamento. Como se o telespectador, antes participante ativo de uma conversa leve e opinativa, passasse a ocupar um papel mais passivo diante de conteúdos mais lineares, centrados principalmente em culinária e pautas de saúde.
Esse movimento também encontra reflexos no ambiente digital. Diferentemente de outros momentos de sua trajetória, o Mulheres tem aparecido de forma mais restrita às plataformas oficiais do próprio programa e da emissora, com menor presença orgânica nas redes e fora desses canais. Para parte do público, essa ausência de circulação mais ampla pode transmitir a sensação de um programa menos integrado às conversas do dia a dia, como se tivesse perdido espaço no fluxo natural de repercussão que antes ajudava a mantê-lo vivo para além da televisão.
Diante desse cenário, uma parcela do público que se sente órfã desse formato mais opinativo e dinâmico tende a buscar alternativas em programas que dialogam com essa proposta, como Fofocalizando, Melhor da Tarde e A Tarde é Sua, atrações que, em diferentes formatos, mantêm a presença de opinião, debate e cobertura do universo dos famosos como pilares centrais, em uma lógica que, em alguma medida, remete ao modelo que o próprio Mulheres ajudou a consolidar ao longo dos anos.
Há, ainda, uma percepção de mercado que acompanha esse cenário. Em televisão, entrega e valor caminham juntos. Quando a conexão com o público se enfraquece, a percepção de resultado tende a acompanhar esse movimento, o que naturalmente se reflete no interesse e na retenção de anunciantes. Em outros momentos de sua trajetória, o programa chegou a contar com cerca de 21 inserções comerciais diárias, número que hoje, segundo essa mesma percepção de mercado, parece ter diminuído de forma significativa, a ponto de, na avaliação de quem acompanha, poder ser contado nos dedos.
Mais do que apontar caminhos, este é um convite à reflexão. O Mulheres sempre foi mais do que um programa de variedades, foi um espaço de troca, opinião e proximidade.
A pergunta que permanece é simples, e, ao mesmo tempo, decisiva, o que fez o Mulheres se tornar o que sempre foi?
Talvez a resposta esteja menos na busca por uma nova fórmula e mais no resgate de elementos que nunca deixaram de funcionar, autenticidade, pluralidade de vozes e a coragem editorial de opinar com responsabilidade.
Reencontrar essa essência não significa retroceder. Significa reconhecer que, em televisão, tradição e inovação não competem, se completam.
E, no caso do Mulheres, essa combinação sempre foi o seu maior diferencial.
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