ALBERTO AMMANN
Alto, Alberto Ammann não precisa muito para se destacar na multidão. Conhecido agora como o ator protagonista de Lope, co-produção Espanha/Brasil que estreou no Festival de Veneza, ele conversou com o Terra sobre seu novo papel. O argentino que há mais de cinco anos vive na Espanha, falou um pouco sobre suas motivações para entrar nesse projeto sobre o poeta espanhol conhecido tanto pelos seus versos, como por suas conquistas amorosas.
Você disse em uma ocasião que fazer uma história de amor é uma maneira de responder a um sistema que combate o amor. Podia explicar melhor a ideia?
Na época do romanticismo propriamente dito, a questão da vida e da morte era uma coisa até mais cotidiana do que hoje. Houve um tempo em que os poetas e escritores eram quase todos pessoas que cumpriam serviço militar, iam à guerra, matavam, voltavam e compunham sonetos maravilhosos. Nessa ideia romântica de vida e de morte havia na palavra amor um sentimento que se defendia muito mais.
E que não existe hoje?
Não diria que não existe, mas acho que tudo combate isso. O ritmo de vida que levamos, os valores plantados por esse sistema monetário em que vivemos, em que o dinheiro é mais importante que qualquer outra coisa na vida de uma pessoa. Dinheiro, posses, prestígio, tudo isso é mais importante. E pra mim essa é uma maneira que o sistema tem de trivializar tudo, incluindo aí trivializar a palavra amor, que termina sendo desvalorizada e ridicularizada.
Você acredita que há uma ausência de poesia em nosso cotidiano?
Sim, creio que há. E que isso é uma coisa fomentada.
O que te levou a fazer Lope?
Quando escutei o nome de Lope de Vega pelo telefone a primeira coisa que me veio à cabeça foi século 16, 17, época de Shakespeare, Cervantes. Se abriu na minha cabeça esse universo de onde está essa ideia romântica do amor e da morte, de dar a vida e matar por amor. Tudo isso se passou como um flash de imagem e me fascinou. Tive que estudar um pouco sobre a época, até mesmo um pouco sobre os gregos. E aí foram aparecendo mais coisas, o trabalho com Andrucha e seu olhar sobre como ele queria contar a história e abordar os personagens, sua relação pessoal com a equipe, com os atores, o que cada um vai dar de si e o que cada um vai receber.
Quais as semelhanças e diferenças entre o Lope desse filme e o Shakespeare de Shakespeare Apaixonado?
A primeira diferença é que meu personagem é mais sujo (risos). Durante todo o filme estou com uma espécie de graxa em mim... A segunda diferença é que meu personagem talvez não seja tão puro quanto àquele Shakespeare. Ele não é um cara só bom, do tipo: ‘olha que pobrecinho’. É um sujeito que tem ambição, orgulho, há uma parte obscura nele. Havia uma intenção do filme em também mostrar seus erros. Pelo que se sabe, Lope foi uma pessoa muito orgulhosa e ambiciosa, que não parava de tentar fazer parte da nobreza, que atacou alguns de seus companheiros, que participou da Inquisição. Mas há também o Lope romântico, que viveu com uma paixão e amor difícil de se achar. É um personagem de muitas cores e uma das intenções do filme era mostrar esse jovem com muita fome, uma fome que poderia, também, ser perigosa. A proposta de Shakespeare Apaixonado é diferente. Trata-se de um filme, não diria infantil, mas certamente mais próximo de um conto de fadas.
Você ensaiou muito as cenas com espadas?
Bastante. Durante pelo menos 10 dias treinamos intensamente equitação e a luta com espadas. Como tínhamos pouco tempo, nos concentramos mesmo nas coreografias, não podíamos ter aulas de esgrima.
Acabamos de passar por uma temporada de premiações no cinema e Lope ganhou dois prêmios Goya. O quão importante é um prêmio para um filme?
Acho que é importante, caso contrário essas premiações não seriam tão ressaltadas e não haveria tanta produção por trás delas. É importante tanto para a equipe do filme, como para, claro, chamar atenção das pessoas e divulgar a produção. Ajuda a deixar o filme um pouco mais de tempo numa sala de cinema, por exemplo.
Sei que você vive na Espanha. Mas por ser um ator argentino interpretando um espanhol tão famoso, houve algum tipo de problema com o público ou a imprensa local?
Não, não tive nenhum problema. Muito pelo contrário. Os jovens, por exemplo, que de certa forma foram mais tocados pelo filme, me receberam super bem. Aconteceu de eu estar andando na rua e alguns deles chamavam: “Lope, Lope”, me saudavam, me davam boa sorte. De uma forma geral, a recepção do público foi muito boa na Espanha. Com a imprensa também não tivemos problemas.
Você poderia contar um pouco mais sobre seu próximo filme, Eva, que tem também no elenco Daniel Brühl (Bastardos Inglórios e Adeus, Lênin)?
O filme estreia no segundo semestre deste ano e é o primeiro longa espanhol de ficção científica, com efeitos especiais e no contexto de um futuro de uns 40 anos pra frente. Conta a história de três cientistas, sendo eu um deles, e uma menina, que se chama Eva. Os três cientistas tentam levar à frente um projeto tecnológico e bem... tenho que ter cuidado com a língua para não contar a história. Mas enfim, o que posso dizer é que o personagem do Daniel Brühl viaja e, 10 anos depois, quando ele volta, as coisas mudaram. Ele apresenta então um projeto que fará as coisas ficarem interessantes.
Quais os filmes mais memoráveis que você já viu?
Tenho uma memória péssima. Mas nunca vou esquecer Marlon Brando em Sindicato dos Ladrões que, para mim, como ator, em nível técnico, se sobressai. Há uma cena em que ele está numa casa de força pra cortar a luz e há um momento, que pra mim é brilhante, quando ele coloca a mão na caixa de fusíveis, está olhando pro outro lado e se queima. Sua expressão nesse momento é sensacional. É uma coisa de técnica de ator. Sou um pouco “freak” com técnicas de ator.