Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Cármen Lúcia cita crônica de Clarice Lispector em sessão no STF; conheça

Frase usada pela ministra em voto no Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira, 15, integra 'Mineirinho', texto publicado em 1962 após morte de criminoso

18 set 2026 - 22h26
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Em sessão do STF sobre investigação contra Alexandre de Moraes, a ministra Cármen Lúcia citou a crônica "Mineirinho", de Clarice Lispector, para expressar sua tristeza e o "mal-estar cívico" gerado por tensões recentes na Corte, que envolvem também André Mendonça. Publicado em 1962 após a execução do criminoso José Miranda Rosa com 13 tiros pela polícia no Rio de Janeiro, o texto de Lispector aborda os limites da punição, a humanidade compartilhada e a fronteira entre justiça e violência de Estado.
Cármen Lúcia recorre a uma referência a Clarice Lispector ao iniciar voto em sessão no STF
Cármen Lúcia recorre a uma referência a Clarice Lispector ao iniciar voto em sessão no STF
Foto: Wilton Junior/Estadão e Arquivo de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa / Estadão

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), recorreu a Clarice Lispector (1920-1977) ao iniciar seu voto na sessão extraordinária desta terça-feira, 15, que analisa a abertura de uma investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. Ao comentar o ambiente de tensão em torno do caso, ela recuperou uma frase da crônica Mineirinho, publicada pela escritora em 1962.

"Esses dias dizia a alguns colegas, conversei com o ministro Alexandre, com o ministro André (Mendonça), com vossa excelência (Fachin)... Eu bebi da lição de Clarice Lispector: 'Eu não me perdi, mas experimentei a perdição'", disse.

Após citar Clarice Lispector, considerada uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira do século XX, a ministra afirmou estar triste não apenas pelo tema em discussão, mas também pelo que classificou como um "mal-estar cívico" provocado pelo STF nos últimos dias, em meio a impasse entre Moraes e o ministro André Mendonça.

'Mineirinho'

A frase mencionada por Cármen Lúcia aparece em Mineirinho, texto em que Clarice Lispector parte de um episódio real para refletir sobre violência, justiça e responsabilidade. O conto foi publicado originalmente em 1962, no mesmo ano da morte de José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho.

No texto, Clarice acompanha a notícia da morte do criminoso e transforma o episódio em uma reflexão sobre os limites entre punição e violência. A escritora questiona a ideia de uma justiça que se satisfaz com a eliminação daquele que cometeu um crime e aproxima o leitor da humanidade do personagem.

Em um dos trechos mais conhecidos do conto, Clarice escreve: "Essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição".

A narradora reconhece em si mesma algo que também existia em Mineirinho e, assim, questiona a justiça.

Quem foi Mineirinho?

José Miranda Rosa ficou conhecido como Mineirinho por ter nascido em Minas Gerais. Na década de 1960, tornou-se um dos criminosos mais procurados pela polícia do Rio de Janeiro, após uma série de assaltos e confrontos com agentes de segurança.

De acordo com o Instituto Moreira Salles, Mineirinho protagonizou fugas de instituições prisionais e chegou a ser condenado a mais de um século de prisão. Depois de escapar do Manicômio Judiciário, passou a ser alvo de uma grande operação policial.

Sua trajetória também ganhou contornos de lenda. Moradores da Mangueira, onde vivia, teriam oferecido abrigo durante as perseguições policiais. A imagem de Mineirinho como uma espécie de "Robin Hood" carioca convivia, porém, com o histórico de crimes e confrontos que o transformou em um dos homens mais procurados da cidade.

Revista Senhor, na qual Clarice Lispector cronicava desde 1958
Revista Senhor, na qual Clarice Lispector cronicava desde 1958
Foto: Site Clarice Lispector/Reprodução / Estadão

A perseguição terminou na madrugada de 1º de maio de 1962. Mineirinho foi morto com 13 tiros, episódio que ganhou ampla repercussão na imprensa da época.

Clarice Lispector acompanhou o caso de perto. Desde 1958, a escritora colaborava com a revista Senhor, publicação na qual o episódio da morte de Mineirinho também repercutiu. O crime então acabou se transformando em matéria-prima para uma reflexão.

Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra