Aos 88 anos, Arlete Salles rejeita aposentadoria e rebate etarismo: "Não é a hora de ir pra casa"
Com 70 anos dedicados à arte, ela está em cartaz com o monólogo 'Mande Notícias do Mundo de Lá' em São Paulo
Após uma bem-sucedida passagem pelo Rio de Janeiro, Arlete Salles, de 88 anos, retorna a São Paulo para mais uma temporada de ‘Mande Notícias do Mundo de Lá’, o primeiro monólogo de sua carreira. Em entrevista ao Terra, ela falou sobre: etarismo, pressão para deixar os palcos e a razão de se reinventar profissionalmente após 70 anos de carreira.
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Atriz desde os 15 anos, quando começou a trabalhar com radionovela, é possível considerar que hoje, aos 88, Arlete Salles já dedicou sete décadas à arte. Ela não é muito chegada aos números, mas aprendeu a ressignificar o assunto para evitar estresses.
“Há alguns anos isso seria uma ofensa horrorosa, eu negava tanto a minha idade que eles não sabiam como publicar, uma hora era demais, outra hora era de menos. E a vida toda eu levei assim, porque eu acho que a identidade da gente é uma coisa privada, é pessoal, é particular. Isso não pode interessar às pessoas, não é?”, iniciou ela ao Terra.
“O que que se acrescenta às pessoas? ‘Ah, mas tem 88 anos e está no palco fazendo monólogo’. Eles estão indo ver uma mulher de 80 anos fazendo monólogo ou ver uma atriz, o trabalho de uma atriz e ver se ela tem realmente a vocação? Gostaria que fossem ao teatro não assistir a uma mulher de 88 anos, mas assistir a uma atriz. É isso que às vezes ainda me incomoda, mas muito menos agora.”
Outro estereótipo que Arlete Salles confronta é a ideia de que chega um momento em que é preciso se recolher e deixar a vida profissional para trás. A aposentadoria, porém, está longe de ser uma realidade para ela, que ainda encontra nos palcos motivos para continuar.
“É difícil para o artista decidir sair do palco, mas tem uma hora que a gente tem de admitir que é a hora de ir pra casa. Essa hora ainda não chegou pra mim e ainda vai demorar um pouquinho. Temos aí bons exemplos, a dona Fernanda [Montenegro] brilhando, fazendo as leituras dela. Claro que é uma coisa mais cômoda fisicamente, mas ela faz brilhantemente”.
‘Tinha medo de ficar sozinha no palco’
Em ‘Mande Notícias do Mundo de Lá’, Arlete vive Eulália, uma mulher que perde uma amiga e, diante da perda, engata em uma conversa sobre a linha tênue entre a vida e a morte.
Considerada uma grande dama da atuação, ela reconheceu que recebeu vários convites para fazer monólogos ao longo da carreira. Porém, alguns fatores pesaram para que isso não ocorresse: ora o receio de ficar sozinha no palco, ora o desinteresse pelo modelo de espetáculo, ora a correria do trabalho.
“Eu nunca gostei do gênero, dificilmente eu ia assistir a um monólogo e saía satisfeita do teatro. Não era um gênero assim… não fazia parte das minhas ambições”, ponderou ela, que repensou a própria posição. “Eu tinha medo também, aliás, acho que era mais medo do que qualquer outra coisa. Eu não pensava que eu precisava disso e fui pela vida fora exercendo o meu ofício, trabalhando e fazendo o meu, colocando minha alma, fazendo o meu melhor e satisfeita com o meu trabalho. Claro que eu tive alguns convites, mas lia e achava desinteressante, falava: ‘Não quero ir para o palco ficar falando sozinha’”.
As coisas mudaram quando ela recebeu o texto do autor e ex-contratado da Globo Carlos Jardim. Na época, ela estava no ar em Três Graças (Globo), interpretando dona Josefa, mãe de Arminda (Grazi Massafera). A atriz admite que adiou a leitura o máximo que pôde, mas, depois de muita insistência do autor, resolveu dar uma chance à obra.
“Eu falava: ‘Não tenho tempo’. Mas depois de muito enrolar, eu li. Lembro que eu me diverti muito e me emocionei muito com o texto. Me emocionava, me divertia. Terminei pensando: ‘Mas que autor bom, que sensibilidade desse homem’. O trânsito entre o drama e a comédia, a discussão sobre o eterno, a amizade, a lealdade, tudo isso diante de um caixão, que, como a personagem, eu tenho pavor. Hoje em dia não tenho tanto como já tive, mas ainda tenho”, refletiu ela.
“Enfim, eu me encantei na primeira leitura. É um belo espetáculo, se passa em um velório que não vai ninguém, só a amiga dela, que, no caso, é a Eulália, para falar das lembranças, das dores, das alegrias… E é um grande desafio você ficar no palco sozinho e conseguir manter essa plateia atenta e interessada no que você está falando. É um desafio tão grande que vou sair dessa experiência mais forte como atriz”.
SERVIÇO:
Local: Teatro Renaissance | Alameda Santos, 2233 – Jardim Paulista, São Paulo/SP (coladinho na Estação Consolação do Metrô)
Dia e Horário: De 17 de outubro a 20 de dezembro de 2026 | Sextas-feiras, às 19h30; Sábados, às 19h; Domingos, às 17h
Preço: Ingressos de R$ 73,00 a R$ 147,00. Garanta a sua entrada por aqui :)
Ideal para ir: Com Amigos / Com Família / Sozinho
Acessibilidade: Teatro totalmente acessível para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
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