Um filme em produção - especialmente um longa-metragem - é como um elefante: pesado, lerdo e difícil de fazer andar. Mas, depois que pega o embalo, ninguém consegue fazê-lo parar. É assim que me sinto nessa véspera de filmagem: antevendo o elefante dar seus primeiros passos, sabendo que ele só pára daqui a seis semanas, e é bom não ficar na frente dele. Espero que tenhamos aberto uma trilha suficientemente clara. Foram quatro semanas de pré-produção e duas semanas de ensaios, em que elenco e equipe começaram a se integrar e a cutucar o elefante. Creio que estamos conseguindo enxergar o mesmo filme (nada é pior do que quando parte da equipe vê um elefante, e o resto vê um hipopótamo).
Lembro bem de outros começos de filmes, especialmente do “Tolerância”, quando saímos de Porto Alegre na primeira semana, tava muito frio, e o elenco teve que entrar na água para as cena na cachoeira. Ali ficou claro que atores a atrizes estavam totalmente “dentro” do filme. Tenho certeza que o elenco do “Sal de prata”, pelo que mostrou nos ensaios, também enfrentaria a água gelada. Há pouco (escrevo às 11 da noite) coloquei duas garrafas de champanha na geladeira, e vou levá-las para o set.
A tradição (nascida não sei onde nem porque) manda que se abra uma garrafa de champanha depois do primeiro plano rodado, quando se chega na lata de filme número 100 e no último plano rodado. Pra dar sorte. Ou pra ter uma boa razão pra beber champanha às 8 da manhã, tanto faz. Também é uma tradição dos diretores de cinema ficarem um pouco angustiados na véspera do início de um longa.
A responsabilidade é grande, especialmente em relação à equipe e ao elenco. Mas depois a angústia passa, o cotidiano do set toma conta da vida de todos e entramos num período existencial estranho. Assim como o espectador, quando vai ao cinema, cai num estado limítrofe entre o sonho e a vigília, quem faz cinema, quando vai para o set, cai num estado intermediário entre a vida real e a fantasia. E a fantasia tem prioridade, porque está sendo construída pedaço por pedaço, enquanto a realidade desaba em cima de todos. É isso. Hora de dormir pra acordar cedo e ver o elefante correr.
Carlos Gerbase