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DÊ SUA OPINIÃO
(OU CALE-SE PARA SEMPRE
Filme: Romance, de Catherine Breillat
De: Luciana Rocha Lauretti
Caro Gerbase, parabenizo você pelo trabalho como crítico de cinema. Imagine o quanto é invejado pelos cinéfilos anônimos ou cinemaníacos que devoram pipoca e confete nas salas de cinema e que, após o "The End", enquanto caminham sós para casa, ardem-se em críticas, "achismos", "verdades", ideologias, analogias etc.... que, vale dizer, ninguém paga sequer um reles centavo por! Sem brincadeira, seu artigo ("Corações Apaixonados") empolga as almas mais tímidas e cansadas, por isto, o cargo de crítico é seu por mérito! Mas, enquanto lia, já perto do desfecho, deparei-me com esta frase: "O papel da crítica é imaginar outros filmes, e não ficar contando milhões de vezes o que está na tela."
Fiquei então absorta em pensamentos que me levaram a uma só mente: Nelson Rodrigues.
O literato relata alguns encontros que teve com críticos num cinema carioca (agora não lembro o nome). As
crônicas estão compiladas em "Confissões Culturais"; assinada tal compilação por nosso querido Ruy
Castro. Enfim, ele conclui que o crítico é o único ser que não descansa nunca ("full-time job"). Ou seja, todos os seres mortais, quando vão ao cinema, teatro, balé, ópera etc, assistem e apreciam a exibição ou apresentação com alma limpa, mente aberta, pensamentos ligeiramente descomprometidos. O crítico, pelo contrário, não relaxa, está sempre com a alma cativa aos ensinamentos e conhecimentos da profissão.
É a escravidão da imagem.
O homem por trás do crítico não consegue assistir ao filme, que diabo! Não consegue rir de um pastelão sem pensar no seu significado "interna corporis"..., e pouca importa se há algum ou não! O crítico chora, se emociona, come aos montões pipoca, roí unhas, ou seja, se envolve na trama do filme? O autor genial, por sua experiência, acredita que só às escuras. É por isso que sua frase: "o papel de crítico é imaginar outros filmes..." surtiu tamanho efeito! Pois fez-me refletir, onde vejo o homem "Gerbase" por trás do crítico "Gerbase"? Em que linha, qual palavra, qual sentença? Ou melhor onde está o homem "Gerbase", e ocasionalmente, o crítico "Gerbase"? O homem "Gerbase" tomando o posto devido e o crítico "Gerbase" à retaguarda?
Felizmente, essas palavras e sentenças existiram.
Nunca é demais lembrar que a boa crítica dirige-se para homens. Homens que riem, choram e engorduram a
mão de pipoca. Homens que pensam e analisam o contexto do filme sem se privar do prazer, do que é
humano, do que é vida. Abraços respeitosos
De: Gerbase
Pois acredite, Luciana, o "eu-homem" ri, chora e se emociona em qualquer filme razoável. Nem precisa ser muito bom. Eu gosto tanto de cinema que posso curtir, tranqüilamente, um produto medíocre, sem ficar "criticando" em tempo real. Depois que o filme acaba, aí sim, encaro racionalmente o que acabo de assistir. Se o papel de "eu-crítico" me impedisse de curtir cinema, jamais escreveria sobre filmes.
Só tem uma situação em que o "crítico" desperta dentro da sala de projeção: quando o filme é uma bomba. Aí é mesmo inevitável. Começo a pensar no texto a ser escrito imediatamente. E até me divirto com isso. Quando o filme é bom, embarco nele de corpo e alma, esqueço que existo e me envolvo totalmente na trama. Acredito que isso não é uma característica exclusivamente minha. Nelson Rodrigues que me perdoe, mas eu ainda consigo ter prazer com meu trabalho. Até a semana que vem.
De: Carolina Sá e Silva
Minha opinião sobre o "Romance" é bem, digamos assim, é bem diferente... Acho que a protagonista na verdade queria mesmo era se sentir meio homem. Concordo com a posição de que ela estava mais a fim de filosofar do que de transar, porém, quando teve relações com o marido, disse que quem estava "comendo" era ela. Pois bem, ela queria comer, estava insatisfeita com sua condição de mulher, de "ser comida".
A idéia de que o sexo é mecânico e os personagens são entediados é verdadeira. A protagonista com certeza deve ter pensado que não tinha muita graça transar com um ator pornô, o Rocco, mas queria de qualquer maneira ser "comida" pelo homem amado. Talvez muitos dos mistérios da alma feminina não foram mostrados, mas angústia e o desejo de ser amada eram também de ser desejada. Pois bem, o cinema francês anda meio caidinho? Eis a prova de que um filme como "Romance" pode ajudar a mudar este quadro. De sua fã, Carolina.
De: Gerbase
A grande questão de "Romance" é mesmo essa: qual é a relação entre o desejo sexual e o amor? Eles se ajudam, se complementam ou se atrapalham? Os "mistérios da alma feminina" já foram tema de muitos filmes, mas o que mais me agrada em "Romance" é a forma explícita da abordagem, como se a diretora já estivesse cansada de papinho furado e resolvesse botar a mão na ferida. Aí é inevitável que apareça um certo ranço feminista, uma evidente preocupação em desprezar os homens. Ou não? Será que entendi tudo errado?
Mas você notou como a questão Xuxa-Sasha-Szafir é um complemento quase perfeito para o final de "Romance"? Xuxa teve um filho em "produção independente" porque queria ter uma criança, mas não estava apaixonada por homem algum. Já a protagonista de Romance faz algo semelhante. Por enquanto, Xuxa só briga com o Ministro da Saúde. Será que ela já viu "Romance"?
Romance (Romance, França, 1998). De Catherine Breillat
Carlos
Gerbase é
jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor.
Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A
gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente
finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo.
Índice de colunas.
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