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Cartas do Reichenbomber (Opus 7)
Para Leslie Stevens (em memória), Vanessa Goulart (musa da Net e bomber
fiel), Eduardo Valente (mantendo a chama acesa da lista do Cinebrasil) e
Carlos Gerbase (que foi sincero, mas generoso, na revista CINEMA).
Antes de mais nada, me respondam: o que está acontecendo com o chat
Cult/Cinema do Zaz? Para onde foram os cinéfilos? Cadê Sam Bouchard, o
Crítico, a Sueca de Cataguases, o Mineirinho, a Karenina, os polemistas da
FAAP e da Estácio de Sá, os gaúchos bons de tela, a galera sábia da UFF e da
ECA/USP, os especialistas de Recife ...
Entrei duas vezes na sala e só
encontrei pré-adolescentes entediados e ex-fumantes ressentidos. Acho que
andam confundindo cinema com papo-furado e galinhagem rastaqüera. Durante
meia hora só testemunhei sandices, preconceitos e micagens bizantinas. Pior
é ver a marmanjada revelando sua cultura de caserna, desenterrando o
parnasianismo ginasiano de J. G. De Araújo Jorge. Garanto que tem gatinha
sonhando com os testículos, digo versículos, dos coroas safos que se
escondem atrás de nicks nada criativos. Estou com saudade dos bate-bocas
entre órfãos glauberianos e bacharéis em David Lynch; entre pro-iranianos e
os contra-Kiarostami, adeptos de John Woo. Até os MATRIX-BOYS sumiram do
mapa.
O efeito STAR WARS deve ter sido avassalador. Back to school, babys.
Que retornem rápido os polemistas de plantão, as tropas estrelares de
Verhoeven, Dario Argento, George Romero e Spielberg, porque não? Quero ver
os fãs da Jordana Brewster rachando pau com os obcecados pela Denise
Richards; o gueto do Bruce La Bruce se engalfinhando com os samurais de John
Milius.
Posso estar enganado, mas tenho a impressão que nenhum jornal de São Paulo
noticiou no ano passado a morte de um dos mais originais e intrigantes
realizadores do cinema americano independente. Leslie Stevens (1924-1998),
começou sua carreira como roteirista, adaptando a obra de Gore Vidal THE
LEFT-HANDED GUN, para o também estreante Arthur Penn em 1958.
Penn, que se tornou um ícone do cinema na década de 60, com filmes como O
MILAGRE DE ANNE SULLIVAN, BONNIE AND CLYDE, MICKEY ONE e CAÇADA HUMANA,
acabaria naufragando numa surpreendente decadência à partir do final dos
anos 70. Talvez, assim como John Frankenheimer, outro dependente absoluto do
talento de seus roteiristas (como Stevens) e da competência de seus
produtores executivos, Penn fosse apenas um excelente executador de ordens;
um yesman culto, mas mal assessorado.
Leslie Stevens, ao contrário, foi desde o seu primeiro filme como diretor,
um experimentador nato e um independente assumido. PROPRIEDADE PRIVADA (60)
foi totalmente rodado em sua própria casa na Hollywood Hills, tendo sua
primeira mulher, Kate Manx, como estrela. Na essência um filme de atmosfera,
de erotismo e violência latentes, onde sobressai a excelência da
mise-en-scène inovadora.
Em A TERRA QUE AMAMOS (Hero´s Island - 62), Stevens investe na utopia
tentada na prática. James Mason leva a família para uma ilha inóspita na
ilusão de um novo renascer. O sonho do equilíbrio justo se revela uma
miragem auto-fágica. Como o eterno recomeçar é um fim em si mesmo, a ilha é
uma esperança. O elenco de cultuados coadjuvantes, Neville Brant, Warren
Oates, Rip Torn e Harry Dean Stanton, atesta a originalidade da empreitada.

O vídeo de INCUBUS, de Lesli Stevens, esta à venda na Internet através do site oficial |
Em 1965, Stevens arrisca todo cacife conquistado com o sucesso do
low-budget PROPRIEDADE PRIVADA, em INCUBUS. Falado integralmente em
esperanto e misturando imagens coloridas com o preto e branco personalíssimo
de Conrad Hall, INCUBUS nunca foi lançado comercialmente nos cinemas
americanos. Exibido, com sucesso, em inúmeros festivais e tendo William
Shatner (de JORNADA NAS ESTRELAS) como astro principal, o filme acabou se
tornando um pesadelo para o próprio diretor devido à morte de dois de seus
atores principais. Stevens nunca se esforçou para lançá-lo comercialmente e
o filme se transformou numa pepita para pesquisadores. Consta que existe uma
única cópia no acervo da Cinemateca Francesa.
O diretor voltou para a Daystar Productions, sua empresa independente de seriados para a televisão com os sucessos das séries THE OUTHER LIMITS, THE
INVISIBLE MAN, GEMINI MAN e BATTLESTAR GALACTICA, e somente retornou ao
longa metragem em 87 com a comédia de ação THREE KINDS OF HEAT (ou
FIREWORKS).
PROPRIEDADE PRIVADA, A TERRA QUE AMAMOS, a incógnita THREE KINDS OF HEAT, o
obrigatório INCUBUS, e a série THE OUTHER LIMITS é um programa e tanto para
os nossos festivais nativos tão carimbados. Vou ficar insistindo no óbvio: é
preciso revelar às novas gerações que o cinema já foi menos conformista.
Afinal, é essa a função da coluna.
Como foi prometido, aí vão alguns e-mails enviados à coluna durante a minha
ausência na Paulicéia sempre desvairada:
"Prezado Carlos:
Como dizia Fernando Pessoa, os homens dividem-se, na vida prática, em três
categorias: os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer e os
que não nasceram nem para uma coisa nem para outra. (Nesta última categoria,
estão os críticos de cinema.)
E a partir daí, ele faz a apologia do homem que impõe deveres a si mesmo,
diferenciando-o dos demais.
Juntando-se ao que diz Carlos Reichenbach, "se para fazer filmes preciso
parar com os cursos, adivinhe a minha opção", conclui-se que, na verdade, o
homem que tem uma definição clara do seu dever, como o de filmar, por
exemplo, é um homem que além do talento e da habilidade, tem a capacidade de
mandar em si mesmo.
Não há situação melhor para um profissional de qualquer área.
Parabéns pelo filme Dois Córregos, que deve ser um grande filme, porque você
é um grande profissional, em decorrência das considerações acima.
Com relação ao filme O AMIGO CATÓLICO, a ser filmado em Bocaina,
antecipo-lhe os meus cumprimentos.
Estou orgulhoso por ter nascido na bela Bocaina e por você ter a intenção de
lá fazer um filme pretensioso e ultra-pessoal. É o dever auto-renovado e em
constante evolução!
Em síntese, este seu novo dever iremos cobrar, APESAR DE SABER QUE NÃO SERÁ
PRECISO!
UM GRANDE ABRAÇO,
MÁRIO FERRARI"
"Prezado cineasta:
Como dois-correguense de nascimento e de coração, hoje vivendo no Estado do
Paraná, cidade de Assis Chateaubriand, recebi com grande satisfação a
escolha de Dois Córregos como título de um filme. Gostaria de desejar
parabéns e sucesso pelo trabalho realizado. Estou na expectativa de poder
assisti-lo por aqui e poder reviver os locais e épocas da minha vida. Também
tive a satisfação de saber que minha mãe integrou o grupo da cidade que
participou das filmagens.
Atenciosamente, abraços e sucesso.
Vanderley"
"Olá amigo, sou um internauta cinéfilo.
Certo dia lendo sua coluna, a que você escreveu perguntando aonde estão os
novos críticos de cinema me motivei com os comentários e convidei dois
colegas, cinéfilos também, a ajudarem a montar um site sobre cinema em
geral - não apenas comentários sobre filmes. O problema é que não somos
profissionais da área. Então resolvemos criar uma classe, que talvez não
seja tão rara quanto a dos críticos profissionais.
Críticos Amadores. Nosso site até que é bonitinho, mas os textos ...
Nós gostaríamos, que você, desse uma visitada no nosso site e desse sua
opinião à respeito de nossa iniciativa e do nosso trabalho. O endereço é
https://pagina.de/criticos .
Sem mais para o momento, agradecemos
(Críticos Amadores)"
Resposta do Bomber: você disse tudo. Onde estão os textos ? Não tenham medo
de escrever. Escrevam muito e sempre; sem pudor de errar. É preciso
exercitar a reflexão todos os dias. Mas é preciso sair às ruas, também.
Aos 18 anos, fui na Folha de São Paulo levar minhas primeiras críticas de
cinema para a apreciação do falecido editor Cláudio Abramo. Ele respondeu:
vai viver um pouco mais e volta ... Na semana seguinte fui contratado pela
Gazeta de Campo Limpo. Não parece muito, mas foi um começo.
Piada ou não, valeu o encômio do mestre Abramo.
A coluna é de vocês, por isso deixei o endereço do teu site. Quem sabe
outros bombers resolvam dar uma mãozinha.
"Olá Carlos (espero poder te chamar pelo primeiro nome)
Meu nome é Pietro Basso Silva, tenho 14 anos e adoro cinema. Você não me
conhece mas eu acho que conhece o meu pai, ele é o Claro Gilberto, diretor de
Eventos da RBS TV. É por você conhecer o meu pai que eu tive coragem de
mandar este e-mail.
Eu só queria "falar" com um diretor de cinema de verdade pois no futuro eu
gostaria de me tornar um. Eu adoro cinema, sempre adorei, aprendi a falar e
a escrever em inglês assistindo os filmes em inglês. Para falar a verdade eu
estou até escrevendo o meu segundo roteiro em inglês; o primeiro ficou com
60 páginas.
Sem falsa modéstia eu sei um monte de coisa sobre filmes, mas tem várias
outras que eu gostaria de saber. Existem algumas perguntas que eu gostaria
de fazer. Aí vão elas:
Quantas vezes você grava uma mesma cena?
Quantas páginas tem um roteiro normalmente?
Você começa a edição de um filme seu assim que as filmagens estão prontas ou
você vai fazendo entre as filmagens?
Espero não estar abusando de sua paciência, mas eu agradeceria muito que
você respondesse este e-mail.
OBRIGADO!!!!!!!!!!!!!
Resposta do Bomber: manda bala, Pietro. Escreva muito, escreva sempre, mesmo
que não dê em nada. Nunca jogue uma idéia fora. Eu mesmo escrevi o meu
primeiro roteiro aos doze anos. Claro que era uma bobagem, mas o primeiro de
uma série de exercícios que acabaram gerando notas altas em português no
ginásio.
Como parênteses, preciso externar a satisfação de ter encontrado o querido
professor Aroldo do colégio Rio Branco, hoje merecidamente aposentado, na
pré-estréia de DOIS CÓRREGOS no Espaço Unibanco. Este mestre nada
convencional foi um dos responsáveis pela minha opção pelo clássico no curso
secundário (hoje, extinto), e de certa maneira foi o grande incentivador de
minhas veleidades autorais (na época, eu queria ser escritor ou dramaturgo).
Mestre Aroldo insistia que os alunos deveriam escrever sempre, estimulando a
originalidade e a ousadia. Para um colégio conservador ele foi um oásis de
esperança, já que nos aproximávamos de 64.
Quanto às questões levantadas, saiba não há uma regra única para as
filmagens. Repete-se o quanto for necessário para que a cena saia perfeita.
Ás vezes, basta uma única tomada para que tudo saia à contento. Os
roteiristas americanos dizem que uma página de roteiro decupado (dividido em
seqüências e planos) equivale à um minuto de filme; mas isso pode variar
muito. Vale como regra à ser subvertida regularmente. Normalmente a montagem
(a palavra edição em cinema é mais usada para a montagem da banda sonora)
começa à partir do final das filmagens, já que é comum o diretor acompanhar
esse trabalho.
Finalmente, atendo a solicitação de um leitor da coluna para veicular o
endereço de um site de cinema que acaba de renovar seu elenco de
colaboradores buscando um diferencial entre os concorrentes no
aprofundamento das análises fílmicas. Julguem vocês mesmos:
https://www.cinepanoramica.com.br/ago99/
(agora também na seção de Links deste site)
CARLOS REICHENBACH
P.S. - Durante a divulgação do lançamento de DOIS CÓRREGOS em São Paulo, fui
informado pelo veterano radialista, cinéfilo e querido mariliense Fausto
Canova que um dos maiores cantores da bossa nova, Luiz Cláudio, está vivo,
com uma saúde ferro, e que acaba de gravar uma coletânea de três cds com o
néctar de sua carreira meteórica. Para aqueles que, como eu, tanto
apreciavam a personalíssima voz e performance do autor do já clássico GAROTA
PAULISTA, fica uma ponta de frustração: os discos foram produzidos pelo
próprio Luiz Cláudio e não se encontram à venda nas lojas especializadas.
Canova prometeu pedir ao próprio cantor-compositor atender a minha ânsia de
fã, mas bem que uma das nossas gravadoras menos óbvias - leia-se Velas ou
Pau-Brasil - podia socializar esse tesouro.
Carlos Reichenbach, 54, é cineasta, roteirista, diretor de fotografia e crítico, além de rebelde renitente e utopista assumido nas horas vagas. Suas principais vítimas e afetos serão revelados nesta coluna. Atrás das câmeras desde 1966, Reichenbach está lançando seu 12º longa, Dois Córregos.
Comentários, desgostos, bombas e coquetéis podem ser enviados para: reichenbach@zaz.com.br
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