![]()
|
LADO A LADO RAPIDINHO Dramas familiares sempre
foram bastante explorados pelo cinema americano. Coisas como "Gente como
a gente" e "Kramer x Kramer", desde que realizadas com um mínimo de competência
e contando com bons atores, emocionam, divertem e ainda mandam aquela
mensagem "positiva" para a classe média branca e politicamente correta.
"Lado a lado" insere-se nessa família de filmes medíocres, corretos e
bem sucedidos. Nenhuma surpresa, nenhuma experimentação, nenhuma ousadia,
mas, por outro lado, nenhuma grande derrapagem. Ed Harris e Susan Sarandon
são um casal recém separado tentando lidar com os inevitáveis traumas
dos filhos pequenos. Ele vai casar com Julia Roberts, ela vai morrer de
câncer, e os filhos vão ter que conviver com uma mãe de estepe. Depois
de lágrimas em profusão, algumas cenas divertidas e belas imagens de Nova
Iorque, o espectador sai do cinema satisfeito. Dali a uma semana já terá
esquecido o filme, mas isso pouco importa, pois um outro, bem parecido,
estará esperando por ele numa sala escura e aconchegante.
Os ingredientes são bem conhecidos e se repetem, mas Chris Columbus soube cozinhá-los. "Quando o amor acontece", por exemplo, que também contava a história de uma separação e se propunha como drama familiar, era tremendamente indigesto. Esse "Lado a lado" pode ser consumido sem maiores sobressaltos. O elenco todo está bem, o que não é nenhuma novidade em relação a Ed Harris e Susan Sarandon, mas é uma agradável surpresa em relação a Julia Roberts, que supera até o fato de servir de cabide para uma dúzia de "merchandisings" da pior espécie, todos de câmaras fotográficas.
Tudo bem, nossa sociedade está construída sobre essas verdades intocáveis, mas porque "ser pai" não tem o mesmo valor? O personagem de Ed Harris praticamente assiste ao conflito entre as duas mulheres e seus filhos, só intervindo em situações de emergência. O cotidiano das crianças está umbilicalmente ligado à mãe - a verdadeira ou à estepe -, enquanto o pai tem que trabalhar, viajar, ou fazer qualquer coisa mais importante que as torradas do café da manhã. "Lado a lado" não faz a menor questão de discutir essa milenar distribuição de papéis. Mas, para não ser injusto,
é preciso destacar pelo menos um ponto em que o filme avança socialmente.
A personagem de Susan Sarandon, para aliviar as dores e a tensão emocional
causadas pelo câncer, fuma maconha e defende o seu uso em caráter medicinal.
Mais ou menos o que fez o príncipe Charles há pouco tempo na vida real.
Quando duas instituições tão conservadoras e poderosas como a Columbia
Pictures e a realeza britânica defendem juntas um mesmo ponto de vista,
é sinal de que alguma coisa está mudando. Devagar, muito devagar, mas
pelo menos podemos supor que o carro da humanidade, na passagem do milênio,
não estará parado, nem dando marcha a ré.
Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e "Fausto") e atualmente prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado "Tolerância". |
||
|
Copyright© 1998 ZAZ.
Todos os direitos reservados. All rights reserved.
|
|||