Busca

Pressione "Enter"

Cobertura completa Sites de cinema Grupos de discussão Colunistas Os melhores filmes Notas dos filmes Todos os filmes Roteiro de cinema O que está passando no Brasil

JOANA D'ARC

RAPIDINHO
É caro, muito caro. Tem astros (John Malkovich, Dustin Hoffman) e estrelas (Faye Dunaway). Milhares de figurantes. Fotografia maravilhosa. Som poderoso. Trama épica. Figurinos hollywoodianos. Mas é um filme francês. Joana D'Arc usa todos os truques e tradições do cinema americano para contar a história de uma das mais importantes figuras míticas da Europa. Era um grande risco. Era uma aposta alta, mas não era um blefe. Luc Besson sabia como fazer. E fez. Joana D'Arc é um espetáculo de primeira, com o inevitável peso que uma produção desse porte costuma apresentar. É cinemão mesmo, feito de acordo com todas as regras para fazer sucesso em todo o mundo. Parece que o sucesso esperado não veio. E então a gente se pergunta: onde foi que Besson errou?

AGORA COM MAIS CALMA
Pra mim, errou muito pouco. Sempre que um diretor tem um objetivo claro e o segue meticulosamente, o resultado é interessante. Joana D'Arc não decepcionará a ninguém que esteja procurando muita ação dramática sobre um fundo histórico. O roteiro, nos dois primeiros terços do filme, é simplesmente irrepreensível. O ritmo cai um pouco no terço final, quando Joana está presa, talvez porque tenha optado por uma certa fidelidade aos fatos. O que é uma bobagem. Quem está interessado numa aula de história quando vai ao cinema? O grande mérito de Joana D'Arc (e de qualquer filme desse tipo) é ser tão bom, tão divertido, que motive o espectador a investigar - nos livros, na Internet, onde quer que seja - por conta própria. Lembro que, logo depois de ver Cromwell, com Richard Harris, corri para uma enciclopédia atrás de mais informações sobre a história da Inglaterra. E aprendi alguma coisa.

O conflito básico do filme é estabelecido nos primeiros quinze minutos, como manda a cartilha: menina francesa, extremamente religiosa e que têm visões místicas, vê sua irmã mais velha ser morta e estuprada por soldados ingleses (aliás: uma das melhores seqüências do ano, pela crueza absurda e pela reação humana dos companheiros do soldado estuprador). Alguns anos depois, Joana luta para libertar a França com coragem sem igual. A pergunta é: por quê ela luta? Para seguir uma ordem divina, ou para saciar sua sede de vingança? Deus misericordioso está com ela, ou ela assume o papel de um Deus vingativo? O conflito interno de Joana vai crescendo à medida que a violência se intensifica. E que violência! As cenas de combate nos muros são soberbas. Lembram Excalibur, mas o superam. Pena que os roteiristas tenham optado por uma conclusão "psicológica", de personagem, em vez de manter o mesmo ritmo frenético até o final.

As visões de Joana - pelo que entendi: Cristo menino e inocente; Cristo mártir e impotente; Cristo deus e juiz - mais confundem que explicam. Dustin Hoffman valoriza alguns diálogos, realmente bons, mas não consegue dar o peso necessário à sua participação. Eu dispensaria Hoffman e chamaria de volta à ação John Malkovich (agora como rei) e Faye Dunaway, para que o julgamento de Joana ganhasse mais emoção. "Infidelidade histórica", dirão alguns, mas eu já disse qual é real missão do cinema em relação à História. Ou vocês acham que os episódios da infância de Joana têm algum rigor factual? Duvido.

Finalmente chegamos à própria Joana e à sua intérprete, Milla Jovovich. Fisicamente ela é, digamos assim... maravilhosa. Contudo, ser maravilhosa basta para ser uma modelo da Calvin Klein; não basta para ser uma atriz. Milla evolui bastante desde O Quinto Elemento, em que se limitava a fazer caras e bocas (num filme, aliás, que era apenas de caras e bocas). Não é, com certeza, nenhuma deusa da interpretação e dá suas escorregadelas, principalmente nas situações dramaticamente mais difíceis, mas, no geral, dá conta do recado. Eu apostaria algumas fichas nela. Muitas fichas. Certamente os franceses gostariam de ver uma estrela francesa no papel (e não uma ucraniana), mas Adjani não passa por 19 anos faz tempo, e Julie Delpy é muito pequena e frágil. Alguma outra sugestão? Luc Besson tinha dinheiro para contratar até uma deusa americana. Que tal Sharon Stone? Não ia dar certo. Acho que, no final das contas, fez uma boa escolha. Escolheu o que tinha em casa, sua própria esposa. Nepotismo? Não acho. Cabe a outros diretores e a outros filmes mostrar se Milla pode ter futuro trabalhando fora de casa
.

Joana D'Arc (Jeanne D'Arc, França 1999). De Luc Besson

Dê sua opinião ou cale-se para sempre

Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo.

Índice de colunas.

Copyright © 1996-1999 ZAZ. Todos os direitos reservados. All rights reserved.