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VIDA DE INSETO

RAPIDINHO

Metáfora esquerdista contra os piratas neo-liberais do primeiro mundo, que, como gafanhotos, consomem todas as divisas de um país subdesenvolvido, arduamente conquistadas pelo trabalho estafante de milhões de formiguinhas comandadas por uma rainha que posa de liberal social-democrata. Não... Não é bem isso? Mas que parece, parece. Nova tentativa: alegoria imperialista que ilude as massas trabalhadoras (as formigas e os espectadores) apresentando, como remédio à sua eterna exploração, uma trupe de artistas decadentes financiados pela Ministério da Cultura, em vez da associação natural com o sapo barbudo. Como? Também não? É um filme infantil? E agora? Vou ter que confessar que gostei do filme feito uma criança? É o jeito.

AGORA COM MAIS CALMA

Nem todos os desenhos-animados para crianças precisam ser débeis mentais. A maioria é, por razões de mercado, mas lembro de pelo menos dois - "Toy story" e, principalmente, "A bela e a fera" - que contam histórias muito mais interessantes que muito longa-metragem "cabeça" que anda por aí. A regra geral dos autores de roteiros medíocres infantis é se valer da velha oposição do Bem contra o Mal para criar o conflito. Tudo bem, essa também é a ferramenta principal dos autores de roteiros medíocres para adultos, mas é que, quando o público tem menos de dez anos de idade, a responsabilidade é muito maior.

Não vou falar das maravilhas tecnológicas responsáveis pelas animações de "Vida de inseto". A esta altura do milênio, para os estúdios de Hollywood, fazer um filme visualmente belo não é nada além da obrigação. O grande mérito do filme é deslocar o eixo principal do conflito: em vez de assistirmos à luta do Bem (formigas) contra o Mal (gafanhotos), acompanhamos a jornada de uma formiguinha revolucionária (Flik) à procura de uma solução capaz de romper com o reacionarismo que impera no formigueiro, sempre obediente às regras do FMI (Fundo Monetário dos Insetos). Flik sabe que, enquanto seus semelhantes continuarem baixando a cabeça para as regras consideradas "naturais" (gafanhotos roubam alimentos desde que Cabral descobriu o formigueiro), tudo continuará como está. O que é bom para os gafanhotos e para o FMI, mas é péssimo para as formigas.

Assim, Flik tem a coragem de mudar. Rompe os horizontes de seu mundinho e vai atrás de insetos maiores, mais fortes e, de preferência, mais inteligentes. Essa combinação, como todos sabem, é muito rara, de modo que Flik é obrigado a se contentar com uma trupe mambembe de artistas de circo (a quem confunde com poderosos combatentes). Leva-os para o formigueiro e, depois das peripécias de sempre, expulsa os gafanhotos, libertando seu povo e, melhor ainda, conquistando o coração da nova rainha. Trata-se, portanto, de uma história bem diferente de "O Rei Leão", em que o poder divino das majestades felinas nunca é discutido.

Também é muito interessante a maneira como o filme apresenta o maior de todos os monstros: um passarinho. Quase sempre um ícone da fragilidade e da inocência, ele transforma-se num personagem sinistro e mortífero aos olhos dos insetos (tanto formigas quanto gafanhotos). A violência, afinal das contas, quase sempre é uma questão de ponto-de-vista (vide os bombardeios ao Iraque). "Vida de inseto" consegue divertir as crianças sem maltratar os adultos, ser politicamente correto sem parecer babaca e ser revolucionário sem parecer um panfleto. Poucos filmes, "adultos" ou não, têm conseguido essas façanhas nos últimos tempos.

Vida de Inseto (EUA, 1998). De John Lasseter e Andrew Stanton.

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Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e "Fausto") e atualmente prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado "Tolerância".

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