Busca

Pressione "Enter"

Cobertura completa Sites de cinema Grupos de discussão Colunistas Os melhores filmes Notas dos filmes Todos os filmes Roteiro de cinema O que está passando no Brasil





Por Ricardo Cota

DESCONSTRUINDO HARRY

Woody Allen liberou geral. Em Desconstruindo Harry, realizado em 1997 e só agora lançado no Brasil, o cineasta outrora romântico, apaixonado pelas mulheres e por sua cidade, Nova Iorque, incorpora um tremendo cafajeste, incapaz de encontrar consolo fora do coração das prostitutas.

O filme, trigésimo na carreira de Allen, ratifica a capacidade do autor de não perder o viço da criatividade e surpreender o público a cada nova obra. Quem poderia conceber, há alguns anos atrás, um trabalho assinado pelo diretor de Um Assaltante Bem Trapalhão, Manhattan e Hannah e suas Irmãs com tantas referências diretas a sexo oral? Ou mesmo imaginar o frágil intelectual nova-iorquino, que seduzia pela compaixão, nos braços de uma prostituta negra numa sequência absolutamente vulgar que termina com a seguinte frase, dita pela moça: "Eu sei o que é buraco negro. É com isso que eu ganho a vida".

O mais politicamente incorreto dos filmes de Woody Allen é também o mais descrente. Nada escapa ao olhar amargo do escritor Harry Block. Para ele, a terra é o inferno. Sexo, política, religião, psicanálise, casamento, enfim, todas as tentativas do homem moderno de conexão com o mundo ou com o semelhante estão fadadas ao fracasso. E é mergulhado em ceticismo que Harry define seu jeito de ser: solitário, beberrão e inconsequente.

Há quem diga que Woody Allen se inspirou no escritor Philip Roth para compor o personagem. Philip é autor do livro I Married a Comunist em que revela intimidades constrangedoras do seu relacionamento conjugal. Em Desconstruindo Harry, o protagonista também consegue levar ao desespero todos que vivem a sua volta e se sentem identificados com os patéticos personagens de seus romances. Pode ser que Allen realmente tenha se inspirado em Roth, mas o referencial básico deste, e de todos seus filmes, é realmente ele mesmo.

Harry é o interlocutor das angústias de Allen. Por intermédio do personagem, o autor mostra seu fastio contra tudo e contra todos, inclusive contra si próprio. O interessante é que apesar de toda essa amargura o filme consegue ser absolutamente genial. E isso se deve ao talento de Allen como artista, arte esta por sinal que o ajuda a manter vivo. Se não fosse o cineasta compulsivo que é, filmando obsessivamente um filme por ano, Allen com certeza já estaria de mãos e pés atados num manicômio.

Desconstruindo Harry resume o que há de melhor na obra do autor. A agilidade dos textos, o timing das piadas, a incrível capacidade de alinhar pequenos casos num curtíssimo espaço de tempo (o filme tem apenas 95 minutos) e, é claro, a agudeza da observação crítica. A idéia do homem em processo de desconstrução é enfatizada pela montagem, que capta pequenos tiques nervosos e fragmentos de ações para criar uma atmosfera que não chega a ser surreal, mas sim supra real. Ou seja, a imagem do personagem confunde-se de tal forma com a do criador que em determinado momento torna-se impossível distinguir o que é ficção e o que é realidade. Nunca se sabe onde termina Harry Block e começa Woody Allen. E vice-versa.

Allen também extrai interpretações surpreendentes de atores em geral massacrados pelo cinema comercial, como Demi Moore, Billy Cristal e Elisabeth Shue. Como em todos seus filmes, o elenco de apoio continua luxuoso e inclui ainda nomes como Stanley Tucci, Kirstie Alley e Amy Irving, a senhora Barreto. Aliás, só num filme de Allen, que goza do maior prestígio intelectual, um ator como Robin Williams toparia aparecer fora de foco, num dos mais felizes instantes de inventividade do filme.

Outro aspecto que recebe uma nova variante é a frequente citação a Ingmar Bergman, diretor favorito de Allen. Como o personagem de Victor Sjostrom em Morangos Silvestres, Harry Block volta a sua universidade para receber uma homenagem. A imagem da morte, presente em Sétimo Selo, é novamente caricaturada por Allen, como já havia sido feito em Bananas e A Última Noite de Boris Grushenko. O curioso é que mesmo depois de tanto tempo falando das mesmas coisas, Allen ainda encontra fôlego para renovar a velha fórmula, surpreendendo o público sem perder o carisma. Por mais críticas que receba, sustenta a difícil posição de mais autoral dos cineastas americanos.

Desconstruindo Harry pode ser visto ainda como uma resposta áspera à mídia e aos críticos, sobretudo àqueles que acusam o cineasta de sexismo. No filme, não são terríveis apenas as mulheres. Também o são os homens, infiéis e violentos. Ninguém se salva no mundo em desconstrução de Harry. Woody Allen, que teve seu nome associado a um dos maiores escândalos do século, joga no ar a seguinte questão: a quem cabe julgar nossas ações? Cada tempo possui seus próprios critérios éticos e morais. O que hoje é perverso, amanhã pode se tornar norma. Harry é o ex-romântico rendido ao sexo por dinheiro. Mergulhou a fundo na relação com suas amantes e acabou nos braços das prostitutas. Não se pode dizer que é um vencedor. Com toda sua assumida cafajestice, Desconstruindo Harry é um retrato amoral, e não imoral, de uma personalidade grande demais que se estende da realidade para as telas de cinema.


Desconstruindo Harry (EUA, 1997). De Woody Allen.

Ricardo Cota, 33, é crítico de cinema do Jornal do Brasil há oito anos, com passagens pelas revistas Cinemin, Set, Tabu, Cinema e IstoÉ, além do jornal O Dia. Foi autor dos cursos Bergman/Woody Allen: Dois Cineastas Face a Face; Huston/Coppola: Os jogadores; e O Cinema Cantado, Breve História dos Musicais.

Índice de colunas


Copyright © 1996-1999 ZAZ. Todos os direitos reservados. All rights reserved.