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PARA SEMPRE CINDERELA
RAPIDINHO
Nesse fim de século,
em que efeitos especiais valem mais que roteiros, em que merchandisings
rendem mais que os ingressos nas bilheterias, em que a presença da suposta
atriz num show de TV vale mais - muito mais! - que séculos de tradição
na arte da interpretação dramática, é muito bom ver "Para sempre Cinderela".
É um filme definitivamente cinematográfico. Para quem lembra dos passarinhos,
dos ratinhos e da fada madrinha da versão Disney, fica uma advertência:
aqui os animais comportam-se como animais, a fada é um velho inventor
e Cinderela briga por seu destino, em vez de simplesmente esperar ser
salva por um príncipe encantado.
Tanto adultos como crianças capazes de ler as legendas vão curtir esse
filme estranho, que parece estar deslocado no tempo, lembrando os velhos
capa-e-espada de Errol Flyn. Divertido, com uma produção primorosa, atores
de primeira (com exceção do príncipe, que é meio borocochô) e fotografia
deslumbrante, "Para sempre cinderela", ao lado de "Vida de inseto" são
provas de que é possível divertir crianças em férias sem transformar a
sessão num inferno para os pais.
AGORA COM MAIS CALMA
O velho e bom realismo
é a principal virtude desse conto-de-fadas. Estranho, não? Estranho, mas
muito eficente. Todos os exageros da trama e boa parte do maniqueísmo
dos personagens de Charles Perrault foram retirados por Andy Tennant,
que ainda acrescentou, em doses homeopáticas, alguma crítica social e
uma pitada de feminismo. O resultado é que acreditamos em tudo o que se
passa na tela, em vez de simplesmente considerar a história "coisa para
crianças". As crianças, de sua parte, também gostam quando não são tratadas
como débeis mentais.
"Para sempre Cinderela" consegue emocionar desde o seu início, quando
a protagonista (Drew Barrymore) salva um velho criado dos grilhões a que
fora submetido pela madrasta (Anjelica Huston). As duas estão perfeitas.
Mas o roteiro ajuda muito. Por exemplo: a madrasta mantém com as duas
filhas uma relação diferenciada, porque a mais bonita é a sua esperança
de ascensão social, casando-se com o príncipe, enquanto a mais feinha
(e mais gordinha) não serve para nada. A feinha, metodicamente desprezada,
pouco a pouco vai aproximar-se de Cinderela (obrigada a conviver apenas
com os velhos servos) e afastar-se da mãe.
Cinderela, que nunca conheceu a mãe e perdeu o pai aos 8 anos, mantém
com a madrasta uma relação ambígua, que mistura ressentimento pelo modo
com que é tratada e uma esperança de encontrar algum amor naquela criatura
tão dura. Enfim, as coisas são bem mais sofisticadas que "meus amiguinhos
ratos" e "minha satânica madrasta". Talvez o único ponto fraco do roteiro
seja aquela introdução, que parece estar ali apenas para dar espaço a
Jeanne Moreau. Ficamos esperando qual vai ser a contribuição daquela rainha
e dos irmãos Grimm para a trama, e a espera dá em nada.
Em compensação, Drew Barrymore, a garotinha de E.T., parece ter superado
de vez seus problemas pessoais. Além de estrelar "Para sempre Cinderela",
mostrando talento, fez algumas sessões de fotos para revistas de moda
em que mostra capacidade para papéis bem diferentes: menos doces, mais
apimentados. Vamos torcer para que ela mantenha a cabeça no lugar, escale
lentamente seu caminho rumo ao topo e nos acene de lá, enquanto a bicicleta
leva o E.T. por sobre a montanha.
Para Sempre Cinderela (EUA, 1998). De Andy Tennant.
Dê sua opinião ou cale-se para sempre
Carlos
Gerbase é
jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor.
Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A
gente ainda nem começou e "Fausto")
e atualmente prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado
"Tolerância".
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