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Gel decompõe o álcool e promete evitar embriaguez

Produzido a partir do soro do leite, um novo tipo de gel pode impedir os efeitos nocivos do álcool no corpo e proteger os órgãos; testes são feitos em animais

15 mai 2024 - 04h06
(atualizado às 18h27)
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Já imaginou a possibilidade de beber, sem ficar bêbado e não ter os sentidos alterados? Numa aposta contra embriaguez e ressaca, pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), na Suíça, desenvolveram um gel composto por proteínas de soro de leite, com a capacidade de "digerir" o álcool no intestino, antes de chegar na corrente sanguínea.

Foto: Twenty20photos/Envato Elements / Canaltech

Nos testes pré-clínicos, realizados com camundongos, o gel suíço reduziu os níveis de álcool no sangue em até 50%. Além disso, protegeu a maioria dos órgãos contra os danos provocados pela bebida, como o fígado.

Ainda falta muito para que o gel se torne uma opção real, vendida em farmácias, para o uso de pessoas que não querem sentir os efeitos do álcool, mas não abrem a mão de tomar uma latinha de cerveja ou uma taça de vinho. No entanto, a patente da tecnologia já foi solicitada, garantindo os direitos legais sobre o futuro produto.

Vale lembrar que, há dois anos, viralizou uma pílula antirressaca, com a suposta capacidade de degradar o álcool antes de chegar ao fígado. Apesar da publicidade, o composto nunca obteve status de medicamento e é comercializado como suplemento alimentar — nessa categoria, a comprovação científica dos benefícios é bem mais flexível. 

Gel proteico contra ressaca

Para entender como funciona o gel antiressaca, é preciso entender que normalmente o álcool ingerido entra na corrente sanguínea, a partir da mucosa do estômago e do intestino, causando efeitos em cascata no organismo. Estes começam no processo de digestão do álcool, que é "quebrado" em compostos tóxicos, como acetaldeído, no fígado.

A partir desta nova invenção, descrita em artigo na revista Nature Nanotechnology, a ideia é digerir o álcool ainda no trato gastrointestinal, antes de chegar ao sangue. Quando isso ocorre, a bebida alcoólica é convertida em ácido acético inofensivo, ou seja, que não produz efeitos da embriaguez e nem da ressaca.

"O gel 'desloca' a decomposição do álcool do fígado para o trato digestivo. Ao contrário de quando o álcool é metabolizado no fígado, nenhum acetaldeído prejudicial é produzido como produto intermediário", reforça Raffaele Mezzenga, professor da ETH Zurich e um dos autores do estudo, em nota.

Como o gel é produzido?

Em busca da fórmula perfeita, os pesquisadores precisaram ferver as proteínas encontradas no soro do leite até transformá-las em fibrilas longas e finas. Em seguida, é adicionado sal e água, o que torna a mistura um tipo de gel — formulação ideal, pois a absorção é lenta.

Como catalisadores do composto, foram acrescentados ferro, glicose e nanopartículas de ouro. Quando a mistura entra no organismo e interage com o álcool, inúmeras reações enzimáticas ocorrem, o que viabiliza a conversão da bebida em álcool acético.

Cortando o efeito do álcool

Quando o gel for testado em estudos clínicos com humanos e a eficácia for comprovada, a ideia é que essa alternativa possa ser prescrita antes ou depois do consumo de álcool. Assim, o gel vai impedir ou reduzir os níveis de álcool no sangue, atenuando os efeitos nocivos da bebida.

Gel faz com o que o álcool seja digerido antes de chegar na corrente sanguínea, o que reduz os efeitos da embriaguez (Imagem: Julost/Envato)
Gel faz com o que o álcool seja digerido antes de chegar na corrente sanguínea, o que reduz os efeitos da embriaguez (Imagem: Julost/Envato)
Foto: Canaltech

Apesar da invenção, continuará a ser "mais saudável não beber álcool", alerta o cientista Mezzenga. Entretanto, "o gel pode ser de particular interesse para pessoas que não querem abandonar completamente o álcool, mas não desejam sobrecarregar o corpo e não procuram ativamente os efeitos do álcool", pontua. 

Eventualmente, a solução pode se tornar uma alternativa para as pessoas que sofrem com uma síndrome bastante rara, a autocervejaria (ou síndrome da fermentação intestinal). Nestes casos, o corpo produz álcool, sem o indivíduo ter bebido nenhuma gota alcoólica, o que tem inúmeras consequências para a saúde.

Fonte: Nature Nanotechnology e ETH Zurich  

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