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Como funciona uma agência de checagem de fatos? Veja desafios para rebater fake news

Este tipo de trabalho requer competências bastante específicas no ramo da comunicação e precisa seguir uma série de metodologias

15 jun 2023 - 05h00
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Fake News se espalham rapidamente pelas redes sociais
Fake News se espalham rapidamente pelas redes sociais
Foto: Canaltech

As notícias falsas, ou fake news, correm muito rápido nas redes sociais e causam danos imprevisíveis há muitos anos, tanto na internet quanto fora dela. Um estudo de 2018, realizado por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, mostrou que tais boatos se espalham 70% mais rápido que as histórias verdadeiras.

Elas também alcançam muito mais gente. De acordo com a mesma pesquisa, histórias verdadeiras exigem cerca de seis vezes mais engajamento para alcançar 1.500 pessoas do que as histórias falsas para atingir o mesmo número de gente. No Twitter, correntes de retuítes de fake news falsidades atingem um determinado alcance de 10 a 20 vezes mais rápido do que os fatos verídicos.

As agências de checagem são o principal antídoto da comunicação profissional contra o problema. Embora mais conhecidas recentemente, este modelo de negócio já existe desde a década de 1990, como é o caso do site norte-americano Snopes, surgido em 1994, e Smoking Gun, criado em 1997. Em 2003, com a criação da FactCheck.org nos Estados Unidos, elas ganharam mais visibilidade. Nos últimos anos, outras organizações começaram a se consolidar no ramo. 

No Brasil, algumas das agências de checagem mais populares no país são o Projeto Comprova (do qual o Terra faz parte), Estadão Verifica, AFPFato ou Fake, Lupa, Aos Fatos e E-Farsas, entre outras.

À medida que a checagem dos fatos aumenta, os leitores também mudaram seus hábitos de confiar nas notícias. Uma pesquisa realizada em 2017, chamada “Confiança nas Notícias”, mostrou que 76% das pessoas em países como Brasil, França, EUA e Reino Unido checavam a veracidade da informação que haviam lido ao conferir outras fontes.

Já a última pesquisa TIC Domicílios 2022, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), apontou que apenas 37% dos internautas brasileiros que acessam a internet unicamente pelo celular em 2022 checam a veracidade de fake news.

Etapas da checagem de fatos

Quando uma história que se tornou viral chega até a agência, são necessárias algumas análises de dados e metodologias para que ela seja checada. 

Segundo Natália Leal, diretora da Agência Lupa, o trabalho de checagem funciona muito com o trabalho de um jornalista. 

  • A notícia que pode ser falsa chega até a agência ou é filtrada por um dos monitores de informação;
  • A agência submete as informações a seus critérios de revisão. Na Lupa, alguns deles são números, comparações e dados históricos. Informações que remetem ao futuro não costumam ser checadas porque estão sujeitas a mudanças;
  • O repórter responsável pela pauta faz um levantamento sobre o assunto mencionado na história analisada. Para isso, recorre a estudos, informações de jornais e revistas;
  • Caso não haja conteúdo verídico suficiente sobre o assunto abordado, a agência recorre a mais fontes, como às Leis de Acesso à Informação (LAI) e às assessorias de imprensa das pessoas, empresas e entidades envolvidas;
  • Depois, a agência produz um texto objetivo dizendo se a informação é falsa ou verdadeira. Nele, é necessário colocar as provas: dados de estudos, estatísticas como as do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e informações vindas de fontes seguras e especializadas, como ONGs parceiras;
  • Para concluir o trabalho, o repórter pode recorrer à análise de especialistas para contextualizar o assunto e evitar erros de interpretação de dados. 
  • Ao final, há a publicação do texto da checagem nos principais canais da agência.

O público também pode se prevenir para não cair em conteúdos enganosos. Veja algumas sugestões tiradas do site da Universidade de Tampa (EUA):

  • Verificar as credenciais de quem escreveu a notícia supostamente falsa, para saber se o autor é mesmo jornalista e/ou especialista na área; 
  • Identificar vieses de informação, para notar se o texto original se inclina para um ponto de vista político, econômico ou cultural específico. Também é notado se ele traz os diversos lados de quem acusa ou foi acusado na notícia, para haver equilíbrio de visões sobre o fato;
  • Verificar as datas da notícia, pois as informações do texto podem ter uma "data de validade" quando publicadas em uma determinada época. Por exemplo, se traz políticos citados que perderam mandato e pesquisas que desmentem ou atualizam informações antigas;
  • Conferir as fontes das informações, para saber se são citadas especialistas e instituições renomadas. Do contrário, com fontes desconhecidas ou suspeitas, a origem dos dados pode ser tendenciosa;
  • Examinar URLs para confirmar se o endereço do site bate com os de veículos e instituições oficiais. Por exemplo, um site falso chamado "brasil.com" pode se passar pelo "brasil.gov.br", o site oficial do governo federal;
  • Desconfiar do sensacionalismo, sobretudo se a notícia tem títulos exagerados e provocativos com uso excessivo de letras maiúsculas ou linguagem emocional.
Notícias falsas circulam, principalmente, nas redes sociais
Notícias falsas circulam, principalmente, nas redes sociais
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Requisitos de uma agência de checagem

A Aliança Internacional de Verificação de Fatos (IFCN, na sigla em inglês) estabelece normas para classificar e categorizar organizações que verificam fatos. As signatárias da IFCN seguem o seu Código de Princípios, que inclui os pré-requisitos da instituição, citados abaixo:

Apartidarismo e justiça

As organizações precisam usar o mesmo padrão para todas as verificações de fatos. Eles não orientam sua verificação sob o viés de nenhum partido ou corrente política específicos. Seguem o mesmo processo para cada checagem e permitem que as evidências ditem as conclusões.

Padrões e transparência das fontes

As agências precisam deixar que seus leitores possam verificar os resultados por si. Eles fornecem todas as fontes com detalhes suficientes para que o público possa replicar seu trabalho, exceto nos casos em que a segurança pessoal de uma fonte possa ser comprometida.

Transparência do financiamento e da organização

As agências precisam ser transparentes sobre suas fontes de financiamento. Caso aceitem recursos financeiros de outras instituições, elas precisam garantir que os financiadores não tenham influência sobre as verificações de fatos e seus relatórios.

Padrões e transparência da metodologia

Agências precisam explicar a metodologia que usam para selecionar, pesquisar, escrever, editar, publicar e corrigir suas checagens de fatos.

Seguindo de modo geral esses critérios, cada agência trabalha com metodologias diferente de checagem. Veja abaixo o exemplo do que faz o Projeto Comprova:

  • A equipe de editores reúne conteúdos suspeitos sobre políticas públicas e eleições que são encontrados no monitoramento de plataformas, em aplicativos de mensagens e em sites hiperpartidários. 
  • Depois, os especialistas filtram conteúdos que tenham obtido maior alcance para submetê-los um grupo de verificadores e jornalistas interessados. Estes se alistam voluntariamente para verificar a veracidade dessas informações;
  • Finalizada a apuração dos fatos, os jornalistas escrevem um relatório que é submetido à revisão de seus pares;
  • Esses relatórios só serão publicados quando pelo menos três outras redações participantes revisarem e validarem os passos de verificação e as conclusões obtidas;
  • As marcas desses veículos também aparecem junto ao relato final.

Esse processo de checagem dupla é conhecido como “checagem cruzada”, que garante que todos os jornalistas participantes tenham o compromisso, uns com os outros, de investigar e escrever os relatos de maneira completa e responsável. É uma forma de assegurar que o projeto se mantenha fiel aos princípios manifestos de transparência, precisão e imparcialidade.

Alexandre Aragão, editor-executivo da Aos Fatos, explica que as agências funcionam de forma muito semelhante a uma redação jornalística. “A gente tem uma equipe que se chama Radar Aos Fatos [...] com monitoramento e debates de assuntos que iremos abordar diariamente”, disse. 

O Aos Fatos conta também com o robô checador Fátima — que vem de “FactMa”, uma abreviação de “FactMachine” — que envia informações verificadas aos consumidores de notícias na internet.

Natália Leal, da Lupa, confirma que a experiência buscada pela instituição para a vaga de checador é ser jornalista ou com alguma experiência em checagem. 

“É um diferencial ter familiaridade com jornalismo de dados e manipulação de dados, ser ágil, criterioso e capaz de respeitar uma metodologia que precisa de comprovação de todas as fontes”, afirmou. 

A Lupa trabalha com diversas ferramentas de checagem, inclusive de parceiros para a verificação das informações. Mas a entidade não esquece de olhar para o simples.

“A gente recebe muitas sugestões pelo WhatsApp, mas continuamos mantendo o e-mail institucional, DM no Twitter, monitoramos o que está viralizando no Google e outras ferramentas para fazer uma depuração para aplicar em nossa metodologia”, contou.  

A reação do público à checagem

Segundo Leal, as pessoas reagem bem à checagem quando estão abertas a isso. “A gente sabe que o fact-checking é um tipo de conteúdo que pega muito quem está disposto a revisar a narrativa”, afirmou. 

O desafio das agências é maior quando parte do público não aceita essa revisão das informações. “É muito difícil para as pessoas se verem expostas a isso [a checagem], contrariar uma informação que ela tem como certa a partir de dados e fatos que são incontestáveis”, afirmou Leal. 

Ela destaca, no entanto, que conteúdos com uma quantidade de informações verdadeiras e que levam a conclusões falsas são os mais difíceis de serem checados. Teorias da conspiração também dão bastante trabalho.

Já Aragão, do Aos Fatos, ressalta que assuntos que dominam o noticiário, como a pandemia da covid, vacinas ou questões políticas, acabam gerando mais “dificuldade” de apuração. E, por isso, a agência optou por especializar repórteres para temas como esses. 

Parcerias das agências de checagem com o governo

Thacio Chaves, diretor de serviços da Aliant, empresa de soluções de compliance, sugere que governos façam mais parcerias com as agências de checagem para evitar desinformação massiva.

"Pode-se alinhar melhor o formato para que o combate a fake news ocorra, como, por exemplo, fez o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ano passado com as parcerias que realizou com redes sociais e agências jornalísticas de checagem durante as eleições”, apontou.

Durante as eleições brasileiras em 2022, o TSE lançou a chamada Coalizão para Checagem, uma parceria entre as agências de checagem AFP, Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, E-Farsas, Estadão Verifica, Fato ou Fake e UOL Confere.

O objetivo era averiguar a veracidade de informações que circulavam na internet, especialmente nas redes sociais, e que podem interferir de maneira negativa na escolha do eleitor na hora de votar.

Na época, o tribunal também firmou acordo com as principais big techs para o Programa de Enfrentamento à Desinformação para prevenir e enfrentar notícias eleitorais falsas. O documento foi assinado por representantes do Twitter, TikTok, Facebook, Telegram, Kwai, WhatsApp e Google.

No entanto, mesmo isso não impediu conteúdo desinformativo se espalhar rapidamente na campanha eleitoral. Um dos principais exemplos foi a troca de acusações entre eleitores de Lula e Jair Bolsonaro com boatos envolvendo interesse em satanismo, por parte do primeiro, e suposta ligação com a maçonaria, por parte do segundo.

Fonte: Redação Byte
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