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Ponto decimal é pelo menos 150 anos mais antigo que se pensava

Matemáticos encontraram o primeiro uso registrado do ponto decimal para dividir números, feito em 1440 por um astrólogo italiano — invenção demorou a pegar

26 fev 2024 - 23h39
(atualizado em 27/2/2024 às 13h21)
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Cientistas descobriram que o ponto decimal é 150 anos mais velho do que se pensava ao encontrar anotações italianas do século XV mostrando o uso da separação de números em décimos. Esse conceito matemático parece simples e óbvio atualmente, mas nem sempre existiu, tornando a vida de quem calculava bem mais difícil em eras antigas.

Foto: Historia Mathematica/Biblioteca Estense di Modena / Canaltech

Algumas versões da divisão decimal emergiram ao longo da história, como em escritos de matemáticos de Damasco, no ano 900 d.C., ou nos anos 1200 d.C., por estudiosos da China. Um sistema consistente de pontos decimais, no entanto, só foi cimentado em 1593, com o matemático alemão Cristóvão Clávio — ou era isso que se pensava.

A invenção do ponto decimal

Ao que parece, Clávio estava derivando seu sistema decimal de um predecessor, Giovanni Bianchini, um mercante veneziano do século XV que publicou tratados de astronomia e astrologia entre 1441 e 1450. Sua obra é pelo menos 150 anos mais antiga que a de Clávio, e não poderia ter passado despercebida pelo matemático, segundo contou o cientista Glen Van Brummelen à Nature.

Eis o infame primeiro uso do ponto decimal, feito por Bianchini nos anos 1440 (Imagem: Van Brummelen, G./Historia Mathematica)
Eis o infame primeiro uso do ponto decimal, feito por Bianchini nos anos 1440 (Imagem: Van Brummelen, G./Historia Mathematica)
Foto: Canaltech

Foi durante um programa matemático acadêmico de verão ministrado para alunos de ensino médio que o pesquisador da Universidade Trinity West, no Canadá, notou o uso do ponto decimal nos tratados de Bianchini. Vale lembrar que, para os falantes de inglês, casas decimais são denotadas com ponto (como 1.5, por exemplo), enquanto, no português, usamos a vírgula (1,5).

A ideia de quebrar números em parcelas menores é bastante antiga, mas a maioria dos matemáticos antes da Idade Média usava frações. Astrônomos usavam divisões, mas não no sistema de base dez que conhecemos hoje, mas sim em base 60, criada através da divisão de círculos de 360º em 60 minutos, divididos então em 60 segundos.

Em certos momentos, matemáticos usavam notações parecidas com o sistema decimal, segundo Van Brummelen, mas tais ideais acabavam sumindo antes de pegar tração. Buscar o primeiro a usar uma notação numérica é uma tarefa árdua, a depender do que consideramos válido como um conhecimento passado de uma geração para a outra e a persistência de dado sistema.

Cristóvão Clávio era, até o momento, considerado o pai do ponto decimal — agora, ao menos sabemos que ele ajudou a popularizá-lo (Imagem: E. de Boulonois/Domínio Público)
Cristóvão Clávio era, até o momento, considerado o pai do ponto decimal — agora, ao menos sabemos que ele ajudou a popularizá-lo (Imagem: E. de Boulonois/Domínio Público)
Foto: Canaltech

Descobrir a história do ponto decimal é mais fácil e, talvez, válido, já que a inovação segue até hoje. Bianchini usou-o pela primeira vez no livro "Tabulae primi mobilis B", uma obra tratando do cálculo de coordenadas estelares. Como parte do trabalho do mercante como administrador da família d'Estes, que reinava em Veneza em sua época, ele calculava horóscopos e astrologia.

Foi nas tabelas dessa obra que apareceu o ponto decimal, exatamente como os matemáticos usam — e todos nós usamos — atualmente. Apesar de ter demorado um pouco para vingar, Clávio eventualmente descobriu a inovação, inspirando outros autores até chegar em John Napier, o inventor do logaritmo, que eternizou o ponto decimal na matemática no início do século XVII.

Fonte: Historia Mathematica, Nature

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