O que pensam grandes palestrantes do São Paulo Innovation Week
Especialistas convergem em dizer que pensamento crítico, inteligência emocional e reflexão filosófica são cada vez mais necessárias
Na era da inteligência artificial, especialistas que vão participar do São Paulo Innovation Week convergem em um diagnóstico comum: quanto mais a tecnologia avança, mais se tornam centrais as capacidades humanas, como pensamento crítico, inteligência emocional e reflexão filosófica. Nos últimos meses, o Estadão conversou com os principais palestrantes do festival de inovação, que será realizado entre quarta, 13, e sexta, 15, e retoma alguns de seus conceitos.
O psicólogo, jornalista científico e escritor americano Daniel Goleman diz que a inteligência emocional segue como parte importante do uso da tecnologia, mantendo a condição humana no processo. "A IA pode imitar a inteligência emocional, mas não é a mesma coisa que uma pessoa real. Penso que, quanto mais a IA (inteligência artificial) estiver presente no ambiente de trabalho, mais valorizada será a inteligência emocional ou as habilidades interpessoais, pois sempre haverá pessoas de carne e osso ajudando, gerenciando, orientando, convencendo, influenciando, inspirando e motivando", afirma o escritor.
E a boa notícia é que, segundo Goleman, essa capacidade pode ser desenvolvida em qualquer idade. "Você sempre pode melhorar se sabe o que fazer, se sabe como tentar. A inteligência emocional é aprendida e pode ser desenvolvida em qualquer fase da vida", diz ele.
Para o americano Ian Beacraft, a IA não vai eliminar empregos "da noite para o dia".
"Eu vejo um mundo onde uma certa parcela das tarefas que realizamos hoje será automatizada, e isso pode acontecer mais cedo do que imaginamos. O impacto será resultado de como nossas organizações reagirão, e não da rapidez com que a tecnologia tornará isso possível", diz Beacraft, uma das maiores autoridades globais em futuro do trabalho
Diante desse cenário, Neil Redding, conhecido como o "futurista do agora", destaca que as pessoas têm hoje uma oportunidade de criarem seus próprios empregos usando IA, ou seja, usar a tecnologia para alavancar suas iniciativas empreendedoras. Ao mesmo tempo, ele alerta que não se deve delegar tarefas aos agentes de inteligência artificial sem critério e reforça a necessidade de fazer testes para encontrar os melhores caminhos para a eficiência usando essa "força de trabalho digital".
Ciência
Da turma dos cientistas do São Paulo Innovation Week, os brasileiros Marcelo Gleiser e Ivair Gontijo e o americano Adam Frank apontam que investir em ciência é estratégico para o desenvolvimento de um país. "A nação na vanguarda é aquela que apoia a ciência", afirma o astrofísico Frank.
"Quanto mais a gente expõe a ciência, mais a gente entusiasma aquelas crianças e aqueles jovens, que os olhos vão até brilhar e vão querer fazer também aquele tipo de coisa. Isso leva as pessoas a entrarem para uma carreira científica, tecnológica ou de engenharia e muda um país", diz Gontijo, que é engenheiro da Nasa.
"Toda criança nasce cientista", afirma o físico Gleiser, que destaca, no entanto, ser preciso fornecer condições concretas, como acesso a bons laboratórios e ensino de qualidade, para transformar essa curiosidade genuína em investigação contínua.
Para Gleiser, que é defensor de uma ciência mais humanista,a inovação precisa ser compreendida como parte de um ecossistema maior que ele chama de "quarteto existencial", formado pela própria ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. "Se a gente não se apoiar bem nesses quatro pilares, a cadeira fica capenga e cai", compara.
Filosofia
O francês Luc Ferry e a americana Rebecca Goldstein posicionam a filosofia como ferramenta indispensável para lidar com os dilemas de um mundo tomado pela tecnologia e pelo excesso de informação.
Os dois filósofos rejeitam a ideia de que a tecnologia possa substituir o exercício do pensamento. Ao contrário, defendem que a filosofia se torna ainda mais necessária para organizar ideias, distinguir conceitos e levar a uma compreensão mais crítica e consciente da realidade.
"Nos dias atuais, um dos itens mais discutidos é a inteligência artificial. Essas máquinas realmente estão pensando? Elas vão nos substituir? Qual vai ser o papel da humanidade e da criatividade por causa da IA? Essas são perguntas muito filosóficas que o progresso científico e tecnológico está forçando sobre os filósofos", afirma Rebecca.
Ferry não suaviza o tom em relação às redes sociais, descrita por ele como uma "armadilha que pode ser mortal". "(As redes) nos encerram nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes. Os pais devem absolutamente limitar o uso delas pelos seus filhos; é vital!".
Viés e polarização
Conhecido por livros que falam sobre os impactos das tecnologias, o escritor americano Douglas Rushkoff destaca que o pensamento crítico em relação ao uso da IA é crucial para não tomar decisões equivocadas nem deixá-las nas mãos de algoritmos criados por empresas que visam seu próprio lucro. Por isso, destaca ser essencial o letramento sobre como funcionam as IAs generativas.
"Eu me preocupo menos com as pessoas delegando tarefas ou decisões a algoritmos do que com as pessoas não entendendo nada sobre os algoritmos que estão usando. Se um juiz usa um algoritmo digital proprietário, que é trancado em uma caixa-preta, para decidir sobre as diretrizes de sentença para um prisioneiro, ele nem vai perceber quais vieses, qual racismo pode estar embutido nesse algoritmo", diz.
Para a psicanalista e escritora Maria Homem, os algoritmos das plataformas digitais prosperam justamente porque a mente humana já funciona por vieses, fantasias e "efeito manada". O resultado é um ciclo de retroalimentação: buscamos confirmação do que já acreditamos, os algoritmos entregam exatamente isso, e a bolha se fecha. "O resumo é que você vai ficar sozinho e amante do seu próprio preconceito, retroalimentado por esse algoritmo", afirma.
"A polarização definitivamente torna as pessoas irracionais", disse, em entrevista ao Estadão, Steven Pinker, psicólogo e linguista de Harvard. Segundo ele, um dos mecanismos centrais é o chamado "viés do meu lado". "Todo mundo tende a acreditar que o seu próprio lado é moral, esperto, inteligente, e que o outro é estúpido e ignorante."
Para Pinker, a tecnologia pode ampliar capacidades humanas, desde que seja usada criticamente. "Precisamos garantir que as pessoas saibam pensar, pesquisar e avaliar fontes, e usar essa tecnologia para ampliar sua inteligência."
Em sua palestra no São Paulo Innovation Week, a brasileira Suzana Herculano-Houzel, uma das principais referências mundiais em neurociência, vai justamente fazer um convite para que as pessoas abram suas mentes, olhos e ouvidos, deem espaço a novas oportunidades e ideias e, sobretudo, se exponham àqueles que pensam de uma maneira diferente. "Quero convidar o público a pensar sobre a vida e o cérebro de um modo diferente, colocando, a todos nós, nas rédeas e no controle da situação para tomarmos boas escolhas para nossa própria vida", afirma.
Luxo
O luxo foi tema das conversas com o francês Gilles Lipovetsky, principal teórico da hipermodernidade, e com a argentina Diana Verde Nieto, que tem uma trajetória de mais de duas décadas dedicada à estratégia, sustentabilidade e inovação neste mercado.
Em comum, ambos apontam para um luxo que deixa de ser apenas objeto de ostentação e passa a depender cada vez mais de significado, contexto e experiência - seja pela urgência ambiental que desafia seus símbolos tradicionais, seja pela centralidade do humano em um cenário onde até a tecnologia se torna pano de fundo.
Uma bolsa de crocodilo, exemplifica Gilles Lipovetsky, "era o símbolo máximo do luxo. Hoje é um problema". "Se você leva o luxo para a próxima fronteira, o luxo vai ser o toque humano. A inteligência artificial vira pano de fundo e o humano como centro", afirma Diana.
O São Paulo Innovation Week é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. para ver a programação completa.
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