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Como os países do Golfo planejam a sua era pós-petróleo

26 nov 2023 - 12h58
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Nações da região estão implementando uma ambiciosa agenda de transição doméstica para fontes renováveis - mas não devem parar de exportar combustíveis fósseis tão cedo.A transição global para a energia renovável pode soar como uma sentença de morte econômica para a região do Golfo, onde as reservas de petróleo e gás têm provido um fluxo de riqueza aparentemente ilimitado. Mas essas nações já estão se reorientando para uma era sem o uso de combustíveis fósseis - pelo menos internamente.

Qual será o papel dos países do Golfo na transição para uma economia verde?
Qual será o papel dos países do Golfo na transição para uma economia verde?
Foto: DW / Deutsche Welle

Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar estão construindo algumas das maiores usinas de energia renovável do mundo, ao mesmo tempo em que gradualmente reduzem o seu consumo de combustíveis fósseis.

No período que antecedeu a Copa do Mundo de 2022, o Catar construiu uma usina solar projetada para suprir 10% da demanda interna de energia no horário de pico. A Arábia Saudita está criando uma cidade no deserto que funcionará exclusivamente com energia renovável. Neom, como é chamada, terá sua própria usina de hidrogênio verde alimentada por energia solar. Os Emirados Árabes Unidos, que sediam a partir de quinta-feira (30/11) a COP28, a conferência climática da ONU deste ano, estão construindo o que deverá ser o a maior usina de energia solar do mundo.

Projetos como esses ajudarão a Arábia Saudita a atingir sua meta de ter 50% de fontes renováveis em sua matriz energética até 2030, e os Emirados Árabes Unidos a atingir 44% até 2050, de acordo com os dois países.

No momento, porém, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita figuram ao lado de outros Estados do Golfo - Bahrein, Omã, Kuwait e Catar - entre os 15 piores emissores do mundo. No topo da lista está o Catar, com uma produção per capita de 35,59 toneladas de CO2 em 2021, em comparação com 8,09 toneladas por pessoa na Alemanha.

Para perder posições nessa lista, será necessário um grande esforço. Mohammad al-Saidi, professor associado de pesquisa do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade do Catar, afirma à DW que a região está se movendo rapidamente para cumprir suas metas ambiciosas.

Priorizar o petróleo para exportação

A transformação dessas economias para uma matriz renovável não se deve apenas à preocupação com o meio ambiente. Saidi diz que um dos principais motivadores da transição é liberar as reservas de combustíveis fósseis para exportação, maximizando os lucros.

Em 2020, a Arábia Saudita era o quarto maior consumidor de petróleo do mundo e o sexto maior consumidor de gás fóssil. Com esse padrão, sobra menos petróleo e gás para ser vendido com altas margens de lucro no exterior.

Apesar do aumento das temperaturas e da frequência e intensidade cada vez maior de eventos climáticos extremos ligados à queima de combustíveis fósseis, a demanda por petróleo deve aumentar até por volta de 2040. Quando a demanda diminuir, o petróleo deixado no solo se tornará um "ativo ocioso" e uma oportunidade perdida de lucro, na opinião dos produtores.

Outra motivação importante para fazer a transição doméstica para fontes renováveis é atrair investimentos internacionais e ter influência na comunidade internacional, explicou Saidi. "Isso é muito importante para a imagem, e imagem significa dinheiro."

A transição para uma economia baseada em energias renováveis tornaria os países muito mais atraentes para o dinheiro estrangeiro, diz Jon Truby, professor visitante de direito da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, que estuda as conexões entre sustentabilidade e tecnologia.

Crise climática bate em casa

Embora continuar exportando petróleo encha os cofres da região, isso também pode ameaçar a sua própria existência. Como os outros países do mundo seguem queimando combustíveis fósseis extraídos da Arábia Saudita e de seus vizinhos, as temperaturas globais continuarão a subir. E o Golfo será afetado de forma desproporcional.

Um aumento global de 1,5 grau Celsius até 2050 provavelmente significaria um aumento de 4 graus no Golfo. Ondas de calor de mais de 50 graus Celsius já atingiram a região, e as temperaturas médias estão bem acima do resto do mundo.

A média das temperaturas máximas no verão provavelmente excederá o limite de sobrevivência na maior parte do Golfo, em algumas projeções sobre as mudanças climáticas. O aquecimento global também agravará as tempestades de poeira, e as áreas litorâneas poderão ser afetadas pelo aumento do nível do mar.

"Eles estão em um paradoxo, porque dependem das receitas do petróleo, mas também correm um grande risco em seus próprios países com as mudanças climáticas", diz Truby.

Apostando na captura e armazenamento de carbono

Um iniciativa da região para continuar exportando combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, limitar o risco de danos climáticos é apostar na captura e armazenamento de carbono.

A tecnologia CCS, como é conhecida, é um processo pelo qual as emissões são capturadas e colocadas no subsolo ou em outros produtos. Há muito tempo ela é vista como o Santo Graal para os produtores de petróleo, pois, teoricamente, faria com que os combustíveis fósseis pudessem continuar a ser queimados sem contribuir para as mudanças climáticas.

No entanto, décadas de pesquisa não conseguiram produzir soluções em larga escala, e os ativistas veem isso como uma perigosa distração da verdadeira ação climática. Até o momento, menos de 0,1% (43 milhões de toneladas) das emissões globais são capturadas por essa tecnologia. Estima-se que os projetos atualmente planejados elevem esse percentual para apenas 0,5% até 2030, de acordo com a Bloomberg.

No entanto, a tecnologia deve ser amplamente discutida na COP28 nos Emirados Árabes Unidos - e foi classificada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como uma das etapas necessárias para limitar o aquecimento a 1,5 grau. O presidente designado da COP28, Sultan al-Jaber, pediu um foco maior na capacidade de captura e armazenamento de carbono em um discurso que delineou sua agenda para as negociações.

"Em uma transição energética pragmática, justa e bem administrada, devemos ter um foco especial na eliminação gradual das emissões de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, implementar e ampliar alternativas de carbono zero viáveis e acessíveis", disse.

No entanto, a União Europeia (UE) e outras nações se opuseram a essa abordagem, dizendo que o foco deve ser a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e não as tecnologias de compensação.

Região do Golfo pretende se diversificar

Em algum momento, porém, o fluxo de dinheiro do petróleo e gás irá secar. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta de que a redução da demanda pode corroer as receitas da região em apenas 15 anos, e medidas estão sendo tomadas medidas para encontrar fontes alternativas de renda.

A Arábia Saudita está apostando na produção de hidrogênio verde, bem como na construção de um setor industrial alimentado por energia renovável, como a produção de alumínio em parceria com os Emirados Árabes Unidos. Em uma frente menos sustentável, também está começando a usar seus hidrocarbonetos para a produção de plásticos e petroquímicos.

A exportação de energia solar tem sido apontada como uma grande oportunidade econômica. Nos países do Golfo, cada metro quadrado de terreno equipado com painéis solares poderia produzir anualmente a mesma quantidade de energia que 1,1 barril de petróleo.

Outros Estados estão procurando copiar o modelo de diversificação de Dubai, onde os combustíveis fósseis representam hoje apenas cerca de 5% de sua renda. A grande maioria vem do turismo e de migrantes e investidores ricos, de acordo com Saidi.

Omã parece ser um dos países mais ambiciosos na redução da dependência de combustíveis fósseis. O petróleo representou 39% do seu PIB em 2017, mas o país planeja reduzir esse percentual para 8,4% até 2040, com foco no turismo, na logística e na manufatura.

Toda essa ambição depende de os Estados do Golfo explorarem suas reservas de combustíveis fósseis para financiar uma transição para um futuro livre de combustíveis fósseis - e a ironia não passa despercebida pelos ambientalistas e ativistas de direitos humanos.

Agnes Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional, pediu a países como a Arábia Saudita que deixem suas reservas de petróleo no solo. "Já passou da hora de a Arábia Saudita agir no interesse da humanidade e apoiar a eliminação gradual do setor de combustíveis fósseis, o que é essencial para evitar mais danos ao clima", disse ela no início do ano.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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