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Cetamina altera a relação do cérebro com a dopamina

Estudo analisa os efeitos do uso prolongado do medicamento cetamina no cérebro de roedores e descobre que o composto desestabiliza a produção de dopamina

5 dez 2023 - 20h31
(atualizado em 6/12/2023 às 11h52)
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A cetamina afeta o cérebro de diferentes formas, ainda mais quando é usada de forma contínua, como aponta estudo realizado por pesquisadores da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. No experimento, a equipe analisou o impacto no cérebro de ratos e descobriu alterações nos níveis de dopamina — quase sempre associada à felicidade e ao prazer.

Foto: Ermal Tahiri/Pixabay / Canaltech

Dentro da medicina, a cetamina pode ser prescrita para quadros de depressão resistentes ao tratamento. Em doses maiores, é um analgésico alternativo aos opióides. De forma ilícita, é adotada como droga recreativa, podendo receber o apelido de Special K.

Uso contínuo de cetamina

No estudo publicado na revista científica Cell Reports, os cientistas descobriram que o uso da cetamina por 10 dias consecutivos provoca mudanças estruturais generalizadas no cérebro em áreas relacionadas à produção de dopamina.

Para chegar a esse nível de efeito, foram usadas duas doses: baixa concentração de cetamina, como é prescrita para tratamentos de depressão; e doses mais altas, como as adotadas para a obtenção do efeito anestésico. Ambas provocaram alterações no sistema dopaminérgico e, consequentemente, nos neurônios dopaminérgicos, aqueles que produzem este tipo de neurotransmissor.

Como afeta o cérebro?

Antes de seguir, vale reforçar que, no cérebro dos roedores (e também dos humanos), a dopamina funciona como um neurotransmissor capaz de proporcionar sensações de prazer, satisfação e motivação.

Segundo os pesquisadores, o uso contínuo da cetamina pode provocar uma diminuição dos neurônios dopaminérgicos em regiões do mesencéfalo do cérebro. Estas estão ligadas à regulação do humor. Por causa disso, é possível que as pessoas desenvolvam sintomas que são recorrentes em quadros de transtorno de humor ou mesmo de esquizofrenia.

Estudo descobre como a cetamina impacta o cérebro, modificando até a produção de dopamina (Imagem: Pingingz/Envato)
Estudo descobre como a cetamina impacta o cérebro, modificando até a produção de dopamina (Imagem: Pingingz/Envato)
Foto: Canaltech

Por outro lado, há um aumento dos neurônios dopaminérgicos no hipotálamo, sendo que essa parte do cérebro é responsável por regular as funções básicas do corpo, como metabolismo e homeostase. Com mais dopamina neste local, os autores sugerem que isso auxilie no tratamento de distúrbios alimentares.

A cetamina também é capaz de reduzir a densidade dos axônios (fibras nervosas) em áreas do cérebro que são responsáveis pela audição e visão. Em contrapartida, turbina os axônios nos centros cognitivos, o que pode explicar os efeitos dissociativos da medicação.

Futuro da cetamina

Embora o estudo não investigue os efeitos exatos da cetamina em cérebros humanos, os pesquisadores entendem que a maior parte das descobertas em animais pode ser considerada, com a devida cautela, semelhantes.

Nesse contexto, a medicação afeta o sistema nervoso de formas ainda mais complexas do que se pensava. Por isso, os autores sugerem o uso responsável e orientam a realização de estudos adicionais para verificar possíveis tratamentos contra depressão, esquizofrenia e psicose, a partir do composto. A estratégia também deve ser estudada em casos de Parkinson.

"Em vez de 'banhar' todo o cérebro com cetamina, como a maioria das terapias faz hoje, nossos dados de mapeamento do cérebro indicam que uma abordagem mais segura seria atingir partes específicas do cérebro, de modo a minimizar os efeitos não intencionais em outras regiões", sugere Raju Tomer, cientista da universidade e autor sênior do artigo, em nota.

Fonte: Cell Reports e Universidade Columbia    

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