Os cerca de 350 integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) acampados no povoado de Serra Bonita (MG) decidiram hoje à noite, em assembléia, voltar a ocupar amanhã (18) a frente da Fazenda Córrego da Ponte, dos filhos do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis, para forçar a reabertura de negociação com o governo. Mas o deslocamento poderá ser cancelado ainda pela manhã, em nova assembléia às 9 horas, caso líderes do movimento consigam uma audiência com o governo.O coordenador nacional do MST na região, Lucídio Ravanello, acenou até com a possibilidade de os acampados voltarem para casa, se a audiência for acertada. Outra opção é ir para o assentamento Nova Itália, distante cerca de 20 quilômetros do atual acampamento - que fica a 14 quilômetros da Córrego da Ponte.
Ravanello disse que fará contato amanhã às 8h45 com o deputado federal Adão Preto (PT-RS) para saber se o encontro foi marcado. "Mas, se as tratativas não derem resultado, poderemos fazer um acampamento permanente (na frente da fazenda)", ameaçou Ravanello. O prédio da escola onde estão os trabalhadores será desocupado pela manhã, para dar espaço às aulas.
O MST quer reunir-se com uma comissão formada pelo presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Orlando Muniz, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário, José Abrão, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, e o diretor de Crédito Rural do Banco do Brasil, Ricardo Conceição.
"O presidente Fernando Henrique Cardoso nos provocou", disse o coordenador do MST no noroeste mineiro, Gilmar de Oliveira, criticando a suspensão das negociações mesmo depois de os sem-terra terem saído da frente da fazenda, na semana passada. "Ninguém vai voltar para casa sem medidas concretas."
Oliveira criticou o uso de tropas do Exército na fazenda dos filhos de FHC. Para ele, a saída da PM mineira configura "ainda mais o estado de sítio da atual situação". O MST quer a liberação de R$ 2 mil extras por família assentada para garantir o plantio este ano e a retomada dos serviços de assistência técnica, além do assentamento de 60 mil famílias.
No fim de semana, os integrantes do MST promoveram atividades diversas para passar o tempo e entreter quem queria voltar para casa. No sábado à noite, eles dançaram forró, depois de terem coletado lixo das ruas e pintado postes de luz, sempre com a bandeira do movimento em punho. No domingo participaram de um culto ecumênico e, à tarde, de um torneio de futebol. "Ninguém é de ferro", disse um dos coordenadores do grupo, Jacemir Buffon.
Nos últimos dias mais de 250 militantes deixaram o local a maior parte assentados que queriam cuidar de suas terras. O ânimo no acampamento, montado no pátio de uma escola, melhorou no sábado à noite com a chegada de cerca de 70 trabalhadores vindos de Arinos (MG). Hoje chegaram mais 50, o que permitiu a saída de outros integrantes.