O dirigente nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST), José Rainha Júnior, ameaçou no domingo "colocar fogo em todos os latifúndios do Pontal do Paranapanema" caso o governo do Estado de São Paulo não acelere o processo de arrecadação de terras para intensificar o projeto de reforma agrária na região. A ameaça foi feita pela manhã, durante assembléia realizada em Teodoro Sampaio, no início da "Marcha pela Reforma Agrária", de 110 quilômetros, que mobiliza cerca de 600 acampados em direção a Presidente Prudente.À frente das duas fileiras de sem-terra, muitos deles com bandeiras do MST, Rainha começou a marchar acompanhado do filho João Paulo, de sete anos e com a mulher, Diolinda Alves de Souza, no comando de uma das 20 "brigadas", como agora são chamados os grupos de 30 pessoas que integram a manifestação.
O líder espera chegar a Prudente quinta-feira para, no dia seguinte, comandar os trabalhadores durante audiência já programada com o Secretário da Justiça do Estado, Edson Luiz Vismona, que deverá anunciar os planos do governo estadual para a aplicação de R$ 22 milhões, repassados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para a reforma agrária em São Paulo.
Rainha considera a divulgação da proposta de fundamental importância para a definição dos rumos do MST. "Não estamos mais agüentando ficar na beira das estradas", garantiu.
Em seu pronunciamento, o líder disse que a mobilização objetiva demonstrar que os sem-terra do Pontal estão determinados a lutar para que o governo estadual acelere os entendimentos para a arrecadação de terras, de fazendeiros que já demonstram interesse em negociar.
Ele calcula que existam atualmente l.500 famílias (1.100 ligadas ao MST) acampadas no Pontal, muitas há mais de dois anos e que todas estão inconformadas com a lentidão do governo estadual.
Segundo ele, nos últimos dois anos o Estado só conseguiu firmar acordo com os proprietários da fazenda Guarani, de l,4 mil ha. em Sandovalina. "Se continuar com esta lentidão de lesma bêbada no asfalto, vamos reagir", afirmou.
Um dos principais responsáveis pela demora, segundo o líder, é o Procurador do Estado em Prudente, José Roberto Fernandes Castilho, que, em sua opinião, não ingressa com ações discriminatórias e reivindicatórias sobre as áreas consideradas devolutas na região. Por esse motivo, à frente da marcha iniciada hoje dois sem-terra carregavam uma faixa com os dizeres "Fora Castilho, já".
Outra razão da mobilização, segundo Rainha, é protestar contra o que considera perseguição do Judiciário e da Polícia aos sem-terra. Ele garante que enquanto inquéritos policiais que envolvem fazendeiros e seguranças de suas propriedades, permanecem engavetados nas delegacias de polícia do Pontal, os que tratam das ações promovidas pelo MST, como a invasão do Fórum de Teodoro Sampaio, há dois meses, tramitam rapidamente com o indiciamento das principais lideranças. E prometeu: "quando fizermos a reforma agrária e promovermos a mudança desse País, não vai ter lugar nas cadeias para colocar essa gente toda, que, um dia, vai pagar pelo que fizeram".