Busca de rumos para a esquerda ganha destaque

Domingo, 28 de janeiro de 2001, 11h54min

Frei Betto fez crítica severa
a certas posturas da esquerda
(Divulgação)

Eva Mothci/Direto de Porto Alegre

O Fórum Social Mundial começou sob o epíteto de "anti-Davos" e com a missão declarada de combate à direita e ao neoliberalismo. Um item que faltou ao ideário anunciado, entretanto, surgiu com força nas conferências. Dos integrantes das mesas às pessoas que lotam (ou quase) as salas, vem a reflexão sobre os caminhos da esquerda. Onde erra. Onde faz pouco. O que não abraça. E sua reorientação entrou, definitivamente, em pauta.

Não é de hoje que Frei Betto põe o dedo na ferida. No Fórum, não seria diferente. "A gente fala do oprimido mas não quer ouvir a voz deste oprimido." Para o frade dominicano, a esquerda peca ao não saber unir a política ao lado lúdico da vida. "Alguém já viu coisa mais chata do que reunião de esquerda?", questionou, provocando risos. Acrescentou que ninguém pode deixar de viver em duas esferas: a da necessidade e a da gratuidade. "Nós, burgueses, temos uma enorme parcela de gratuidade, e logo queremos fazer a cabeça de todo mundo, não há respeito à simplicidade e à sabedoria do povo." Para Frei Betto, o combate à direita e a reorientação da esquerda são complementares. E essenciais.

A inglesa Mary Elizabeth Jones, que veio da Espanha participar de oficinas ligadas às questões das mulheres, aponta o discurso dúbio que permite a continuidade da submissão feminina. "Não é dada voz às mulheres para que decidam sobre seu próprio corpo", critica a feminista atuante em movimentos pró-legalização do aborto. "Precisamos de muito menos conversa e muito mais ações concretas, porque discursos nunca mudaram o mundo", dispara.

Tema esquecido - Outra omissão foi apontada pela socióloga baiana Mary Castro: os direitos humanos dos migrantes e a migração internacional não são temas da esquerda, nem no Brasil. E nem no Fórum, já que apenas duas das mais de 400 oficinas abordam o tema. Mary prega uma cidadania universal como pressuposto para uma nova ordem mundial e o apoio incondicional a cada migrante humilhado, violado em seu direito de cidadão. Alerta para o que chama de "processo de multiplicação crescente dos muros do mundo", com a prática do controle, da vigilância e da militarização sob a retórica dos direitos humanos. "A onda de xenofobia não está restrita aos países desenvolvidos".

No sábado, o senador do PT de São Paulo Eduardo Suplicy dizia a jornalistas, no meio do corredor do Fórum, que, em Porto Alegre, diferentemente de Davos, o foco está nas pessoas, o que elas querem, como pretendem viver melhor. Se o Fórum Social Mundial quer dar início à construção de um novo mundo, é de se esperar que novas ações sejam implementadas. Solidariedade, justiça, igualdade se juntam em uma enorme responsabilidade. Como está escrito em um artigo do Jornal da Cidadania, acreditar que um outro mundo é possível é só o início. A questão é ter consciência de que este outro mundo pode ser melhor. Ou pior.


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