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VAIAS PARA O FESTIVAL DE GRAMADO

A platéia da sessão de sexta-feira à noite do Festival de Gramado vaiou o curta-metragem "Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre", de Rogério Ferrari. E não vaiou (até aplaudiu discretamente) o curta-metragem "Gramado: 25 anos em movimento", de David Quintans, apresentado na noite de abertura, uma semana antes, como hors-concours. Tem alguma errada com a platéia do Festival de Gramado.

"Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre" é um filme ousado tematicamente, bem executado cinematograficamente, com uma trilha sonora de primeira e bons atores. "Gramado: 25 anos em movimento" é um filme de temática oficialesca, mal executado em todos os sentidos, com uma trilha da pior espécie, som direto ruim e "personagens" do cinema brasileiro dando depoimentos medíocres do ponto de vista jornalístico ou documental.

Tem alguma coisa muito errada com um Festival que aplaude um Primo Carbonari redivivo e vaia um Abel Ferrara rejuvenescido. Que porra de público de festival é esse que prefere o velho ao novo, o medíocre ao ousado, a "cavação" ao talento, o "audiovisual de empresa" ao cinema? Tem alguma coisa muito errada com o Festival de Gramado. Estará ficando parecido com os filmes institucionais que produz? Será que a classe-média gramadense, que ainda se "choca" com nudez e palavrão, contaminou toda a platéia com seu código moralista?

Que fique claro: não estou falando mal da organização do festival deste ano (que, aliás, incluiu "Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre" num ano de pré-seleção muito disputada). Também não estou falando mal do cineasta David Quintans, que fez o filme com poucos recursos e contribuiu para a preservação da memória do festival (quem sabe esse mesmo material, no futuro, possa ser melhor trabalhado?). Estou falando das tais vaias e dos tais aplausos.

Estou falando, entre outras coisas, da minha própria classe cinematográfica, que, ocupando mais da metade do cinema, demonstra seu reacionarismo vaiando um filme divertido e provocador. Será que o Festival de Gramado segue as pegadas da Lei do Audiovisual, que, cada vez mais explicitamente, privilegia projetos que não discutem qualquer ponto polêmico da realidade brasileira? Será que estamos voltando na história? Ou será que simplesmente as vaias para "Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre" e os aplausos para "Gramado: 25 anos em movimento" são um espelho da parte que nos cabe nesse latifúndio de covardia estética e cultural?

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Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e Fausto) e atualmente prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado "Tolerância".

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