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Testagem e alas covid free são estratégias para procedimentos cirúrgicos seguros na pandemia

Risco no pós-operatório é maior para pacientes com câncer; cirurgias voltaram a aumentar no segundo semestre

21 out 2020
22h02
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A realização de procedimentos cirúrgicos durante a pandemia, sobretudo para os pacientes do grupo de risco, tem sido uma operação delicada para os profissionais de saúde. Estudos realizados em hospitais que atendem pacientes com câncer apontaram que, com testagem e a criação de vias livres da covid-19, é possível garantir os procedimentos cirúrgicos eletivos com segurança, evitar infecções e impedir que o tratamento seja comprometido ou se torne mais agressivo, caso seja adiado.

No A.C.Camargo Cancer Center, que criou um protocolo de triagem com testagem para todos os pacientes que vão fazer cirurgia, um estudo mostrou que, dos 704 pacientes que passariam por um procedimento em maio, 7,6% precisaram ter as operações reagendadas porque testaram positivo para covid-19. Tendo em vista os riscos de complicações pela infecção nos pacientes oncológicos, o hospital estima que conseguiu evitar entre sete e nove mortes naquele mês.

Publicada no Journal of Clinical Oncology, da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), uma pesquisa do grupo de estudos internacional CovidSurg constatou que as taxas de complicações pulmonares tiveram aumento de mais de 120% e de contaminação por covid de 71% em hospitais que não tinham alas que separavam pacientes infectados pelo novo coronavírus dos demais, destacando a importância da criação de ambientes "covid free". Foram analisados dados de 447 hospitais em 55 países, entre eles Reino Unido, Itália, Espanha e Estados Unidos.

As pesquisas comprovam a importância da criação de protocolos para garantir que o tratamento de pacientes oncológicos não seja interrompido diante da pandemia, especialmente pelo fato de que não há uma data definida para a situação acabar. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) demonstraram preocupação com a queda dos procedimentos cirúrgicos nos primeiros meses da crise sanitária. Levantamento das entidades apontou que, entre março e junho, cerca de 70% das cirurgias não tinham sido realizadas e estimou que ao menos 70 mil pessoas deixaram de receber o diagnóstico de câncer. Segundo a SBCO, as cirurgias voltaram a crescer e, em setembro e outubro, houve aumento de aproximadamente 50% em relação a agosto.

"A gente sabia que não podia fechar o hospital durante a pandemia, porque começar o tratamento depois de 60 dias tem impacto na taxa de cura. A situação já dura bem mais do que esse período. Então, decidimos manter a segurança e o fluxo de cirurgias. E o pilar foi o teste para todos os pacientes", diz Samuel Aguiar Junior, cirurgião oncologista e head do Centro de Referência em Tumores Colorretais e Sarcoma do A.C.Camargo Cancer Center.

No estudo, os pesquisadores citam dados do grupo CovidSurg, que mostraram que as taxas de mortalidade pós-operatória entre pacientes infectados pelo coronavírus foi de 19,1% em cirurgias eletivas, mas pode chegar a 27,1% em pacientes com câncer. " Extrapolando essa taxa para nossos resultados, podemos estimar que até sete a nove mortes foram potencialmente evitadas com a aplicação do teste pré-operatório", diz a publicação.

Segundo Aguiar Junior, a triagem com testes RT-PCR (tipo molecular, considerado mais preciso) realizados dois a três dias antes da cirurgia, somada à separação de pacientes com sintomas gripais na entrada do hospital e à criação de alas para pacientes que testaram positivo, foram fundamentais para permitir que os procedimentos continuassem durante o pico da doença.

Conforme o protocolo, os pacientes com cirurgia eletiva tinham ainda de manter o isolamento social. Caso testassem positivo, um novo teste seria realizado após 14 dias e, com o resultado negativo, o procedimento poderia ser feito. O cirurgião oncologista conta que 4,5% dos pacientes diagnosticados preferiram adiar a cirurgia para depois da pandemia, mas os que fizeram não apresentaram complicações.

Com operação agendada para junho, idosa foi surpreendida com resultado positivo

Diagnosticada com câncer de reto no começo do ano, Maria José Melo da Silva, de 61 anos, estava com a cirurgia agendada para junho. Quando fez o teste para covid-19, foi surpreendida com o resultado positivo. "Não tinha sintoma nenhum. Minha filha, meu filho, minha nora também tiveram. Estavam todos me ajudando e, nesse convívio, aconteceu de eu pegar, porque eu só estava em casa. Por sorte, não foi grave. Um ficou sem paladar, mas não teve nada de falta de ar."

Ela esperou o intervalo determinado pelo hospital, repetiu o exame e fez a cirurgia. "Foi tudo tranquilo e não fiquei preocupada (por ter adiado). Estava muito confiante, porque estava em um hospital muito bom e meu estado emocional estava bom. Agora, vou fazer quimioterapia por seis meses."

Ambientes segregados

Integrante do CovidSurg, o cirurgião oncológico Felipe José Fernandez Coimbra diz que os estudos realizados em hospitais oncológicos apontam a eficácia dos procedimentos e ajudam a continuar norteando as estratégias nas unidades para proteger pacientes de infecções. "Os cuidados intra-hospitalares não vão acabar e sabemos que o paciente oncológico é um paciente de maior risco. Desde muito cedo, a gente começou a fazer o teste e organizou a situação para que tivessem um caminho paralelo e que não se mistura com o paciente com covid. Por mais que achasse que era o caminho, não tinha sido mostrado em um estudo", diz Coimbra, que também é diretor do Instituto de Saúde Integral e do Centro de Referência Gastro-Intestinal do A.C.Camargo Cancer Center.

Coimbra ainda não fazia parte do grupo de estudos internacional quando o trabalho foi feito, mas comenta que o levantamento conseguiu apontar que o investimento em testes e em ambientes segregados para pacientes com o novo coronavírus traz resultados importantes para as unidades e para quem luta contra um câncer. "No grupo em que os pacientes foram segregados, os pacientes sem covid tiveram menos complicações respiratórias e infecções pelo vírus do que os pacientes que estavam sem segregação completa. Houve aumento de mais de 100% na taxa de complicação pulmonar no hospital sem via de covid. Foi de 4,9%, enquanto, no que tinha a separação, foi de 2,2%", afirma ele.

"Outro ponto avaliado foram as taxas de infecção pela covid no pós-operatório. Foi de 2,1% no grupo protegido e de 3,6% no grupo sem proteção, aumento de 70%. Apesar do investimento e organização das instituições, vale a pena fazer isso, porque é um paciente que tem direito a um tratamento com segurança e que não pode esperar acabar a pandemia", acrescenta o médico.

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Estadão
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