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Por que as mulheres estão andando de bicicleta em números recordes na cidade de Nova York

Quando a pandemia chegou, esvaziando o trânsito das ruas, mais mulheres começaram a usar o programa de compartilhamento de bicicletas da cidade

9 out 2020
10h10
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NOVA YORK - Todos os dias, quando Betty Cheong caminhava do metrô para seu escritório em Lower Manhattan, ela passava por um lembrete assustador dos perigos de pedalar por Nova York: uma bicicleta pintada de branco e adornada com flores, apoiada em um poste, marcando o local onde um ciclista foi morto. A visão por si só era suficiente para mantê-la longe de uma bicicleta.

Em seguida, a pandemia do novo coronavírus chegou, esvaziando o metrô de passageiros cautelosos e drenando o tráfego das ruas. Andar de bicicleta de repente parecia uma maneira mais segura de se locomover: em abril, Betty começou a usar o programa de compartilhamento de bicicletas da cidade. Então, ela começou a participar de protestos de bicicleta. Em julho, ela comprou uma bicicleta.

Desde que a covid-19 engoliu os Estados Unidos, uma paixão pelo ciclismo tomou conta do país, aumentando as vendas de bicicletas e provocando uma escassez delas.

Em muitas cidades, mas talvez mais notavelmente em Nova York, muito desse crescimento tem sido impulsionado por um aumento no número de mulheres que começaram a andar de bicicleta depois que as ordens de lockdown eliminaram a principal barreira que a pesquisa mostrou que as impedia de pedalar: as ruas que costumam parecer perigosas para os ciclistas.

Em Nova York, houve cerca de 80% mais de uso de bicicleta em julho em comparação com o mesmo mês no ano passado, com o uso de bicicletas por mulheres aumentando 147% e em 68% entre os homens, de acordo com dados do Strava Metro, um aplicativo de rastreamento de mobilidade usado por 68 milhões de pessoas em todo o mundo.

Mas agora o tráfego está aumentando novamente e não está claro se o entusiasmo continuará. Os defensores do ciclismo dizem que a cidade deveria aproveitar o que aconteceu durante o surto e fazer mais para criar uma rede de transporte que priorize a bicicleta como uma forma mais ecológica de se locomover.

Outras grandes cidades dos Estados Unidos, incluindo Washington, Boston, Chicago e Los Angeles, também experimentaram um renascimento do ciclismo impulsionado em grande parte pelas mulheres: o número de ciclistas em cada uma dessas quatro cidades aumentou mais de 80% em agosto em comparação com o mesmo mês no ano passado, enquanto o crescimento no número de ciclistas do sexo masculino foi muito menor.

O aumento no número de mulheres ciclistas indica uma notável reviravolta em Nova York, onde o sistema de ciclovias costuma ser desarticulado e obstruído por carros, e carece de estacionamento para bicicletas, o que tem desencorajado os ciclistas.

Durante a maior parte da última década, os ciclistas do sexo masculino superavam em número as ciclistas do sexo feminino em 3 para 1. Mas o surto mudou rapidamente o cenário nas ruas.

No Citi Bike, o programa de compartilhamento de bicicletas de Nova York, as mulheres agora representam a maior parte dos usuários desde que o programa foi lançado em 2013. Desde março, a porcentagem de mulheres que usam ativamente o Citi Bike e compram assinaturas pela primeira vez subiu para cerca de 40% do total de assinantes, um recorde em cada categoria.

Em junho, um recorde de 53% das pessoas que usaram uma bicicleta do Citi Bike pela primeira vez eram mulheres. E mais de 60% daqueles que se inscreveram para a oferta de compartilhamento de bicicletas de associações gratuitas para trabalhadores essenciais eram mulheres.

"Acho que isso é promissor. Espera-se que seja uma boa coisa para sair desta crise", disse Sarah M. Kaufman, diretora-adjunta do Rudin Center for Transportation da Universidade New York.

Mas agora, com o tráfego retornando a cerca de 70% dos níveis normais, se as mulheres permanecerem se locomovendo em bicicletas será um teste para as autoridades municipais que estão sob pressão para reduzir o espaço para carros e dar mais espaço para ciclistas e pedestres. Outras cidades enfrentam desafios semelhantes em um país onde o ciclismo nunca chegou perto dos níveis vistos em alguns países europeus e asiáticos.

"Não há como chegar a altas taxas de ciclistas se não resolvermos a diferença de gênero", disse Jennifer Dill, professora de estudos urbanos e planejamento da Universidade do Estado de Portland. "A grande questão agora é como isso mudará o comportamento a longo prazo." "Esta é uma grande oportunidade se as cidades aproveitarem", acrescentou.

Durante décadas, os Estados Unidos têm tido uma das piores disparidades de gênero entre aqueles que usam a bicicleta como meio de transporte, com apenas cerca de 30% dos ciclistas do país sendo mulheres, de acordo com o livro a ser lançado Cycling for Sustainable Cities (Ciclismo para Cidades Sustentáveis, em tradução livre) de Ralph Buehler e John Pucher, que são pesquisadores de meios de transporte.

Especialistas em transporte público dizem que a lacuna reflete em parte a maneira como as normas tradicionais de gênero ainda influenciam a vida americana: espera-se que as mulheres cheguem ao trabalho vestidas com mais cuidado, o que pode ser um desafio depois de longos e suados trajetos. Seus deslocamentos também tendem a envolver mais paradas para realizar tarefas e transportar os filhos do que os dos homens, o que é menos fácil de ser feito de bicicleta.

Mas as pesquisas mostram que o maior obstáculo para as mulheres no ciclismo são os perigos evidentes. Para cada quilômetro percorrido, um ciclista tem seis vezes mais probabilidade de morrer nos Estados Unidos do que na Alemanha, na Holanda ou na Dinamarca, que investiram mais pesadamente em infraestrutura para bicicletas, de acordo com Pucher.

Mas em Nova York, onde as ruas permanecem em grande parte centradas no carro, apesar dos esforços recentes para reforçar a rede de ciclovias da cidade, a diferença de gênero tem persistido.

Mesmo com o aumento do deslocamento por bicicleta, a proporção de mulheres ciclistas tem crescido mais lentamente: em 2006, 25% dos nova-iorquinos que se deslocavam para o trabalho de bicicleta eram mulheres, segundo dados da cidade. Em 2017 - mesmo depois que a cidade implantou centenas de quilômetros de ciclovias - a proporção de mulheres se deslocando de bicicleta para o trabalho mal havia aumentado para 29%.

Quando o tráfego praticamente desapareceu durante o lockdown, porém, o mesmo aconteceu com a sensação de desconforto de muitas mulheres em relação a andar de bicicleta nas ruas da cidade.

Jessica Hibbard, 41 anos, disse que nunca considerou se deslocar de bicicleta pela cidade desde que se mudou de Washington para Nova York, há três anos, para um novo emprego. Mas quando ela começou a notar multidões de ciclistas atravessando a rua vazia em frente a seu apartamento em Manhattan, mudou de ideia.

"Eu não era uma ciclista de forma alguma. Sempre pensei que seria algo aterrorizante de se fazer", disse Jessica, que comprou uma cara bicicleta dobrável Brompton em agosto. "Eu realmente acho que se o tráfego não tivesse desaparecido por alguns meses, eu não teria considerado isso."

A cidade tomou algumas medidas para atrair novos ciclistas a permanecerem usando suas bicicletas quando retornarem ao trabalho: os carros foram proibidos em 128,7 quilômetros das chamadas Ruas Abertas, o trabalho está em andamento para construir cerca de 30 quilômetros de ciclovias temporárias e as pistas têm sido interrompidas por 24 quilômetros de faixas protegidas que usam barreiras para separar os ciclistas dos veículos.

"Eu vi em primeira mão o aumento do número de mulheres pedalando desde o início da pandemia", disse Polly Trottenberg, a comissária de transportes da cidade que se desloca diariamente de Citi Bike. "As mulheres estão especialmente preocupadas com a segurança e a cidade de Nova York está trabalhando duro para criar um ciclo virtuoso: a segurança vem com o aumento do número de ciclistas."

Apesar dos esforços da cidade, os defensores dizem que Nova York ainda está atrás de outras cidades globais que fizeram muito mais durante o surto para incentivar o uso de bicicletas - Paris, por exemplo, implantou mais de 600 quilômetros de ciclovias temporárias.

"O problema na cidade de Nova York é mais sobre escala do que inovação. Temos os modelos que funcionam; olhe para nossas ciclovias protegidas", disse Danny Harris, diretor-executivo da Transportation Alternatives, um grupo de defesa. "Agora precisamos de vontade política e de liderança para pegar essas soluções e ampliá-las rapidamente por toda a cidade"./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Estadão
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