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Por que alguns especialistas dizem que os EUA estão errados ao banir a soneca no trabalho

Agência americana emitiu norma vetando que se durma em prédios federais, mas médico afirma que ambientes profissionais devem levar em conta o aumento da privação de sono em toda a população - e o impacto disso na produtividade.

25 nov 2019
01h02
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Sonecas durante o expediente já costumavam ser malvistas na maioria dos ambientes, mas agora são alvo de um veto explícito do governo americano para os funcionários da administração federal: "todas as pessoas estão proibidas de dormir em edifícios federais, exceto quando essa atividade for expressamente autorizada por um oficial", diz uma norma emitida no início deste mês pela Administração dos Serviços Gerais dos EUA.

Privação de sono tem impacto na produtividade
Privação de sono tem impacto na produtividade
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Não está claro por que a norma foi editada, uma vez que a agência se recusou a comentá-la. E não é a primeira vez que autoridades americanas investem contra a soneca: em 2018, uma agência de auditoria do Estado da Califórnia apontou que uma funcionária passava até três horas por dia dormindo, forçando os colegas a cobrir sua ausência e gerando perdas de até US$ 40 mil em produtividade ao longo de quatro anos.

Uma ressalva, porém: o supervisor da funcionária não quis puni-la pela soneca, uma vez que havia a preocupação de que ela tivesse um problema de saúde que causava a sonolência.

Uma segunda ressalva: embora cause preocupação em chefes a ideia de os funcionários passarem tempo de trabalho dormindo, alguns cientistas têm argumentado que a soneca aumenta sua produtividade, em vez de diminuir.

Momento em que a juíza da Corte Suprema dos EUA Ruth Ginsburg dorme durante discurso de Barack Obama em 2015
Momento em que a juíza da Corte Suprema dos EUA Ruth Ginsburg dorme durante discurso de Barack Obama em 2015
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O médico Lawrence Epstein, diretor da Clínica de Medicina do Sono no Brigham and Women's Hospital, em Boston (EUA), estima que cerca de 70 milhões de americanos sofram de distúrbios do sono. No Brasil, a estatística é semelhante: diferentes pesquisas estimam que cerca de um terço da população sofra de algum grau de insônia recorrente.

E tem crescido o número de pessoas se queixando de não dormir o suficiente, bem como as que sentem que seu sono é afetado pelo uso constante de telas de TV, celular e tablets.

"Algumas empresas estão mais atentas a isso e criando formas de lidar. Infelizmente, não acho que nossas agências governamentais estão na liderança desse movimento", disse Epstein à BBC.

"É algo que pode e precisa ser cuidado, mas infelizmente não costuma ser."

O argumento é de que a privação de sono cobra seu preço da saúde das pessoas — e, por consequência, de sua produtividade econômica.

Pesquisas apontam elos entre problemas de sono e males de saúde como obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares e derrames, além de ansiedade e depressão.

Em 2016, uma análise conduzida pela empresa de pesquisas Rand Corporation estimou em US$ 411 bilhões o impacto anual da privação de sono na economia americana, por problemas que vão desde acidentes de trânsito, acidentes industriais, erros médicos e baixa produtividade.

Sala de descanso da empresa Ben & Jerry's foi criada para sonecas de até 20 minutos
Sala de descanso da empresa Ben & Jerry's foi criada para sonecas de até 20 minutos
Foto: BIM / BBC News Brasil

Por isso, Epstein e outros especialistas em sono têm defendido que funcionários possam tirar pequenas sonecas durante o expediente.

"Pessoas em privação de sono não trabalham em sua capacidade máxima e têm um risco maior de passar por acidentes de trabalho, custando mais caro às empresas porque têm mais problemas de saúde", diz o médico.

Existem, porém, algumas iniciativas em favor da soneca. No Japão (onde, por outro lado, existe uma preocupação com jornadas excessivamente longas e seu impacto na vida das pessoas), algumas empresas estão instalando cápsulas à prova de ruído para encorajar os funcionários a descansar.

E empresas americanas como a fabricante de sorvetes Ben & Jerry's têm criado salas de descanso simples, com uma cama e um leve cobertor.

Na Ben & Jerry's, as sonecas são limitadas a 20 minutos por pessoa, e funcionários que não estejam se sentindo bem e precisem de descanso adicional são orientados a voltar para casa.

Mas ainda existe um estigma, por parte dos próprios funcionários, quanto ao uso da sala, afirma Laura Peterson, porta-voz da empresa.

"Poucas pessoas admitem usar a sala", diz ela. "Eu às vezes a uso. Acho que é um bom intervalo (na jornada) e de fato me sinto mais produtiva."

Outro funcionário da Ben & Jerry's concorda. "Na primeira vez que usei a sala me senti estranho, mas o resultado foi tão sensacional que foi fácil deixar essa sensação de lado", diz Rob Michalak. "Na segunda vez, sabia que me sentiria renovado e pronto para mergulhar de volta na tela do computador e nos documentos em que estava trabalhando."

Em um estudo de 2002 publicado pela Nature Neuroscience, cientistas testaram o desempenho de pessoas quatro vezes ao longo do dia — e esse desempenho foi piorando a cada teste. No entanto, essa piora era interrompida depois de as pessoas tirarem uma soneca de 30 minutos, ou revertida depois de uma soneca maior, de 60 minutos.

Nesses casos, disse ao The New York Times Sara Mednick, coautora do estudo, "as sonecas tiveram a mesma magnitude de benefícios de uma noite de sono".

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