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Para infectologista da SBI, 'o que melhora a economia é o controle do vírus'

Especialista acredita que decisão de abertura no DF mostra que cientistas já perderam a guerra contra a covid-19

30 jun 2020
13h23
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"Estamos vivendo uma tragédia incompreensível", afirmou o médico infectologista José David Urbaéz, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) em Brasília, ao comentar a decisão do governo do Distrito Federal (DF) de retomada das atividades normais nos próximos dias. "É um absurdo, o que está acontecendo. Estamos vivendo numa realidade paralela, que não se pode entender. Não existe essa dicotomia entre economia e saúde", afirmou o médico. "Isso é falso", declarou.

Para o infectologista, o País está vivendo "uma tragédia" que já tem 60 mil mortes, mais do que a perda de vidas dos EUA na guerra do Vietnã, que contou 58 mil mortes, lembrou. "Observe as ações políticas não estão alinhadas com as evidências científicas", argumentou Urbaéz. Ele afirmou ainda que no caso do novo coronavírus "a única forma" de prevenção e de redução de mortes "é a manutenção as pessoas em casa" para que aquelas que eventualmente estão contaminadas não transmitam a doença. "E garantindo para as pessoas com maior vulnerabilidade apoio financeiro", argumentou.

Pessimista em relação à evolução da pandemia no País, Urbaéz acredita que a reabertura de atividades na sociedade vai levar ao um agravamento da doença. "Os especialistas que conhecem medicina e trabalham com a ciência têm alertado para o agravamento do quadro e mostrado que qualquer abertura somente poderia ser feita depois de haver uma queda sustentável nos casos e nas mortes", asseverou o médico. "O que melhora a economia é o controle do vírus", protestou. Para ele, a estratégia deveria seguir a compreensão de manter 75% da população, pelo menos, em casa e, com isso, permitir que o vírus fosse extinto nas pessoas em isolamento. "O vírus se alimenta de circulação das pessoas", insistiu o infectologista, destacando que "qualquer pessoa séria sabe disso".

Ele criticou ainda a decisão governista de apostar na liberação dos testes de sorologia. "Isso não serve para diagnóstico", explicou. Ele disse que o teste que funciona para diagnóstico da doença é o PCR, que detecta o vírus. "Testes de sorologia servem para outra coisa, para estudos de prevalência", criticou. "Mas do que adianta isso agora se não se sabe o que fazer com isso?", questionou.

Segundo Urbaéz, é lamentável que o Brasil esteja fazendo também o desmonte dos programas de saúde da família, que já foram reconhecidos como medicina de ponta do País, usada no controle de epidemias. "Isso segue o que está ocorrendo também nos Estados Unidos" onde, segundo ele, há o esvaziamento do que já foi "uma catedral para nós". O médico se referia ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, em Atlanta, que reunia expertise em doenças como zika, H1N1, e outras. "O CDC foi desmontado". E finalizou: "Nós estamos fracassando", disse o cientista. "Perdemos a guerra contra o vírus", desabafou.

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Estadão
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