Prefeito pede que moradores emprestem tanques de oxigênio

Lotação de UTIS no Estado passa dos 85%; governador vetou atividades comerciais à noite, mas manteve

23 fev 2021
23h08 atualizado em 24/2/2021 às 08h12
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23h08 atualizado em 24/2/2021 às 08h12
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PORTO ALEGRE - O Rio Grande do Sul enfrenta o pior momento desde o início da pandemia. Na última sexta-feira, 19, o Estado determinou a adoção da bandeira preta, nível de alerta máximo, em 11 das 21 regiões. Com isso, 68,4% da população gaúcha encontra-se nas cidades com maior risco de contaminação e mortes.

Situação semelhante aconteceu em Manaus, quando faltou oxigênio nos hospitais no início do ano
Situação semelhante aconteceu em Manaus, quando faltou oxigênio nos hospitais no início do ano
Foto: Edmar Barros / Futura Press

Segundo o governo estadual, a taxa de ocupação de 86,7% dos leitos de UTI. Nos pequenos municípios, como em Boqueirão do Leão, a situação é muito grave. Na cidade, distante cerca de 140 km de Porto Alegre, os poucos leitos não dão conta da demanda.

O município, que tem cerca de oito mil habitantes, viu os casos de covid crescerem rapidamente nas últimas semanas, colocando o sistema de saúde da cidade à beira do colapso e obrigando o prefeito a pedir, na segunda-feira, 22, que moradores emprestassem tanques oxigênio para garantir o atendimento a pacientes. Situação semelhante ocorreu na cidade de Monte Carmelo, no Triângulo Mineiro.

A cidade gaúcha tinha à disposição 10 cilindros de oxigênio e, por isso, precisou recorrer aos empréstimos até que um novo lote de 28 cilindros chegasse ao hospital. Mas se a curva de casos mantiver o ritmo das últimas semanas, pode faltar oxigênio mais uma vez. No hospital local, há quatro leitos de UTI covid, mas havia 16 pacientes na unidade. O problema fica ainda mais grave pelo baixo número de médicos, apenas dois, para toda a demanda hospitalar. Além de o hospital ser de pequeno porte, profissionais precisarão ser afastados por terem sido contaminados pela doença.

O prefeito de Boqueirão, Jocemar Barbon (PL), adotou lockdown. "Sempre fui contra o fechamento e hoje, no momento em que estamos vivendo, não tem o que fazer, temos que fechar, infelizmente. O comércio está aberto ainda, mas com todas as precauções, caso contrário teremos que fechar tudo."

Governo veta comércio à noite, mas libera aulas na creche

Na segunda-feira, o governador Eduardo Leite (PSDB) confirmou o mapa de bandeiras e publicou novos decretos para tentar conter o vírus. Entre as novas regras, foram suspensas todas as atividades comerciais entre 20h e 5h, regra que vale para todos os municípios do Estado, inclusive os que não estão sob regime de bandeira preta.

No decreto, porém, o governo autoriza a realização de aulas presenciais no Ensino Infantil e no 1º e 2º anos do Ensino Fundamental. Além disso, o governo manteve o sistema de cogestão municipal, o que autoriza os governantes municipais a adotarem protocolos equivalentes à bandeira anterior (menos restritiva) a qual foram classificadas. Leite havia dito, na sexta-feira, que estudava acabar com o modelo de cogestão. Passado o fim de semana, ele cedeu à pressão de prefeitos e empresários e autorizou a manutenção do sistema.

Porto Alegre foi uma das cidades que adotou os protocolos da bandeira vermelha, mesmo estando sob classificação de bandeira preta pela SES. Na capital, 96,37% dos leitos de UTIs estão ocupados. O prefeito da cidade, Sebastião Melo (MDB), tem sido um forte defensor da liberação do comércio e retomada das aulas desde a eleição de 2020. Tanto ele quanto o governador culpam as aglomerações durante as festas de fim de ano e nas últimas semanas.

Infectologista e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal vê nesse afrouxamento das regras um dos motivos para a piora no quadro do Rio Grande do Sul. Ele diz que chegou a se animar com a decisão do governador anunciada na sexta-feira, 19, e lamentou que ela não tenha durado mais do que um fim de semana. "Eu tinha ficado bem satisfeito com as medidas que haviam sido anunciadas, porque vi pela primeira vez, nos últimos meses, o Rio Grande do Sul começar a levar a pandemia a sério."

Estadão
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