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Mesmo com ordem judicial, aposentado não consegue transferência para leito de UTI

Nem uma decisão judicial que obrigava a Prefeitura do Rio a encaminhar Antônio Alves Gomes imediatamente para um leito de UTI foi suficiente para garantir o tratamento. O idoso morreu após esperar por dois dias

30 jul 2020
12h02
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O aposentado Antônio Alves Gomes, de 72 anos, foi um dos 730 a morrerem entre abril e junho no Estado do Rio à espera de transferência para um hospital com mais recursos. Nem uma decisão judicial que obrigava a prefeitura do Rio a encaminhá-lo imediatamente para um leito de UTI foi suficiente para garantir o tratamento. O idoso morreu após esperar dois dias pelo cumprimento da liminar.

Gomes ficou cinco dias internado na UPA Cidade de Deus, na zona oeste do Rio. Ele foi levado ao local no dia 5 de maio pelo Samu após sentir dificuldade para respirar. Ao chegar à unidade, conta a família, a equipe médica não queria recebê-lo. "Ele ficou uma hora do lado de fora esperando. Primeiro, falaram que não tinham vaga. Depois, uma médica apareceu e falou que ia interná-lo, mas que já queria avisar a família que lá não tinha recursos para casos graves, que ele 'ia ficar só por ficar'", relata a neta de Gomes, a caixa Jennifer Rodrigues Lopes, de 30 anos.

Dois dias depois, o quadro de saúde do aposentado piorou e, segundo a família, ele foi colocado em ventilação mecânica. Voltada para atendimentos de urgência, a UPA não era a unidade mais adequada para a permanência do idoso. Jennifer decidiu procurar a Defensoria Pública do Estado do Rio para entrar com ação na Justiça que garantisse um leito de UTI para o avô em um hospital de alta complexidade.

"Fiquei das 7 horas às 21 horas na UPA esperando o laudo médico para anexar ao processo. Quando me entregaram, ainda veio errado, era de outro paciente. No dia seguinte, consegui juntar toda a documentação e a Defensoria entrou com a ação. No próprio dia 8 de maio já saiu a decisão falando que ele tinha que ser transferido para uma UTI. A decisão dizia que, se não tivesse vaga em hospital público, a Prefeitura deveria pagar um leito de hospital privado", conta Jennifer.

A família esperou por dois dias e a transferência não saía. No fim da tarde do dia 10, um funcionário da UPA ligou para familiares de Gomes pedindo que eles comparecessem ao local com os documentos do paciente. "A gente foi para lá achando que tinha saído a transferência. Quando chegamos, avisaram que ele tinha morrido", relata Jennifer. "Eu ainda quis ver se era meu avô mesmo. Como eles tinham trocado o laudo uma vez, deu medo de eles terem se enganado novamente. Medo e esperança, né? Porque, no fundo, eu queria que fosse engano, mas não era", lamenta ela.

Jennifer conta que a família não se conforma com o tratamento dado ao aposentado e que a perda desestruturou a família. Gomes morava só com a mulher, também idosa. A única renda do casal vinha da aposentadoria dele e do dinheiro extra que ele tirava como vendedor ambulante. "Ele vendia cortador de unha, essas coisinhas na rua para complementar a renda porque minha avó não era aposentada. Agora ela está morando com a gente e, além de ter perdido ele, fica preocupada sem saber como vai ser daqui para frente."

A família já vinha ajudando o casal com compras para que Gomes não precisasse sair mais às ruas para trabalhar. "Logo que começou essa pandemia, falei para o meu avô que não era para ele sair de casa por ser grupo de risco. Eu comprava as coisas e levava lá na casa deles", conta. Jennifer diz acreditar que a falta de cuidado e de estrutura da UPA podem ter sido as responsáveis pelo agravamento do quadro do avô. "A gente se pergunta se ele não teria tido mais chance se não tivesse ido para aquele lugar."

Questionada pelo Estadão, a Secretaria Municipal do Rio argumentou que o paciente recebeu atendimento adequado enquanto esteve internado na UPA Cidade de Deus. "O senhor Antônio passou por exames e tratamento com antibióticos e suporte de oxigênio - via nasal - para combater os sintomas mas, infelizmente, apesar dos esforços, o quadro clínico dele piorou e evoluiu para óbito por complicações da covid-19", disse a pasta, em nota. O órgão afirmou ainda que ele estava internado em uma sala que dispõe de equipamentos de CTI, como respiradores, monitores, insumos e medicamentos para pacientes graves.

Conforme a secretaria, o paciente foi inserido no sistema estadual de regulação de vagas logo no primeiro dia que chegou à UPA e que as transferências ocorriam assim que os leitos eram disponibilizados. A secretaria não detalhou por que o paciente não teve prioridade na transferência mesmo com decisão judicial e estado de saúde grave. "Cabe observar que, naquela ocasião, as unidades de emergência do município atendiam, em média, 670 pacientes por dia com suspeita de covid-19", destacou.

Sobre a morte de 730 pacientes à espera de transferência, a Secretaria Estadual da Saúde do Rio informou que "não teve conhecimento" do levantamento feito pela Defensoria Pública "nem reconhece os dados como oficiais" e ressaltou que criou 1.590 leitos na rede estadual para pacientes com covid. "Além disso, foi estruturada força tarefa entre técnicos da SES e especialistas de instituições renomadas para estudo da evolução da doença no território fluminense. Com essas ações, a SES evitou mais de 80 mil óbitos por covid no Estado até o fim de junho e já alcançou mais 135 mil pacientes recuperados da doença", defendeu a pasta.

Já o Ministério da Saúde foi questionado sobre os 2 mil leitos de UTI que prometeu alugar no início da pandemia. Só 540 foram efetivamente instalados. A pasta afirma que chegou a abrir chamamento público para contratar mais estruturas do tipo, mas, por causa a escassez de respiradores (um dos itens que integra o kit de leitos), não apareceram fornecedores. A pasta ressaltou que habilitou (incluiu no sistema federal para repasse de recurso) outros 11 mil leitos de terapia intensiva exclusivos para covid abertos por Estados e municípios, com investimento de R$ 1,5 bilhão.

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Estadão
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