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Médico alerta para subnotificação de síndrome infantil

Ministério da Saúde registrou três mortes de síndrome rara que atinge crianças e adolescentes com possível relação à covid-19

14 ago 2020
05h10
atualizado às 08h19
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A ocorrência de uma síndrome rara com possível ligação à covid-19 no Brasil acendeu o alerta de médicos da área pediátrica para a necessidade de notificação obrigatória em todo o País. Segundo o Ministério da Saúde, até o final de julho, 71 casos haviam sido registrados em quatro Estados: Ceará (29), Rio de Janeiro (22), Pará (18) e Piauí (2). Desse total, foram reportadas três mortes no Rio. A Secretaria da Saúde do Ceará, porém, reportou, no mesmo período, 41 pessoas identificadas com a síndrome e duas mortes, o que sinaliza para subnotificação.

Família acompanha enterro de criança de 1 ano morta por Covid-19 no Rio de Janeiro (RJ) 
08/05/2020
REUTERS/Pilar Olivares
Família acompanha enterro de criança de 1 ano morta por Covid-19 no Rio de Janeiro (RJ) 08/05/2020 REUTERS/Pilar Olivares
Foto: Reuters

"Isso não deve ser o número verdadeiro ainda", disse Jorge Afiune, presidente do Departamento de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), sobre os números divulgados pela ministério. "Uma coisa é notificar, saber que existe, e outra é todas as equipes que estão atendendo seguir o caminho da notificação, uma questão de adesão. A síndrome não tem um código, não tem um prontuário, pode ter fatores que confundem. A ideia da Sociedade é sensibilizar a classe pediátrica para que tenha adesão à notificação", explica.

O médico participou da elaboração de uma nota de alerta, emitida pela SBP em 7 de agosto, para reforçar a necessidade de notificação obrigatória da síndrome. Descrita como síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), o quadro pode afetar crianças de sete meses a adolescentes até 16 anos, conforme o ministério, e pode ser uma reação grave e tardia à infecção pelo novo coronavírus.

Afiune diz que o fato de estarmos diante de um novo fenômeno requer a necessidade de notificação. Segundo ele, há um número de casos relativamente pequeno de crianças com covid-19 em todo o mundo e, quanto menor a idade, mais a doença parece poupar. As explicações passam pelo fato de elas terem menos receptores para o vírus.

"Como é uma coisa nova e o diagnóstico não se faz na fase inicial da doença, o quadro principal não é respiratório, a gente está diante de uma situação um pouco desconhecida. Como a evolução dessa síndrome pode ser potencialmente muito grave se não tiver tratamento inicial, sentiu-se a necessidade de buscar notificação para que a gente tenha uma clareza maior da prevalência da doença e também da verdadeira mortalidade", ressalta o médico.

O especialista comenta que a notificação se faz urgente também pela similaridade de percurso que a síndrome fez no mundo. Os primeiros relatos foram vistos na Europa, no final de abril, quando os serviços de saúde do Reino Unido e da França reportaram alguns casos. No começo de maio, teve-se notícia de 15 crianças hospitalizadas em Nova York, nos Estados Unidos.

"Começou a chamar atenção após a primeira onda da doença em alguns países da Europa. Isso seguiu um pouco o caminho que a pandemia fez, que começou na Ásia, passou pela Europa, Estados Unidos e América do Sul. Especialmente na Itália, França, Suíça e Inglaterra, depois que a primeira onda acometeu adultos principalmente, começou a perceber casos de apresentação diferente em crianças, entre 5 e 12 anos", descreve Afiune. "A maioria havia relação temporal com a covid-19, até quatro semanas, de um caso na família ou presença do vírus."

Até o momento, embora a maioria dos casos conhecidos no País esteja associada à infecção pelo novo coronavírus, não há uma confirmação de causa e efeito. O Ministério da Saúde destaca que as ocorrências são raras diante do número maior de crianças e adolescentes que evoluíram bem após contrair o vírus.

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Estadão
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