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'Jovens vão para festas como se pandemia tivesse acabado', diz David Uip sobre novos casos de covid

De acordo com o infectologista, que é membro do Centro de Contingência contra o Coronavírus do governo de São Paulo, a população reagiu de forma errada à reabertura

19 nov 2020
23h02
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Membro do Centro de Contingência contra o Coronavírusdo governo de São Paulo, o infectologista David Uip atribui a festas e eventos o novo aumento de casos da covid-19 no Estado.

De acordo com o especialista, que também atua nos hospitais Sírio-Libanês e Nove de Julho, a população, sobretudo os jovens, reagiu de forma errada à reabertura, agindo como se a pandemia tivesse acabado. "Academias, salões de beleza, restaurantes estão protocolados. Vejo as pessoas seguindo as normas de segurança nesses locais. Não está aí o problema. Também não está nas escolas. O problema está nas festas, nas aglomerações, nos encontros de múltiplas pessoas sem qualquer cuidado", disse ele, em entrevista ao Estadão.

O infectologista ressalta ainda que, com a experiência dos últimos meses, os médicos aprenderam melhores condutas para lidar com os pacientes graves e destaca que, diante da ameaça de um novo pico da pandemia, os hospitais não devem desmobilizar os leitos para covid. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Como o senhor avalia esse novo aumento de casos de covid? Ele era esperado para esse momento?

Desde o começo, havia três preocupações: como as pessoas reagiriam à reabertura, como seria a volta às aulas e como seriam as eleições. A volta às aulas não teve problema porque a maioria das escolas nem reabriu e as que reabriram estão seguindo protocolos. O problema foi como as pessoas reagiram à reabertura. Os jovens foram para as festas como se nada tivesse acontecido, como se a pandemia tivesse acabado. Atendi um caso de um grupo de amigos que foi passear de barco. Dos nove que estavam no passeio, oito estão infectados. Eu fico sabendo de festas com 500 pessoas. O problema é que esses jovens acabam infectando pais e avós. E as pessoas mais velhas também voltaram a se encontrar, a ver familiares e amigos. Quanto às eleições, o dia da votação funcionou muito bem. O problema foi antes. As pessoas não entenderam as recomendações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e fizeram palanque, aglomeração, carreata. Outra questão foi a sequência de feriados. Quem viu as praias e outros espaços cheios sabia que ia vir aumento de casos.

Já podemos falar em segunda onda? Como ela se diferencia da primeira?

Não acho que é segunda onda, acho que continua a primeira. São Paulo teve uma queda muito boa de casos, mas voltou a subir. O manuseio do doente grave nós aprendemos. Tem que fazer sustentação da vida com recursos de assistência respiratória e renal e aparelhos sofisticados como o ECMO, que é uma membrana extracorpórea que funciona como um pulmão artificial enquanto o pulmão da pessoa, atacado pelo vírus, fica descansando por até 14 dias. Temos casos espetaculares de pessoas com quadros graves que saíram vivas por usarem esses recursos. Um doente grave precisa de um hospital estruturado, com equipes treinadas e protocoladas em todas as áreas, com fisioterapeutas, que fazem toda a diferença na UTI. Muita gente olha a UTI como reta final, mas ela é a porta de saída para a doença. Salvamos muita gente graças aos recursos e equipes das UTIs.

E quanto aos medicamentos? O que mudou em relação ao início da pandemia?

A única droga comprovada para pacientes graves é o corticoide, o dexametasona. Os antivirais não mostraram sucesso. Como apoio, também há os anticoagulantes. Quando fiquei doente (ele foi infectado pela covid-19 em março), ainda não estava claro o papel deles. Hoje já sabemos que ajudam. Então você usa corticoide, anticoagulante e, quando tem infecções bacterianas, tem uma sequência de antibióticos que você pode usar. O restante é suporte de vida, que evoluiu bastante. Os pneumologistas e fisioterapeutas hoje sabem como adequar melhor as fases de ventilação, quando usar cateter, máscara de oxigênio e a ventilação.

Diante desse aumento de infecções, não seria o caso de impor algumas restrições?

O centro de contingência (do governo de São Paulo) recomendou e o governador (João Doria) adotou a suspensão de qualquer nova flexibilização. Outra sugestão que fizemos é não desmobilizar os hospitais e os leitos voltados para covid. Outra coisa é a necessidade do financiamento desses leitos, o Ministério da Saúde tem que manter o financiamento deles. E continuar conversando com Estados e municípios para manter a vigilância sanitária epidemiológica. Todos os dias damos sugestões ao governador. As coisas não são estanques. A flexibilização progride, mas também pode regredir. Agora ela ficou estagnada, mas novas decisões vão depender dos números.

E quais são os critérios que levariam a decretar restrições mais rígidas?

A decisão de hoje vale para hoje. Monitoramos o índice de ocupação de leitos gerais e de UTI. Tanto uma coisa como a outra estão abaixo de 50% no Estado. A pressão agora está nos hospitais privados. Agora precisamos monitorar se vai ocorrer o mesmo que no início da pandemia, ou seja, se na sequência teremos um aumento de contaminação nas periferias. Não sabemos se será igual, não sabemos o percentual de pessoas já contaminadas anteriormente em cada região.

E como os hospitais privados estão lidando com esse novo aumento de casos?

Eu atuo no Sírio-Libanês e no Nove de Julho. Apesar do aumento de casos, os hospitais estão dando conta. Inclusive foi divulgado um vídeo falso que dizia que eu havia falado que pessoas estavam sendo atendidas em corredores. Isso é falso.

O que mais te preocupa sobre a chegada de uma nova onda?

A falta de conscientização das pessoas. Não podemos dizer que as pessoas não estão informadas. Isso não é verdade. Mas, muitas vezes, a informação não implica em mudança de comportamento. As pessoas estão informadas, mas não se conscientizaram e agem como se a pandemia tivesse acabado. Eu entendo que as pessoas estão exauridas com tudo isso, mas o vírus não está. Ele continua muito ativo.

Mas, por mais que as pessoas estejam informadas, a reabertura de tantos serviços não essenciais, como restaurantes, bares e academias, não pode ter passado a impressão a elas de que a pandemia estava sob controle?

A gente tinha números para fazer isso (a flexibilização). Ela não foi feita de maneira afoita ou sem critérios. Só que ninguém falou que poderia haver festas, aglomerações. Ninguém falou que a vida continuava como se nada houvesse.

Então o senhor considera que os maiores responsáveis por esse novo aumento de casos são essas festas e eventos que geram aglomerações?

Eu nao tenho a menor dúvida. Academias, salões de beleza, restaurantes estão protocolados. Vejo as pessoas seguindo as normas de segurança nesses locais. Não está aí o problema. Também não está nas escolas. O problema está nas festas, nas aglomerações, nos encontros de múltiplas pessoas sem qualquer cuidado. Primeiro, essas pessoas frequentam esse tipo de evento, o que é já uma imprudência. Segundo, eles não têm regras.

Como o senhor vê a preparação do sistema de saúde para essa nova onda?

São Paulo conseguiu resistir. Ninguém deixou de ser atendido ou internado. Ninguém foi enterrado em vala comum. Existe toda essa estrutura prévia, mas temos que ver como será no dia a dia. Não tem como garantir o que vai acontecer.

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Estadão
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