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É preciso fortalecer vacinação de viajantes, diz diretor do Evandro Chagas

Para especialista em doenças infecciosas e virologia, imunizar os homens adultos é um dos principais desafios

3 jan 2019
03h11
atualizado em 25/2/2019 às 14h34
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SÃO PAULO - Nos últimos anos, o Brasil enfrentou o aparecimento de doenças, como as causadas pelos vírus da zika e do chikungunya, e o reaparecimento de outras que já estavam erradicadas, caso do sarampo. Mesmo com sucessivas campanhas, a cobertura vacinal no País não é considerada ideal. Para melhorar os índices entre adultos e crianças, o pesquisador Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, órgão ligado à Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, aposta em reforçar a estratégia de imunização dos viajantes.

"É preciso fortalecer uma política para orientar as pessoas que busquem esse apoio para, quando for viajar, ter exames e vacinas importantes para a viagem, determinados pela região que elas vão visitar", diz Vasconcelos, que é especialista em virologia e doenças infecciosas, e membro honorário internacional da Sociedade Americana de Higiene e Medicina Tropical (ASTMH, na sigla em inglês). A seguir, os principais trechos da entrevista:

Desde 2015, o Brasil tem convivido com epidemias, como a de dengue, e o reaparecimento de doenças até então controladas, caso do sarampo. Por quê?

A febre amarela é uma doença que sempre teve casos, mas houve uma expansão muito forte em Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo por causa de dois fatos: Minas tinha uma taxa de cobertura vacinal baixa e outros Estados eram áreas consideradas sem recomendação para vacinação. Onde é para vacinar, tem de vacinar, porque pode ocorrer de novo. Já o sarampo é algo que estava com um controle bastante intenso, com a vacinação praticamente eliminando o risco de transmissão, até que a situação da Venezuela fez com que as pessoas migrassem e tivesse a incidência de casos. Em relação a outros vírus que ocorreram, como zika e chikungunya, (a ocorrência) se deu pela questão do fluxo aéreo internacional, que facilitou a dispersão de vírus transmitidos por vetores.

Com o grande número de pessoas viajando para outros países e outras vindo para o Brasil, é possível notar que doenças que estão em surto no exterior logo chegam ao País. O que pode ser feito em relação a isso?

Em qualquer parte do mundo, isso é possível. Há doenças que são exóticas para nós, e esse risco ocorre nos dois sentidos. Durante a epidemia de febre amarela, tivemos casos exportados. A questão da saúde do viajante é um problema, porque é preciso acompanhando e as pessoas não têm o hábito de consultar e se aconselhar sobre quais vacinas e cuidados precisam tomar, principalmente quando vão para países com problemas sociais e doenças. É algo que precisa ser fortalecido para que as pessoas pensem nas doenças e no risco potencial de adquiri-las. Além disso, é muito fácil viajar e os aviões têm mais autonomia de voo, o que acelera a transferência de doenças de um lugar para outro. A possibilidade de se levar ou se trazer doenças alimentares, vetoriais, hídricas, respiratória, como sarampo, é muito grande.

O País convive com o desafio de aumentar a cobertura vacinal entre os adultos. O foco na saúde do viajante ajudaria?

Sim, mas vacinar adulto, principalmente do sexo masculino, é complicado. É preciso fortalecer uma política para orientar as pessoas que busquem esse apoio para, quando for viajar, ter exames e vacinas importantes para a viagem, determinados pela região que elas vão visitar. Precisa de um fortalecimento dessa informação, passando pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), na entrada e na saída das pessoas, do Ministério da Saúde e do Ministério do Turismo.

O que os casos de contaminação pelo vírus da zika ensinaram para o Brasil no que diz respeito a respostas para epidemias?

O zika, apesar de todas as consequências, como microcefalia, teve uma resposta rápida do governo federal e das secretarias de saúde. Foi criado um comitê de emergência para monitorar e intervir nessa situação e recursos foram liberados de forma emergencial, o que acelerou a busca e a intervenção nas áreas críticas naquele momento. Era uma emergência em saúde pública como poucas que a gente viveu. É uma doença sem vacina, ao contrário da febre amarela. Apesar das mortes e das crianças que nasceram com sequelas tão intensas, a saúde pública se mobilizou e conseguiu ter um domínio da situação. Nos últimos dois anos, o País tem lidado com uma estabilidade em relação ao número de casos de dengue.

Isso deve se manter ou a maior prevalência do sorotipo 2, que já é vista desde 2017, deve trazer uma nova epidemia?

É difícil prever, mas tem chovido muito no País e o aumento das chuvas aumenta os criadouros. Infelizmente, as pessoas não cuidam do seu quintal e o risco de transmissão é maior com o aumento de vetores. Se persistir essa situação, é bem capaz de termos um cenário preocupante.

As doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, chikungunya e febre amarela, costumam ser temidas. A malária também deve ser vista com preocupação?

A malária tem aumentando muito nos últimos meses. Teve um aumento no Estado do Pará, na região das ilhas, onde o acesso é mais restrito, e em Rondônia. Após mais de cinco anos com tendência de queda. O risco de aumentar em 2019 é grande.

Estadão
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