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O câncer bate à porta: a força para viver bem após o diagnóstico de câncer de mama metastático

'Ninguém falou que é fácil, mas ninguém disse que é impossível', diz paciente diagnosticada há cinco anos

13 jun 2018
08h01
atualizado às 19h28
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Era 2013. Vanessa amamentava seu filho, na época ainda com alguns meses de vida, quando percebeu uma alteração em seu seio. O nódulo a levou para uma consulta na ginecologista, e ela saiu do consultório com um encaminhamento a um mastologista e uma guia para realizar a mamografia. O diagnóstico veio no dia 25 de julho daquele ano, e ali começava a batalha de Vanessa Costa, que hoje tem 41 anos, contra o câncer de mama, que posteriormente se espalhou para outras partes do corpo.

Três anos antes, em 2010, era Elfriede Galera quem via sua vida ter um "antes e depois", como ela define. Logo após se aposentar, começou a perceber que uma de suas mamas estava diferente da outra. Após exames, descobriu que não só tinha câncer de mama, como ele já estava no estágio 4, ou seja, havia tumores também em outros órgãos (ossos, pulmão e fígado).

As duas fazem parte das mais de 59 mil mulheres que recebem o diagnóstico de câncer de mama todos os anos, de acordo com estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Este é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres brasileiras depois do de pele, representando 28% dos novos casos de câncer a cada ano. Das diagnosticadas, 75% têm mais de 50 anos, e 30% delas terão metástase, como é o caso de Elfriede e Vanessa.

É como se o câncer batesse à porta não uma, mas duas, três, várias vezes. E aí começa o "depois" a que Elfriede se refere. O câncer ainda é muito associado à morte, e até mesmo proferir o termo causa medo - "atrai", na crença popular - mesmo num cenário de constantes avanços da medicina e da farmacologia em tratamentos e drogas focados não apenas em aumentar o tempo de vida, mas de promover qualidade em cada dia vivido.

Elfriede e Vanessa sentiram o estigma antes mesmo do diagnóstico. Quando Vanessa contou para sua mãe que desconfiava do câncer, ela foi categórica, dizendo que não era possível pois "não havia nenhum tipo de câncer na família", e disse para ela parar de ser pessimista. "Não é questão de atrair, é questão de estar preparado. Falta muita informação, não dá para ser leigo em relação à saúde, porque ela só depende de você. É importante ir atrás, saber das opções de tratamentos, as chances, tudo", diz.

Já Elfriede foi, inclusive, desencorajada a procurar um médico quando desconfiava de um tumor. "Comecei a perceber que uma das mamas era diferente, conversei com diversas pessoas sobre isso e elas falavam: 'Não, você não pode pensar assim, essas coisas atraem'. E, em vez de ser incentivada a procurar um mastologista, recebia as informações ao contrário, diziam que eu não deveria nem falar a palavra câncer. Mas quanto mais a gente puder falar de câncer, melhor é", opina.

Após um diagnóstico de câncer, o paciente precisa de muito apoio. Entretanto, a falta de informação faz justamente o contrário ao perpetuar ideias equivocadas e estimular o preconceito contra pessoas com a doença. Pesquisa realizada pela Pfizer em parceria com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) mostra que 54% dos pacientes acreditam que ainda existe a ideia de que o câncer de mama foi desencadeado por conta de mágoa/castigo.

Luciana Holtz, psico oncologista e presidente do Oncoguia, resolveu criar a ONG justamente com o objetivo inicial de levar informações corretas para os pacientes e familiares sobre o câncer. "Existe ainda esse estigma de que o câncer mata. A nossa bandeira principal é fazer de tudo para mudar isso. Há desde pessoas com medo de se cuidar, porque escutam o que pessoa 'x' acha. Há pacientes com medo da informação. Há amigos e familiares que abandonam porque não sabem lidar. A falta de informação aumenta o medo".

As pacientes, que já passaram por tratamentos que alternam quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia, garantem que há vida além do câncer. O oncologista Sergio Simon, presidente da SBOC, diz que hoje o câncer já pode ser considerado pela comunidade médica como uma doença crônica. "Há algumas semanas eu comemorei bodas de prata com uma paciente minha: ela trata o câncer de mama há 25 anos, e está bem", contou.

Elfriede tinha um plano: quando se aposentasse, ela e o marido iriam terminar de construir um barco no qual estavam trabalhando desde os anos 1980 e sairiam velejando pelo mundo. O diagnóstico, há oito anos, alterou os caminhos, mas não a fez desistir da jornada.

Tudo começou há mais de 20 anos, quando Elfriede e seu marido, Jadyr, queriam ter filhos. Sem sucesso, eles procuraram diversos médicos e começaram a fazer tratamentos. "Um médico muito doido disse: 'Você precisa mudar de pensamento. Não pode ficar só pensando em bebê'", relembra Elfriede.

Logo em seguida ela e seu marido foram passar férias no Rio de Janeiro e, na Marina da Glória, foram olhar o preço de um veleiro, mesmo sabendo que não conseguiriam comprar. E então eles começaram a construir um barco. "Oito meses depois disso, eu estava grávida". Elfriede teve dois filhos, mas o sonho de um dia ver aquele barco no mar continuou. O casal seguiu construindo-o, lentamente, até que veio o diagnóstico em 2010.

"Eu percebi que meu marido começou a trabalhar muito no barco, porque ele queria terminar o barco para que eu pudesse aproveitar. E isso foi uma prova de amor muito grande. E aí comecei a ajudar ele".

O sonho despertou em pessoas próximas e desconhecidas o desejo de ajudar, e em 2014 uma mulher sugeriu para Elfriede a criação de uma campanha de financiamento coletivo online. Faltavam R$ 9 mil para finalizar o barco, e ela conseguiu, em um mês, mais do que isso.

Durante a Copa do Mundo - "eu nunca vou esquecer do 7 a 1, eu tinha medo de abrir a geladeira e sair um novo gol da Alemanha", brinca Elfriede - o barco foi para o mar em Ilha Bela, onde está até agora. "Eu me sinto muito bem no mar. Lá, eu não me sinto uma pessoa doente, é fantástico", diz.

Já Vanessa encontrou sua força ao fortalecer outras mulheres. Ela criou uma página no Facebook, a Diário Oncológico por Vanessa Costa, onde desabafa sobre suas lutas, vitórias e sentimentos ao mesmo tempo em que acolhe mulheres que também enfrentam o câncer de mama.

"Isso me faz bem, colocar para fora, por meio de palavras, o que eu sinto, e ter pessoas que não me conhecem falando. É muito importante conviver com outras mulheres diagnosticadas porque é possível ver que não é só você que está passando por isso. Não é só você que tem os efeitos colaterais da quimio, que tem a libido que vai lá para baixo, que tem filho, cuida da casa e tem que fazer muita coisa. Minha mãe vai entender pelo amor de mãe, mas ela não vai sentir o que eu sinto", diz Vanessa.

Simon destaca que o tratamento oncológico moderno não deve focar apenas na doença, como se faz há muito tempo. "O foco não deve ser apenas o câncer, mas na qualidade de vida da pessoa que está com câncer", diz.

Nessa luta, Vanessa tenta ver o lado positivo em cada detalhe. "Sempre procurei algo de bom. Eu tenho três filhos, e nunca havia conseguido ficar em casa com os dois mais velhos após a licença-maternidade, já com o mais novo, eu consigo dar mais atenção. A gente não pode só tirar coisa ruim do câncer, eu fiz amizades maravilhosas", conta. "Ninguém falou que é fácil, mas ninguém disse que é impossível. Você vai continuar levando sua vida, você pode ter alguma limitação, mas é possível".

Elfriede também contou ter feito amizades incríveis nesta jornada, e ressalta a importância de manter a vontade de viver acima de tudo. "Sempre haverá um medicamento para você. Eu tenho uma amiga que está há quase 12 anos com o mesmo medicamento, e isso é uma coisa maravilhosa: não é a cura, mas é a vida", fala. Um conselho para uma mulher que acabou de ser diagnosticada? "Ela vai se desesperar, chorar, e tem o direito disso. E vai acontecer um momento em que ela vai olhar e dizer: 'eu vou enfrentar'. E ela vai perceber que existe muita vida para se viver ainda", conclui.

Estadão Conteúdo

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