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'A gente tenta explicar, mas a resistência é grande', conta dentista que atuou no combate à covid-19

Aos 54 anos, Kátia Gaspar trabalhou 21 na rede pública de São Paulo antes de ser realocada para a linha de frente da pandemia

28 out 2020
20h01
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Trabalhando no sistema público de saúde há 21 anos, a dentista Kátia Gaspar, de 54 anos, se viu em um desafio profissional que nunca imaginou viver. Foi realocada, em maio, para a linha de frente do combate ao novo coronavírus. Em Campo Limpo, região periférica da zona sul de São Paulo, trabalhou durante três meses recebendo os pacientes que chegavam ao posto com suspeita de terem contraído a covid-19. "A população não tinha consciência do que estava acontecendo", lembra.

Há 12 anos funcionária do Centro de Especialidade Odontológica em Campo Limpo, um dos 30 na capital, viu os atendimentos da unidade serem suspensos ainda em março, quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) decretou calamidade pública na cidade. Em abril, um decreto federal obrigou dentistas e outras 14 categorias de profissionais da saúde se cadastrassem em um banco nacional. Em maio, Kátia voltou ao Campo Limpo para realizar o primeiro atendimento de triagem a quem chegasse ao posto de saúde.

"A princípio, a gente acreditou que fosse ficar só na nossa área mesmo. Como eu trabalhava no setor de especialidades, não tive uma atuação efetiva. Os dentistas que atuavam na parte da atenção básica estavam fazendo atendimentos de emergência, caso tivesse necessidade", explica. Ainda assim, à medida que a pandemia evoluiu até entre os próprios médicos, que registraram mais de 250 mil infecções até agosto, a dentista também teve que ajudar em outras partes.

Foram três meses na recepção de um posto, recebendo pacientes com sintomas e os direcionando a uma de duas salas disponíveis para o tratamento. "É difícil, viu? Eu dava conta, mas era difícil. Trabalhava meio período, mas só nesse tempo eu atendia até 40 pacientes por dia", lembra. "Tinha momentos que ficava muita gente esperando e eu ficava agoniada pra tentar ajudar o mais rápido possível, porque percebia que os médicos não estavam dando conta. Eram dois para uma demanda de 15, 20."

Kátia pedia para as pessoas na fila terem paciência e, quando as ambulâncias chegavam, já encaminhava alguns diretamente para o hospital. "Ficava querendo ajudar mais efetivamente", explica. Ao mesmo tempo, precisava equilibrar o medo de se contaminar e, eventualmente, transmitir o vírus para a mãe, com quem mora e ajuda a cuidar. "A gente fica preocupado até em passar para outras pessoas, mas usamos todo o equipamento necessário e tomamos os cuidados possíveis."

Apesar de usar constantemente a máscara, passar o álcool em gel nas mãos e tirar a roupa antes de cumprimentar a mãe, Kátia conta que se espantava ao ver o pouco cuidado com que a população encarava a pandemia. "Eu via nas ruas cada vez mais as pessoas saindo, gente andando tranquilamente com crianças, gente indo para a UBS sem necessidade."

Apesar das dificuldades, Kátia afirma a experiência foi válida para reconhecer o trabalho duro de enfermeiros no dia a dia e valorizar os profissionais da saúde. "A gente tenta explicar, mas a resistência é grande, os pacientes querem fazer tudo da cabeça deles. Senti que fui muito útil, pelo menos no sentido de orientar. Até hoje, as pessoas não sabem a necessidade de usar a máscara corretamente, mas sentimos que têm mais consciência do que está acontecendo. Quando o problema chega na família que a gente vê a necessidade de se proteger."

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Estadão
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